Frutos Medicinais

Castanha-do-Pará: Selênio e Quanto Comer por Dia

A castanha-do-pará concentra mais selênio que qualquer outro alimento comum, e por isso a dose importa tanto. Entenda por que uma ou duas unidades por dia costumam bastar, quais são os limites oficiais e como reconhecer os sinais de excesso.

Por Conselho Editorial11 Min de Leitura
Evidência Moderada11 Referências
Publicado em
Castanheira adulta de grande porte em floresta amazônica próxima a Marabá, Pará
Castanheira adulta de grande porte em floresta amazônica próxima a Marabá, Pará
Castanheira adulta de grande porte em floresta amazônica próxima a Marabá, Pará, com o tronco reto que a leva acima do dossel da mata. Foto: Nando Cunha, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.

A castanha-do-pará, que tem como nome oficial brasileiro castanha-do-brasil, é a semente da castanheira (Bertholletia excelsa Bonpl.), árvore nativa da Amazônia e da família Lecythidaceae. Conhecida no mundo inteiro como uma das oleaginosas mais saborosas da floresta, ela carrega uma particularidade que muda a forma de consumi-la: é, entre os alimentos comuns, a fonte mais concentrada de selênio que se conhece. Isso faz da castanha um caso exemplar de que, em nutrição, a diferença entre o suficiente e o excessivo pode caber em poucas unidades.

Sumário do Artigo
  1. Uma Gigante da Floresta Amazônica
  2. Selênio: Por Que a Castanha É Tão Diferente
  3. Quanto Comer por Dia: Os Limites Oficiais
  4. Sinais de Excesso: A Selenose
  5. Outros Cuidados com a Castanha
  6. Óleo de Castanha na Cosmética
  7. Não Confunda: Castanha de Caju, Castanha-Portuguesa e Sapucaia
  8. Perguntas Frequentes

Uma Gigante da Floresta Amazônica

A castanheira é uma árvore emergente, ou seja, sua copa ultrapassa o dossel da floresta e pode alcançar cerca de 50 metros de altura, com troncos largos e retos que vivem por séculos. Ocorre em áreas de terra firme de boa parte da bacia amazônica, com destaque para a Bolívia, o Brasil e o Peru, e a maior parte da produção comercial ainda vem da coleta extrativista em mata nativa, atividade que sustenta muitas comunidades da região. Na literatura botânica aparece também o sinônimo Bertholletia nobilis Miers, hoje tratado como o mesmo táxon.

O que chamamos de castanha é, na verdade, a semente. Ela se forma dentro de um fruto grande e pesado, uma cápsula lenhosa de casca muito dura que guarda de dez a vinte e poucas sementes encaixadas como gomos. Esse fruto não se abre sozinho ao cair, e na natureza quem consegue roê-lo é praticamente só a cutia, um roedor de dentes fortes que come parte das sementes e enterra outras como reserva. As que ficam esquecidas germinam, de modo que a cutia acaba sendo uma das principais dispersoras da espécie.

Por sua importância ecológica e econômica, a castanheira tem proteção legal no Brasil. O Decreto Federal 5.975/2006 mantém a espécie protegida contra corte em floresta nativa, e a árvore também consta como vulnerável na Lista Vermelha da IUCN, o que reforça a importância de valorizar a coleta sustentável em vez da derrubada.

Fruto (cápsula lenhosa) da castanheira fotografado como espécime de herbário sobre fundo branco
Fruto da castanheira, uma cápsula lenhosa de casca espessa que guarda as sementes, fotografado como espécime de herbário sobre fundo branco. Foto: Roger Culos, coleção do Muséum de Toulouse, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Selênio: Por Que a Castanha É Tão Diferente

O selênio é um mineral essencial que o organismo usa em pequenas quantidades para formar selenoproteínas, entre elas enzimas antioxidantes do grupo das glutationa peroxidases e enzimas que participam do metabolismo dos hormônios da tireoide. A relação entre selênio e saúde da tireoide é tema em estudo, com resultados ainda inconsistentes, e não autoriza tratar a castanha como recurso para doenças da glândula.

A castanheira absorve do solo o selênio disponível e o acumula na semente, por isso o teor de cada castanha depende muito de onde a árvore cresceu. Análises publicadas mostram uma variação enorme, que vai de menos de 10 µg a mais de 100 µg de selênio por unidade, conforme a região e até o lote. Para comparar, a recomendação diária para adultos nos Estados Unidos é de 55 µg, e a ingestão adequada definida pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) é de 70 µg. Na prática, isso quer dizer que não existe um número fixo de quanto uma castanha representa da necessidade do dia: dependendo da origem, uma unidade pode cobrir parte modesta dela ou ultrapassá-la sozinha.

Um estudo clínico realizado na Nova Zelândia mostrou que comer duas castanhas por dia elevou os marcadores sanguíneos de selênio de forma comparável a um suplemento de 100 µg, o que ilustra a potência do alimento. É justamente essa concentração que exige atenção com a quantidade.

Quanto Comer por Dia: Os Limites Oficiais

Em 2023, a EFSA revisou o limite superior tolerável de ingestão (UL) de selênio para adultos e o reduziu de 300 para 255 µg por dia. O cálculo partiu de um nível mínimo de efeito adverso observado de 330 µg por dia, derivado do estudo SELECT, ao qual se aplicou um fator de incerteza de 1,3. A própria opinião científica da agência menciona os consumidores regulares de castanha-do-pará entre os grupos com possibilidade de ultrapassar esse teto. Nos Estados Unidos, o Food and Nutrition Board do antigo Institute of Medicine fixou em 2000 um UL de 400 µg por dia para adultos.

Com base nesses números, o consenso prático difundido por nutricionistas é de que uma a duas castanhas por dia já cobrem a necessidade de selênio da maioria dos adultos e ficam dentro de uma margem segura. Comer um punhado todos os dias, porém, pode levar a ingestão acima do limite, sobretudo quando o lote vem de solos muito ricos no mineral. Também não faz sentido somar castanhas diárias a um suplemento de selênio isolado ou a um polivitamínico que já contenha o mineral sem orientação de um profissional de saúde, porque as fontes se acumulam.

Sinais de Excesso: A Selenose

O consumo prolongado acima do limite pode causar selenose, a intoxicação crônica por selênio. Os sinais mais descritos são unhas fracas e quebradiças, cabelo quebradiço ou queda de cabelo, hálito e suor com odor que lembra alho, desconforto gastrointestinal como náusea e diarreia, além de irritabilidade e cansaço. Relatos de surtos causados por suplementos mal formulados mostram que esses sintomas tendem a melhorar quando a fonte excessiva é suspensa, embora alguns possam persistir por meses, e por isso qualquer suspeita merece avaliação médica, inclusive para medir o selênio no sangue.

Outros Cuidados com a Castanha

Alergia a Oleaginosas

A castanha-do-pará é uma das oleaginosas reconhecidas como causa de alergia alimentar, que em pessoas sensíveis pode incluir reações graves. Sua proteína de armazenamento chamada albumina 2S, catalogada como Ber e 1, é um alérgeno reconhecido e resiste bem ao calor, de modo que torrar a semente não elimina o risco. Quem tem alergia a outras castanhas e nozes pode reagir também a ela, por reatividade cruzada ou por sensibilização simultânea, tema que explicamos melhor no artigo sobre o pistache e o cuidado com alergia a oleaginosas. Diante de histórico de reação, a introdução deve ser decidida com um alergologista.

Aflatoxina e Armazenamento

Como outras oleaginosas, a castanha pode ser contaminada por fungos produtores de aflatoxinas quando é colhida, secada ou guardada em condições inadequadas de umidade. Por isso o teor dessas toxinas é monitorado pela ANVISA, e vale preferir produtos de procedência conhecida, com embalagem íntegra e prazo de validade visível. Castanhas com mofo, manchas escuras, cheiro de bolor ou sabor amargo devem ser descartadas.

Rancificação

Por ser rica em gorduras insaturadas, a castanha rancifica com facilidade quando exposta ao calor, à luz e ao ar. O ideal é guardá-la em pote bem fechado, em local fresco ou na geladeira, e consumi-la dentro da validade, já que o sabor rançoso indica oxidação da gordura.

Óleo de Castanha na Cosmética

Da semente prensada se extrai um óleo amarelado que tem uso tradicional na cosmética amazônica e hoje aparece em formulações comerciais como hidratante para cabelos e pele. Seu emprego nesse contexto é cosmético, ligado à textura e à capacidade emoliente do óleo, e não envolve alegação terapêutica. Quem tem alergia à castanha deve evitar também produtos que contenham o óleo.

Não Confunda: Castanha de Caju, Castanha-Portuguesa e Sapucaia

A sapucaia (Lecythis pisonis) pertence à mesma família da castanheira e produz sementes comestíveis apreciadas em várias regiões do Brasil. Suas sementes também concentram selênio, em teores que variam muito de árvore para árvore e podem igualar ou superar os da castanha-do-pará. O gênero Lecythis tem registro clássico de intoxicação por selênio: na Venezuela, a espécie aparentada Lecythis ollaria, chamada ali de coco-de-mono, foi associada por Kerdel-Vegas, em 1966, a casos de queda de cabelo após consumo em quantidade, e relatos posteriores descrevem o mesmo quadro com alterações nas unhas. Para a sapucaia não há surto documentado, mas o teor elevado e variável recomenda a mesma moderação.

Já a castanha de caju (Anacardium occidentale), semente do cajueiro, e a castanha-portuguesa (Castanea sativa), consumida cozida ou assada, são espécies totalmente diferentes, de famílias botânicas distintas, que apenas compartilham parte do nome popular. Nenhuma delas tem o perfil de selênio da castanha-do-pará, e as orientações de quantidade deste artigo não se aplicam a elas.

Perguntas Frequentes

Quantas Castanhas-do-Pará Posso Comer por Dia?

Para a maioria dos adultos, uma a duas unidades por dia costumam cobrir a necessidade de selênio e ficar dentro de uma margem segura. Como o teor varia muito conforme o solo de origem, comer um punhado todos os dias pode ultrapassar o limite tolerável. Quem já usa suplemento com selênio deve conversar com um profissional antes de incluir castanhas diariamente.

Castanha-do-Pará e Castanha-do-Brasil São a Mesma Coisa?

Sim. Castanha-do-brasil é o nome oficial adotado pelo Ministério da Agricultura e pela Embrapa, enquanto castanha-do-pará é o nome popular mais usado no dia a dia. Ambos se referem à semente da Bertholletia excelsa.

Quais São os Sinais de que Comi Selênio Demais?

O excesso crônico pode causar unhas e cabelos quebradiços, queda de cabelo, hálito e suor com cheiro de alho, náusea, diarreia e irritabilidade. Ao notar esses sinais junto com consumo frequente de castanhas ou suplementos, o recomendado é suspender a fonte e procurar avaliação médica.

Torrar a Castanha Reduz o Risco de Alergia?

Não de forma confiável. O principal alérgeno da castanha-do-pará, a proteína Ber e 1, é resistente ao calor, então a castanha torrada também pode provocar reação em pessoas sensíveis. Quem tem alergia a outras oleaginosas deve buscar orientação de um alergologista antes de experimentá-la.

Qual É a Melhor Forma de Guardar Castanha-do-Pará?

Em pote bem fechado, longe de calor, luz e umidade, de preferência na geladeira. Isso retarda a rancificação da gordura e reduz o risco de mofo. Descarte castanhas com cheiro de bolor, manchas ou gosto amargo.

Referências

Este conteúdo foi útil?

O que você achou deste artigo?

Continue Lendo Neste Tópico

Pode Interessar