
A castanha-do-pará, que tem como nome oficial brasileiro castanha-do-brasil, é a semente da castanheira (Bertholletia excelsa Bonpl.), árvore nativa da Amazônia e da família Lecythidaceae. Conhecida no mundo inteiro como uma das oleaginosas mais saborosas da floresta, ela carrega uma particularidade que muda a forma de consumi-la: é, entre os alimentos comuns, a fonte mais concentrada de selênio que se conhece. Isso faz da castanha um caso exemplar de que, em nutrição, a diferença entre o suficiente e o excessivo pode caber em poucas unidades.
Sumário do Artigo
Uma Gigante da Floresta Amazônica
A castanheira é uma árvore emergente, ou seja, sua copa ultrapassa o dossel da floresta e pode alcançar cerca de 50 metros de altura, com troncos largos e retos que vivem por séculos. Ocorre em áreas de terra firme de boa parte da bacia amazônica, com destaque para a Bolívia, o Brasil e o Peru, e a maior parte da produção comercial ainda vem da coleta extrativista em mata nativa, atividade que sustenta muitas comunidades da região. Na literatura botânica aparece também o sinônimo Bertholletia nobilis Miers, hoje tratado como o mesmo táxon.
O que chamamos de castanha é, na verdade, a semente. Ela se forma dentro de um fruto grande e pesado, uma cápsula lenhosa de casca muito dura que guarda de dez a vinte e poucas sementes encaixadas como gomos. Esse fruto não se abre sozinho ao cair, e na natureza quem consegue roê-lo é praticamente só a cutia, um roedor de dentes fortes que come parte das sementes e enterra outras como reserva. As que ficam esquecidas germinam, de modo que a cutia acaba sendo uma das principais dispersoras da espécie.
Por sua importância ecológica e econômica, a castanheira tem proteção legal no Brasil. O Decreto Federal 5.975/2006 mantém a espécie protegida contra corte em floresta nativa, e a árvore também consta como vulnerável na Lista Vermelha da IUCN, o que reforça a importância de valorizar a coleta sustentável em vez da derrubada.

Selênio: Por Que a Castanha É Tão Diferente
O selênio é um mineral essencial que o organismo usa em pequenas quantidades para formar selenoproteínas, entre elas enzimas antioxidantes do grupo das glutationa peroxidases e enzimas que participam do metabolismo dos hormônios da tireoide. A relação entre selênio e saúde da tireoide é tema em estudo, com resultados ainda inconsistentes, e não autoriza tratar a castanha como recurso para doenças da glândula.
A castanheira absorve do solo o selênio disponível e o acumula na semente, por isso o teor de cada castanha depende muito de onde a árvore cresceu. Análises publicadas mostram uma variação enorme, que vai de menos de 10 µg a mais de 100 µg de selênio por unidade, conforme a região e até o lote. Para comparar, a recomendação diária para adultos nos Estados Unidos é de 55 µg, e a ingestão adequada definida pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) é de 70 µg. Na prática, isso quer dizer que não existe um número fixo de quanto uma castanha representa da necessidade do dia: dependendo da origem, uma unidade pode cobrir parte modesta dela ou ultrapassá-la sozinha.
Um estudo clínico realizado na Nova Zelândia mostrou que comer duas castanhas por dia elevou os marcadores sanguíneos de selênio de forma comparável a um suplemento de 100 µg, o que ilustra a potência do alimento. É justamente essa concentração que exige atenção com a quantidade.
Quanto Comer por Dia: Os Limites Oficiais
Em 2023, a EFSA revisou o limite superior tolerável de ingestão (UL) de selênio para adultos e o reduziu de 300 para 255 µg por dia. O cálculo partiu de um nível mínimo de efeito adverso observado de 330 µg por dia, derivado do estudo SELECT, ao qual se aplicou um fator de incerteza de 1,3. A própria opinião científica da agência menciona os consumidores regulares de castanha-do-pará entre os grupos com possibilidade de ultrapassar esse teto. Nos Estados Unidos, o Food and Nutrition Board do antigo Institute of Medicine fixou em 2000 um UL de 400 µg por dia para adultos.
Com base nesses números, o consenso prático difundido por nutricionistas é de que uma a duas castanhas por dia já cobrem a necessidade de selênio da maioria dos adultos e ficam dentro de uma margem segura. Comer um punhado todos os dias, porém, pode levar a ingestão acima do limite, sobretudo quando o lote vem de solos muito ricos no mineral. Também não faz sentido somar castanhas diárias a um suplemento de selênio isolado ou a um polivitamínico que já contenha o mineral sem orientação de um profissional de saúde, porque as fontes se acumulam.
Sinais de Excesso: A Selenose
O consumo prolongado acima do limite pode causar selenose, a intoxicação crônica por selênio. Os sinais mais descritos são unhas fracas e quebradiças, cabelo quebradiço ou queda de cabelo, hálito e suor com odor que lembra alho, desconforto gastrointestinal como náusea e diarreia, além de irritabilidade e cansaço. Relatos de surtos causados por suplementos mal formulados mostram que esses sintomas tendem a melhorar quando a fonte excessiva é suspensa, embora alguns possam persistir por meses, e por isso qualquer suspeita merece avaliação médica, inclusive para medir o selênio no sangue.
Outros Cuidados com a Castanha
Alergia a Oleaginosas
A castanha-do-pará é uma das oleaginosas reconhecidas como causa de alergia alimentar, que em pessoas sensíveis pode incluir reações graves. Sua proteína de armazenamento chamada albumina 2S, catalogada como Ber e 1, é um alérgeno reconhecido e resiste bem ao calor, de modo que torrar a semente não elimina o risco. Quem tem alergia a outras castanhas e nozes pode reagir também a ela, por reatividade cruzada ou por sensibilização simultânea, tema que explicamos melhor no artigo sobre o pistache e o cuidado com alergia a oleaginosas. Diante de histórico de reação, a introdução deve ser decidida com um alergologista.
Aflatoxina e Armazenamento
Como outras oleaginosas, a castanha pode ser contaminada por fungos produtores de aflatoxinas quando é colhida, secada ou guardada em condições inadequadas de umidade. Por isso o teor dessas toxinas é monitorado pela ANVISA, e vale preferir produtos de procedência conhecida, com embalagem íntegra e prazo de validade visível. Castanhas com mofo, manchas escuras, cheiro de bolor ou sabor amargo devem ser descartadas.
Rancificação
Por ser rica em gorduras insaturadas, a castanha rancifica com facilidade quando exposta ao calor, à luz e ao ar. O ideal é guardá-la em pote bem fechado, em local fresco ou na geladeira, e consumi-la dentro da validade, já que o sabor rançoso indica oxidação da gordura.
Óleo de Castanha na Cosmética
Da semente prensada se extrai um óleo amarelado que tem uso tradicional na cosmética amazônica e hoje aparece em formulações comerciais como hidratante para cabelos e pele. Seu emprego nesse contexto é cosmético, ligado à textura e à capacidade emoliente do óleo, e não envolve alegação terapêutica. Quem tem alergia à castanha deve evitar também produtos que contenham o óleo.
Não Confunda: Castanha de Caju, Castanha-Portuguesa e Sapucaia
A sapucaia (Lecythis pisonis) pertence à mesma família da castanheira e produz sementes comestíveis apreciadas em várias regiões do Brasil. Suas sementes também concentram selênio, em teores que variam muito de árvore para árvore e podem igualar ou superar os da castanha-do-pará. O gênero Lecythis tem registro clássico de intoxicação por selênio: na Venezuela, a espécie aparentada Lecythis ollaria, chamada ali de coco-de-mono, foi associada por Kerdel-Vegas, em 1966, a casos de queda de cabelo após consumo em quantidade, e relatos posteriores descrevem o mesmo quadro com alterações nas unhas. Para a sapucaia não há surto documentado, mas o teor elevado e variável recomenda a mesma moderação.
Já a castanha de caju (Anacardium occidentale), semente do cajueiro, e a castanha-portuguesa (Castanea sativa), consumida cozida ou assada, são espécies totalmente diferentes, de famílias botânicas distintas, que apenas compartilham parte do nome popular. Nenhuma delas tem o perfil de selênio da castanha-do-pará, e as orientações de quantidade deste artigo não se aplicam a elas.
Perguntas Frequentes
Quantas Castanhas-do-Pará Posso Comer por Dia?
Para a maioria dos adultos, uma a duas unidades por dia costumam cobrir a necessidade de selênio e ficar dentro de uma margem segura. Como o teor varia muito conforme o solo de origem, comer um punhado todos os dias pode ultrapassar o limite tolerável. Quem já usa suplemento com selênio deve conversar com um profissional antes de incluir castanhas diariamente.
Castanha-do-Pará e Castanha-do-Brasil São a Mesma Coisa?
Sim. Castanha-do-brasil é o nome oficial adotado pelo Ministério da Agricultura e pela Embrapa, enquanto castanha-do-pará é o nome popular mais usado no dia a dia. Ambos se referem à semente da Bertholletia excelsa.
Quais São os Sinais de que Comi Selênio Demais?
O excesso crônico pode causar unhas e cabelos quebradiços, queda de cabelo, hálito e suor com cheiro de alho, náusea, diarreia e irritabilidade. Ao notar esses sinais junto com consumo frequente de castanhas ou suplementos, o recomendado é suspender a fonte e procurar avaliação médica.
Torrar a Castanha Reduz o Risco de Alergia?
Não de forma confiável. O principal alérgeno da castanha-do-pará, a proteína Ber e 1, é resistente ao calor, então a castanha torrada também pode provocar reação em pessoas sensíveis. Quem tem alergia a outras oleaginosas deve buscar orientação de um alergologista antes de experimentá-la.
Qual É a Melhor Forma de Guardar Castanha-do-Pará?
Em pote bem fechado, longe de calor, luz e umidade, de preferência na geladeira. Isso retarda a rancificação da gordura e reduz o risco de mofo. Descarte castanhas com cheiro de bolor, manchas ou gosto amargo.
Referências
- Brasil. Decreto nº 5.975, de 30 de novembro de 2006. Planalto. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/decreto/d5975.htm
- EFSA Panel on Nutrition, Novel Foods and Food Allergens (NDA). Scientific opinion on the tolerable upper intake level for selenium. EFSA Journal, 2023;21(1):7704. https://doi.org/10.2903/j.efsa.2023.7704
- GBIF. Bertholletia excelsa Bonpl. https://www.gbif.org/species/3083180
- IUCN Red List of Threatened Species. Bertholletia excelsa. https://www.iucnredlist.org/search?query=Bertholletia%20excelsa
- Kew, Plants of the World Online. Bertholletia excelsa. https://powo.science.kew.org/results?q=Bertholletia%20excelsa
- Lippman SM et al. Effect of selenium and vitamin E on risk of prostate cancer and other cancers: the Selenium and Vitamin E Cancer Prevention Trial (SELECT). JAMA, 2009;301(1):39-51. https://doi.org/10.1001/jama.2008.864
- MacFarquhar JK et al. Acute selenium toxicity associated with a dietary supplement. Archives of Internal Medicine, 2010;170(3):256-261. https://doi.org/10.1001/archinternmed.2009.495
- National Institutes of Health, Office of Dietary Supplements. Selenium: Fact Sheet for Health Professionals. https://ods.od.nih.gov/factsheets/Selenium-HealthProfessional/
- Pires LV et al. Effect of O-linked glycosylation on the antigenicity, cellular uptake and trafficking in dendritic cells of recombinant Ber e 1. PLOS ONE, 2021. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33914740/
- Kerdel-Vegas F. The depilatory and cytotoxic action of “coco de mono” (Lecythis ollaria) and its relationship to chronic seleniosis. Economic Botany, 1966;20:187-195. https://link.springer.com/article/10.1007/BF02904014
- Thomson CD et al. Brazil nuts: an effective way to improve selenium status. American Journal of Clinical Nutrition, 2008;87(2):379-384. https://doi.org/10.1093/ajcn/87.2.379





