Coix é o nome pelo qual a literatura científica e o comércio de grãos conhecem Coix lacryma-jobi L., gramínea alta de origem asiática que no Brasil ganhou o nome de lágrima-de-nossa-senhora. A planta tem duas vocações: as contas duras e brilhantes de uma variedade viram colares e terços, enquanto o grão de outra, de casca mole, serve de alimento e de remédio na medicina tradicional chinesa (MTC), onde se chama yi yi ren.
Boa parte da fama da semente, de alimento que desincha a remédio contra tumores, vem de estudos em animais e em células. Os ensaios em pessoas são poucos e pequenos e costumam medir marcadores no sangue, e não doenças. Já a farmacopeia chinesa recomenda cautela no uso por gestantes (Farmacopeia Chinesa, 2020).
Sumário do Artigo
Identificação Botânica e Nomes
Coix lacryma-jobi L. pertence à família Poaceae, a mesma do arroz e do milho, e o epíteto lacryma-jobi quer dizer, em latim, lágrima de Jó. A Flora of China descreve colmos eretos de 1 a 3 metros e folhas largas, de 10 a 40 centímetros, que lembram as do milho (Chen e Phillips, 2006). A área nativa vai do subcontinente indiano a Taiwan e à península Malaia (POWO).
A conta que dá nome à planta não é a semente, e sim um invólucro formado por uma folha modificada, que abriga a flor feminina e, depois, o grão. Na variedade lacryma-jobi, esse invólucro é duro como osso e tem superfície brilhante e lisa. Na variedade ma-yuen, ele é fino e quebradiço, e guarda um grão branco ou amarelado, rico em amido, usado como alimento e como remédio (Chen e Phillips, 2006).
No Brasil, a espécie é exótica e naturalizada, com registro em 24 unidades da federação, em áreas alteradas pelo homem e em vegetação aquática (Flora e Funga do Brasil). A mesma base lista nomes como capim-de-contas, capim-missanga, capim-rosário, conta-de-lágrima, contas-de-nossa-senhora, lágrima-de-jó, lágrima-de-nossa-senhora e lágrima-de-santa-maria. O grão aparece como adlay na literatura em inglês (Weng e colegas, 2022), como hatomugi na tabela japonesa de composição de alimentos (MEXT, 2023a) e como yi yi ren na farmacopeia chinesa (Farmacopeia Chinesa, 2020). Em embalagens importadas, a versão polida às vezes aparece como Chinese pearl barley, algo como cevada-perolada chinesa, embora não seja cevada (Hordeum vulgare).

Usos Tradicionais
Artesanato e Contas de Terço
No Brasil, as contas da variedade de casca dura são enfiadas em colares, terços e outros objetos, e esse uso religioso, somado ao formato de gota, ajuda a explicar nomes como capim-rosário, contas-de-nossa-senhora e lágrima-de-nossa-senhora. A Flora of China registra o mesmo costume na Ásia, com contas de cores e formatos variados (Chen e Phillips, 2006). Essas contas são o invólucro inteiro, vendido como material decorativo, e não o grão que se come.

Yi Yi Ren na Medicina Tradicional Chinesa
Na China, a semente aparece desde o Shennong Bencao Jing, obra da dinastia Han (Pan e colegas, 2023), e consta da lista oficial de itens que são ao mesmo tempo alimento e medicamento (Meng e colegas, 2023). A farmacopeia chinesa de 2020 define o yi yi ren como a semente madura e seca da variedade ma-yuen, sem casca e sem película, e atribui a ela, pela lógica da MTC, as funções de aliviar dores articulares, drenar a umidade favorecendo a urina, eliminar pus e fortalecer o baço contra a diarreia, com edema, tumores e verrugas entre as indicações (Farmacopeia Chinesa, 2020).
Esses conceitos são próprios da MTC e não correspondem a diagnósticos da medicina ocidental. Como remédio, o yi yi ren costuma entrar em fórmulas com várias ervas, receitadas por profissional (Pan e colegas, 2023), como acontece com o alcaçuz-chinês, presente em boa parte das fórmulas clássicas.
Semente Crua e Semente Torrada
A tradição chinesa separa a semente crua, chamada simplesmente yi yi ren, da torrada, o chao yi yi ren, e não considera as duas intercambiáveis. A farmacopeia de 2020 descreve também a semente tostada na panela com farelo de trigo até ficar levemente amarelada, e normas provinciais registram versões torradas a seco, com areia ou com terra (Meng e colegas, 2023; You e colegas, 2025). O tratado De Pei Ben Cao, do século 18, já mandava tostar a semente misturada a arroz glutinoso nos casos de diarreia (You e colegas, 2025).
Um estudo chinês de 2025 encontrou diferenças de composição entre as formas, mas a comparação dos efeitos ainda está por fazer (You e colegas, 2025). No Japão, o grão torrado vira o hatomugi-cha, chá de consumo cotidiano.
Composição da Semente
A tabela oficial de composição de alimentos do Japão registra, para 100 gramas de grão polido e cru de Coix lacryma-jobi var. ma-yuen (MEXT, 2023a):
- carboidratos: 72,2 g
- energia: 353 kcal
- ferro: 0,4 mg
- fibra alimentar: 0,6 g
- gordura: 1,3 g
- potássio: 85 mg
- proteína: 13,3 g
É mais que o dobro da proteína do arroz branco cru, que tem 6,1 gramas na mesma tabela, com praticamente a mesma fibra (MEXT, 2023b). Os compostos mais estudados são o óleo da semente, formado em mais de 83% por ácidos graxos insaturados, os polifenóis e os polissacarídeos (Weng e colegas, 2022).
O Que Dizem os Estudos
A pesquisa sobre o coix é extensa em laboratório e escassa em pessoas: as ações mais citadas, como a anti-inflamatória, a antitumoral e a redução de glicose e gordura no sangue, vêm em sua maioria de células cultivadas e de roedores (Weng e colegas, 2022). A fama de diurético vem da tradição, e não localizamos ensaios clínicos que tenham medido esse efeito em pessoas.
Estudos em Humanos
No Japão, um ensaio duplo-cego com 120 adultos saudáveis comparou, por oito semanas, um chá de coix a um placebo. A atividade da mieloperoxidase, enzima ligada à inflamação, subiu só no grupo placebo, e a função dos vasos melhorou entre os que tomaram o chá, sobretudo acima dos 40 anos (Oya e colegas, 2024). São marcadores intermediários, e parte dos autores trabalha em empresas privadas.
Em outro estudo japonês, 11 homens saudáveis comeram 160 gramas diários de coix cozido por sete dias e foram comparados a oito homens sem intervenção. Aumentou a presença da bactéria intestinal Faecalibacterium e mudaram as proporções de alguns linfócitos (Jinnouchi e colegas, 2021), num grupo pequeno e sem desfecho clínico.
Para quem procura um grão que segure a glicemia, um ensaio cruzado com dez mulheres jovens e saudáveis trouxe um dado contrário à fama: o coix deixado de molho e cozido teve índice glicêmico alto e não se diferenciou do arroz branco (Zhu e colegas, 2019).
Na oncologia, os ensaios chineses usam sobretudo o Kanglaite, injeção hospitalar feita com o óleo da semente e aplicada junto com remédios contra o câncer. Uma metanálise de 13 ensaios, com 1.057 pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células avançado tratados com inibidores de EGFR, relatou melhora na taxa de resposta com o acréscimo do Kanglaite, mas não no subgrupo com mutação no gene EGFR, e os autores pedem estudos de melhor qualidade (Li e colegas, 2022). Em tumores ginecológicos, uma revisão de 74 ensaios com fórmulas contendo coix achou estudos quase todos sem cegamento e, em geral, com menos de 70 pacientes por grupo (Pan e colegas, 2023). Esses dados não valem para o chá nem para a semente cozida, e o coix não substitui nenhum tratamento oncológico.
Estudos em Animais e In Vitro
Em camundongos e em células tumorais cultivadas, extratos e o óleo da semente frearam a multiplicação das células, e em roedores houve efeitos sobre a glicose e a gordura no sangue (Weng e colegas, 2022), com doses e preparados que não equivalem a uma porção do grão.
Na gestação, o dado mais citado vem de ratas prenhes que receberam por via oral, no sexto dia de prenhez, extrato aquoso da semente na dose de 1 grama por quilo de peso. Aumentaram as perdas após a implantação e as reabsorções fetais, sem malformações, o que não aconteceu com o extrato em metanol, e o útero das ratas tratadas com o extrato aquoso passou a se contrair com mais força (Tzeng e colegas, 2005). Já uma fração do extrato da casca reduziu contrações uterinas em ratas (Hsia e colegas, 2008), o que indica que o efeito varia conforme a parte da planta.
Como Preparar e Consumir
Para comer, o grão certo é o da variedade ma-yuen, vendido descascado como alimento, com prazo de validade e rótulo. Ele é cozido como o arroz ou a cevada e entra em mingaus, saladas e sopas. Como o grão deixado de molho e cozido se comportou como o arroz branco no ensaio de 2019 (Zhu e colegas, 2019), quem tem diabetes deve contá-lo da mesma forma no plano alimentar combinado com o nutricionista.
Quem tem a planta no quintal deve lembrar que a lágrima-de-nossa-senhora de beiras de rio e jardins no Brasil pode ser a de conta dura, que, sem descasque adequado e identificação segura, não deve ir para o bule nem para a panela.
Contraindicações, Cuidados e Interações
Como alimento, o coix tem longa tradição na Ásia. No uso clínico, uma revisão de 2023 considera a semente relativamente segura, com relatos isolados de pele seca e descamação que sumiram com a suspensão, mas lembra que faltam estudos dedicados à segurança (Pan e colegas, 2023). Os cuidados abaixo valem sobretudo para o uso como remédio, em cápsulas, chás concentrados, extratos ou fórmulas.
Gravidez e Lactação
A monografia do yi yi ren na farmacopeia chinesa traz a advertência de uso cauteloso na gestação (Farmacopeia Chinesa, 2020), e o estudo em ratas prenhes associou o extrato aquoso a perdas embrionárias (Tzeng e colegas, 2005). A evidência farmacológica é limitada e não há estudos em gestantes, mas o alerta tradicional, somado ao dado animal, basta para recomendar que grávidas não usem coix como remédio e conversem com o obstetra antes de consumir o grão com frequência. Faltam dados sobre a amamentação, e a mesma prudência vale para lactantes.
Sementes de Artesanato Não São Alimento
Contas de colares, de terço e as vendidas a granel para artesanato são o invólucro duro inteiro, em geral da variedade lacryma-jobi, e não passaram por controle sanitário, descasque nem limpeza próprios de alimento. Muitas recebem tinta ou verniz, e nenhuma deve ser fervida, moída ou usada em infusão.
Interações com Medicamentos
Não encontramos estudos de interação entre a semente e medicamentos em pessoas. Em ratos, doses repetidas do óleo injetável alteraram enzimas do fígado que metabolizam remédios (Pan e colegas, 2023), e quem faz tratamento contínuo, em especial contra o câncer, deve avisar o médico antes de usar qualquer preparado de coix.
Dose e Uso por Conta Própria
A faixa de referência da farmacopeia chinesa, de 9 a 30 gramas, foi pensada para a semente usada em fórmulas da MTC prescritas por profissional (Pan e colegas, 2023). Não existe dose padronizada por ensaios clínicos para nenhuma condição, e o coix não deve ser usado por conta própria contra câncer, doença renal, edema, problemas articulares ou outras condições sérias, que pedem avaliação médica.
Perguntas Frequentes
Lágrima-de-Nossa-Senhora e Coix São a Mesma Planta?
Sim: lágrima-de-nossa-senhora é um dos nomes brasileiros de Coix lacryma-jobi L. A variedade de conta dura serve ao artesanato, e a ma-yuen, de casca mole, fornece o grão comestível e o yi yi ren da MTC (Chen e Phillips, 2006).
Posso Fazer Chá com as Contas de um Terço?
Não. Contas de artesanato não passam pelo controle sanitário de alimento e podem ter tinta ou verniz. Para consumo, só serve o grão descascado vendido como alimento.
Gestantes Podem Consumir Coix?
A farmacopeia chinesa recomenda cautela, e um estudo em ratas associou o extrato aquoso a perdas embrionárias (Farmacopeia Chinesa, 2020; Tzeng e colegas, 2005). Grávidas não devem usar coix como remédio e devem falar com o obstetra antes de consumi-lo com frequência.
Coix Tem Ação Antitumoral em Pessoas?
Não há ensaios que mostrem esse efeito com o chá ou com a semente. Os ensaios em pacientes usaram uma injeção hospitalar feita do óleo da semente, associada a remédios oncológicos, em estudos de qualidade limitada (Li e colegas, 2022), e o coix não substitui o tratamento do câncer.
Qual a Diferença entre Yi Yi Ren Cru e Torrado?
O cru é a semente de referência da farmacopeia chinesa, e o torrado, chao yi yi ren, é um preparo à parte, que a tradição reservava a casos como a diarreia (You e colegas, 2025).
Referências
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Estudos Científicos Peer-Reviewed (9)
- PMC2022 Weng WF, Peng Y, Pan X, Yan J, Li XD, Liao ZY, et al. Adlay, an ancient functional plant with nutritional quality, improves human health. Frontiers in Nutrition. 2022;9:1019375. doi:10.3389/fnut.2022.1019375. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov.
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Leituras Complementares (7)
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- 2006 Chen SL, Phillips SM. Coix. In: Wu ZY, Raven PH, Hong DY, editores. Flora of China, vol. 22 (Poaceae). Pequim: Science Press; St. Louis: Missouri Botanical Garden Press; 2006. p. 648-649. Disponível em: efloras.org.
- POWO. Coix lacryma-jobi L. Plants of the World Online. Royal Botanic Gardens, Kew. Disponível em: powo.science.kew.org.
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- 2020 Ministry of Education, Culture, Sports, Science and Technology (MEXT). Standard Tables of Food Composition in Japan 2020 (8th revised edition), suplemento 2023: Rice, paddy rice, non-glutinous, well-milled, raw (01083). Disponível em: fooddb.mext.go.jp.





