A candeia é uma árvore nativa do Brasil e de países vizinhos, de nome científico Moquiniastrum polymorphum (Less.) G.Sancho, da família Asteraceae, a mesma da camomila e do girassol. Livros mais antigos e boa parte dos estudos de laboratório a chamam de Gochnatia polymorpha, e em muitas regiões ela também atende por cambará, nome que gera confusão com plantas bem diferentes.
Por isso convém deixar claro desde o início que a candeia aqui descrita não é o cambará do gênero Lantana, arbustos da família Verbenaceae com flores alaranjadas, amarelas ou lilases conforme a espécie, nem a candeia de cuja madeira se extrai óleo rico em alfa-bisabolol, que pertence a outro gênero, Eremanthus. Com essa planta, um dos riscos mais concretos é colher a espécie errada, e as diferenças estão detalhadas mais abaixo.
Na medicina popular, o chá das folhas é lembrado para tosse e outros problemas respiratórios, mas a pesquisa se resume a testes em células e em roedores, sem estudos em pessoas que indiquem dose, eficácia ou segurança. A seguir, como reconhecer a planta, o que os experimentos mostraram e quais cuidados valem para alergia, crianças e gestação.
Sumário do Artigo
Identificação Botânica e Nomes
O gênero Moquiniastrum foi criado em 2013, quando análises de DNA mostraram que o antigo gênero Gochnatia reunia linhagens que não formavam um grupo natural. O novo gênero reuniu 21 espécies, a maioria no Brasil (Sancho e colegas, 2013), e o nome aceito hoje para a candeia é Moquiniastrum polymorphum (Less.) G.Sancho (POWO). O sinônimo Gochnatia polymorpha (Less.) Cabrera continua comum em manuais florestais e na literatura farmacológica (Carvalho, 2003; Piornedo e colegas, 2011).
O epíteto polymorphum alude à grande variação de forma da espécie (Carvalho, 2003). No Sul do Brasil são reconhecidas três subespécies, ceanothifolium, floccosum e polymorphum, que se distinguem sobretudo pelo tipo de pelo da face inferior das folhas (Freitas e colegas, 2020). A distinção tem peso prático, porque vários estudos farmacológicos usaram a subespécie floccosum, citada nos artigos como Gochnatia polymorpha ssp. floccosa, e seus resultados não se estendem automaticamente às demais.
Os nomes populares mudam de um estado para outro, e o levantamento da Embrapa Florestas registra, entre outros, cambará-açu, cambará-branco, cambará-de-folha-grande, cambará-do-mato, candeia, óleo-do-campo e pau-candeia (Carvalho, 2003).
Como Reconhecer a Candeia no Campo
A candeia é uma árvore de 3,5 a 10 metros, que em exemplares adultos chega a 15 metros, com tronco quase sempre tortuoso, muitas vezes dividido em vários troncos desde a base, e casca acastanhada de até 3 centímetros de espessura, marcada por sulcos longitudinais profundos (Carvalho, 2003).
O traço mais útil está nas folhas, simples, alternas e com 7 a 17 centímetros de comprimento, que têm duas cores bem diferentes: a face de cima é verde, enquanto a de baixo é esbranquiçada e aveludada, coberta por uma camada densa de pelos (Carvalho, 2003; Freitas e colegas, 2020), que ao microscópio têm forma de T (Youssef e colegas, 2013).
As flores são pequenas, brancas ou de tom creme, e se reúnem em capítulos de cerca de 1 centímetro, agrupados em cachos ramificados de 10 a 20 centímetros na ponta dos ramos, que continuam presos à árvore muito tempo depois de secos. A floração vai de outubro a abril, conforme a região, e os frutos, minúsculos e com um penacho de pelos, são levados pelo vento (Carvalho, 2003).

Plantas com Nomes Parecidos
O nome cambará também designa plantas do gênero Lantana, da família Verbenaceae, como Lantana montevidensis, um arbusto rasteiro de flores lilases e folhas opostas, ásperas e de margem dentada, sem a face inferior branca da candeia. Usos e riscos não se transferem de uma espécie para a outra, e quem procura informação sobre essa planta deve consultar o artigo sobre Lantana montevidensis.
Candeia, por sua vez, é também o nome de Eremanthus erythropappus, árvore do Cerrado da mesma família, mas de outro gênero, cuja madeira fornece um óleo essencial rico em alfa-bisabolol, valorizado pela indústria cosmética e extraído em grande escala de populações silvestres, a ponto de ameaçar a espécie (Alves Gomes Albertti e colegas, 2018; Carvalho, 2003). Apesar do nome compartilhado, nada do que se sabe sobre esse óleo ou sobre o bisabolol vale para Moquiniastrum polymorphum.
O nome assa-peixe, que às vezes aparece associado à candeia em fontes populares, pertence a outras Asteraceae, como Vernonanthura polyanthes, ainda citada em muitos textos como Vernonia polyanthes e descrita no artigo sobre o assa-peixe. As duas plantas compartilham a fama popular contra a tosse, mas pertencem a gêneros diferentes, com química própria.
Onde a Candeia Ocorre
A espécie ocorre naturalmente da Bahia ao Rio Grande do Sul e também no nordeste da Argentina e no Paraguai (Carvalho, 2003), com registros de uma das subespécies no Uruguai (Freitas e colegas, 2020). Aparece em campos de altitude, no Cerrado e no cerradão, na floresta com araucária e nas bordas da Mata Atlântica, quase sempre em locais de muita luz e em solos arenosos, pedregosos ou pobres (Carvalho, 2003).
A Embrapa a classifica como espécie secundária inicial, uma das precursoras na ocupação de campos de solo bem drenado, e a recomenda para recuperar áreas degradadas. A madeira, moderadamente densa e muito resistente ao apodrecimento em contato com o solo e ao ataque de cupins e outros organismos que se alimentam de madeira, serve para carvão, cercas, lenha, mourões e postes (Carvalho, 2003).

Usos Tradicionais
O registro mais antigo reunido pela Embrapa data de 1926 e descreve o chá das folhas nas afecções broncopulmonares, como emoliente e expectorante (Corrêa, citado por Carvalho, 2003). O mesmo levantamento menciona o uso da casca do caule por indígenas de várias etnias do Paraná e de Santa Catarina contra o reumatismo, e trabalhos mais recentes descrevem o emprego popular em queixas gastrointestinais, resfriados e tosse (Carvalho, 2003; Youssef e colegas, 2013).
Esses registros não trazem preparo padronizado nem quantidade definida, nem para adultos nem para crianças, e variam de região para região. Os estudos descritos adiante partiram desse uso popular, mas testaram extratos preparados em laboratório e dados a roedores, e não o chá ou o xarope feitos em casa (Moreira e colegas, 2000; Piornedo e colegas, 2011). Receitas que circulam em redes sociais e sites devem ser lidas como relato de tradição, e não como prescrição.
O Que Dizem os Estudos
Estudos em Humanos
Nas bases científicas consultadas, não localizamos ensaio clínico, estudo observacional nem relato de caso que tenha avaliado a candeia em pessoas. Assim, não há como afirmar que o chá alivie bronquite, dor ou tosse, nem que seja seguro em uso prolongado, e toda informação sobre efeito depende, por enquanto, de experimentos com animais e células.
Estudos em Animais e em Laboratório
Em ratos, os extratos aquoso e alcoólico das folhas reduziram o inchaço da pata provocado por carragenina, um agente inflamatório usado em laboratório, e a fração em acetato de etila, também ativa, continha ácido cafeico, ácido clorogênico, hiperosídeo e rutina, entre outros compostos (Moreira e colegas, 2000). Em camundongos, o extrato da casca do tronco da subespécie floccosum, dado por via oral, diminuiu o edema e a migração de células inflamatórias, efeito que os autores consideraram provavelmente ligado, ao menos em parte, à 11,13-di-hidrozaluzanina C, uma lactona sesquiterpênica (Piornedo e colegas, 2011).
Da mesma casca foram isoladas lactonas sesquiterpênicas diméricas que inibiram, em placas de cultura, o crescimento de linhagens de células de câncer humano (Strapasson e colegas, 2012), e um estudo de 2025 com a subespécie polymorphum descreveu menor lesão no fígado de camundongos expostos ao tetracloreto de carbono, substância usada para induzir fibrose hepática (Bastos e colegas, 2025). As flores da subespécie floccosum contêm triterpenos como alfa-amirina, beta-amirina e lupeol (Silva e colegas, 2011).
Esses resultados mostram atividade biológica em modelos experimentais, com doses calculadas em miligramas por quilo de animal ou concentrações aplicadas direto sobre células, que não equivalem a uma xícara de chá. Nenhum deles permite dizer que a candeia trate câncer, doença do fígado ou inflamação em pessoas.
Contraindicações e Cuidados
Sem estudos em humanos, os cuidados abaixo se apoiam em dados de animais, em orientações gerais de saúde e na química da família Asteraceae.
Alergia e Dermatite de Contato
As lactonas sesquiterpênicas, típicas das Asteraceae, são substâncias sensibilizantes, capazes de causar dermatite de contato, e a família é conhecida por reações cruzadas entre espécies (Ključevšek e Kreft, 2025). A candeia contém esses compostos na casca (Piornedo e colegas, 2011; Strapasson e colegas, 2012). Não localizamos relatos de alergia específicos a essa espécie, mas quem já reagiu a arnica, calêndula, camomila ou outras Asteraceae deve evitar os banhos, o chá e as compressas com a planta, e interromper o contato ao primeiro sinal de bolhas, coceira ou vermelhidão na pele.
Gestação e Lactação
Em camundongas prenhes, o extrato alcoólico da planta não alterou o desempenho reprodutivo nem causou malformações, mas os fetos apresentaram comprimento e peso menores (David e colegas, 2014). Num segundo estudo, frações do mesmo extrato também não foram teratogênicas, porém mostraram atividade mutagênica, ou seja, causaram danos ao material genético de células somáticas, segundo os autores (Pessatto e colegas, 2017). Como não há dados em gestantes nem sobre a passagem de compostos para o leite, a orientação é evitar a candeia na amamentação e durante toda a gestação.
Toxicidade: Dados Ainda Incompletos
Os testes de dano genético divergem conforme o método e a preparação. O chá não foi mutagênico em bactérias, embora tenha potencializado, em uma das condições do ensaio, o efeito de um mutágeno conhecido (Horn e Vargas, 2008). O extrato alcoólico não foi mutagênico em células de raiz de cebola (Oliveira e colegas, 2016) nem nas camundongas prenhes (David e colegas, 2014), mas frações desse mesmo extrato mostraram atividade mutagênica nos animais (Pessatto e colegas, 2017). Esse conjunto de resultados mostra que a segurança da planta, sobretudo em uso prolongado, ainda está longe de definida.
Crianças e Xarope Caseiro
Não existe dose estabelecida da candeia para crianças, e nenhum estudo avaliou a planta nessa faixa etária, de modo que o mais prudente é não dar o chá nem o xarope da planta a elas. Se uma receita familiar de xarope levar mel, lembre-se de que o mel não deve ser dado a menores de 1 ano, pelo risco de botulismo infantil (CDC, 2026). Em crianças com chiado, febre ou tosse, o caminho é a avaliação pediátrica, e não a busca por uma receita caseira.
Quando Procurar Atendimento Médico
A candeia não substitui o tratamento de asma, bronquite ou pneumonia, doenças que podem piorar depressa e exigem diagnóstico. Quem tem uma dessas condições em tratamento não deve suspender nem trocar a medicação prescrita por chás, e deve procurar atendimento médico com urgência diante de qualquer um destes sinais (MedlinePlus, 2024; MedlinePlus, 2025a; MedlinePlus, 2025b):
- calafrios fortes ou febre persistente
- catarro com sangue ou cor de ferrugem
- confusão mental ou sonolência
- dor no peito forte ou que piora ao respirar ou tossir
- falta de ar intensa em repouso ou que atrapalha a fala
- lábios ou rosto arroxeados
- piora dos sintomas depois de uma melhora inicial
- respiração dolorosa ou rápida
Perguntas Frequentes
Candeia e Cambará São a Mesma Planta?
Depende da planta chamada de cambará. Moquiniastrum polymorphum recebe os dois nomes em várias regiões (Carvalho, 2003), mas cambará também designa espécies de Lantana, da família Verbenaceae, sem relação com a candeia. Na dúvida, confira o nome científico e a face inferior das folhas, branca e aveludada na candeia.
O Óleo de Candeia com Bisabolol Vem da Mesma Árvore?
Não. O óleo de candeia usado como fonte de alfa-bisabolol vem de Eremanthus erythropappus, outra árvore que recebe o mesmo nome popular (Alves Gomes Albertti e colegas, 2018), e as informações sobre esse óleo não se aplicam a Moquiniastrum polymorphum.
Existe Estudo da Candeia em Pessoas?
Não localizamos nenhum. Os dados vêm de camundongos e ratos, além de células em laboratório (Moreira e colegas, 2000; Piornedo e colegas, 2011; Strapasson e colegas, 2012), e não permitem definir dose, eficácia ou segurança para uso humano.
Gestantes Podem Tomar Chá de Candeia?
A orientação é evitar. Em camundongas prenhes, o extrato reduziu o comprimento e o peso dos fetos (David e colegas, 2014), e frações do extrato mostraram atividade mutagênica (Pessatto e colegas, 2017), enquanto faltam dados sobre amamentação e gestação em mulheres.
Chá de Candeia Ajuda na Asma ou na Bronquite?
Não há estudo em pessoas que mostre isso. O chá das folhas tem apenas registro de uso tradicional em problemas respiratórios (Carvalho, 2003), não substitui o tratamento prescrito, e confusão mental, falta de ar intensa ou lábios arroxeados pedem atendimento de urgência (MedlinePlus, 2025a).
Referências
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Estudos Científicos Peer-Reviewed (12)
- DOI2013 Sancho G, Funk VA, Roque N. Moquiniastrum (Gochnatieae, Asteraceae): disentangling the paraphyletic Gochnatia. Phytotaxa. 2013;147(1):26-34. doi:10.11646/phytotaxa.147.1.3. Disponível em: doi.org.
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Fontes Institucionais (4)
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Leituras Complementares (4)
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