Plantas Medicinais Brasileiras

Guaxima (Urena lobata): Usos Tradicionais, Estudos e Cuidados

A guaxima (Urena lobata) tem longa tradição medicinal e têxtil, mas nenhum estudo em pessoas. Veja os usos populares, o que as pesquisas em animais mostram e os cuidados ao usar a planta.

Por Conselho Editorial15 Min de Leitura
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Flor rosada de guaxima (Urena lobata) com centro magenta mais escuro, fotografada no Brasil

A guaxima é a Urena lobata L., um arbusto da família Malvaceae que brota em beiras de estrada, pastos e terrenos alterados de quase todo o Brasil. Na Amazônia, a mesma planta é chamada de malva e cultivada para a extração de fibra, enquanto em vários países tropicais suas flores, folhas e raízes entram em remédios caseiros contra diarreia, inflamações e tosse (N’danikou e colegas, 2011).

Esse uso medicinal se apoia quase inteiramente na tradição. Não localizamos nenhum ensaio clínico com a guaxima em pessoas, e um grupo de pesquisadores que estuda a espécie descreve a maior parte dos trabalhos publicados como exploratória, limitada a triagens químicas ou a testes isolados em laboratório e em animais (Arney e colegas, 2026).

Sumário do Artigo
  1. Identificação Botânica e Nomes
  2. A Fibra de Malva: Um Uso Diferente do Medicinal
  3. Usos Tradicionais
  4. O Que Dizem os Estudos
  5. Formas de Uso Descritas na Tradição
  6. Contraindicações, Cuidados e Interações
  7. Perguntas Frequentes

Identificação Botânica e Nomes

O nome aceito é Urena lobata L., da família Malvaceae, a mesma do algodão, do hibisco e do quiabo. A Flora e Funga do Brasil classifica a espécie como nativa e não endêmica, com registros nos seis domínios do país e ocorrência anotada em áreas alteradas pela ação humana e em restingas (Flora e Funga do Brasil).

As formas espontâneas costumam ter entre meio metro e 2,5 metros de altura, e as cultivadas para fibra crescem eretas até 5 metros. Caule e folhas são cobertos de pelos minúsculos em forma de estrela, e as folhas, de margem serrilhada, vão de quase inteiras a recortadas em três a sete lobos. As flores rosadas, de base arroxeada, medem de 2 a 3 centímetros e nascem nas axilas das folhas (N’danikou e colegas, 2011). O fruto se divide em cinco gomos cobertos de cerdas em gancho, que se prendem ao pelo dos animais e à roupa das pessoas e assim espalham as sementes (Gomes e colegas, 2022).

Flor rosada de guaxima (Urena lobata) com centro magenta mais escuro, fotografada no Brasil
Rosada e com o centro mais escuro, a flor da guaxima nasce na axila de folhas recortadas em lobos, combinação que ajuda a reconhecer a espécie no campo. Foto: João Vitor Oliveira de Souza, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons/iNaturalist.

Os nomes populares mudam com a região e com o uso. O engenheiro Augusto Carlos Silva Telles, da Escola Politécnica de São Paulo, batizou a fibra da planta de aramina em 1901, pelo brilho, pela cor quase metálica e pela resistência dos fios, e um texto técnico publicado em São Paulo em 1932 a chama de guaxima-roxa. Na Amazônia, onde o cultivo comercial se concentra hoje, o nome corrente é malva (Ferreira e Homma, 2024).

Não Confunda com Aguaxima, Guanxuma ou Malva-Silvestre

A guanxuma, também chamada de mata-pasto e relógio, é a Sida rhombifolia L., outra malvácea de beira de estrada, de gênero diferente (Chaves e colegas, 2017), e textos que circulam com o nome de guaxima às vezes descrevem, na verdade, espécies de Sida. Aguaxima é um dos nomes da pariparoba (Piper umbellatum), da família Piperaceae, e a malva amazônica tampouco é a malva-rosa (Alcea rosea) dos jardins nem a malva-silvestre (Malva sylvestris) dos chás europeus. Cada uma tem composição, cuidados e usos próprios, e as informações de uma não valem para as outras.

A Fibra de Malva: Um Uso Diferente do Medicinal

Do caule da guaxima se extrai uma fibra fina e brilhante, parecida com a juta, usada em cordas, sacarias e tapetes (N’danikou e colegas, 2011). No Brasil, as primeiras tentativas de cultivo, no fim do século XIX, buscavam um substituto nacional para a juta importada da Índia, num momento em que a superprodução de café exigia grandes estoques de sacaria (Ferreira e Homma, 2024). Nos anos 1970, cerca de 70% da fibra produzida no mundo saía do Brasil (N’danikou e colegas, 2011).

Hoje a malva é a espécie fibrosa mais cultivada nas várzeas do Amazonas e envolve cerca de 20 mil empregos diretos e indiretos (Gomes e colegas, 2022). Esse aproveitamento não tem relação com o medicinal: os campos de malva são lavouras de fibra, manejadas sem critério de uso em saúde, e a longa tradição têxtil da planta não diz nada sobre a segurança de chás e extratos.

Flor rosa-lilás de guaxima com centro magenta, entre folhas serrilhadas, em touceira
A mesma espécie se naturalizou em diversas regiões tropicais, como nesta touceira fotografada no Havaí, sempre com a flor rosa-lilás e o centro mais escuro característicos do gênero. Foto: Forest & Kim Starr, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.

Usos Tradicionais

Uma síntese sobre as plantas úteis da África tropical descreve a guaxima como emoliente e expectorante. Entre os usos reunidos estão cataplasmas de folhas sobre inflamações reumáticas, a decocção da planta contra pneumonia na República Centro-Africana, o pó das folhas contra asma na República Democrática do Congo e preparações de casca e raiz contra diarreia (N’danikou e colegas, 2011).

No sul da China, onde é chamada de ditaohua, a planta é usada contra corrimento vaginal e gonorreia, e listas de medicina popular a citam ainda contra diabetes, disenteria, edema, febre e reumatismo (Luo e colegas, 2019). A gonorreia é uma infecção sexualmente transmissível que exige diagnóstico e antibiótico prescrito, e nenhum preparo caseiro substitui esse tratamento. Também há registros de uso em bronquite, nefrite e tosse e como diurético (Arney e colegas, 2026), e a base etnobotânica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos anota, para o Brasil, o uso contra cólicas e gases (USDA).

A fama de emoliente combina com a presença de mucilagem, substância viscosa típica de muitas malváceas. As sementes da guaxima são descritas como mucilaginosas, a ponto de deixarem o arroz escorregadio quando cozidas com ele (N’danikou e colegas, 2011), o mesmo tipo de gel que forma a baba do quiabo e que sustenta o uso tradicional da raiz de alteia na irritação da garganta. Esses registros mostram o que as comunidades fazem com a planta, e não o que foi comprovado em pessoas.

O Que Dizem os Estudos

Numa busca no PubMed feita em outubro de 2026, não localizamos ensaios clínicos com a guaxima nem estudos sobre os efeitos urinários atribuídos a ela. O que existe são experimentos em células e em roedores, com extratos concentrados e doses que não correspondem a um chá caseiro.

Estudos em Animais

Em camundongos infectados com Staphylococcus aureus, o extrato aquoso da guaxima reduziu a quantidade de bactérias e as lesões nos pulmões, e a combinação com o antibiótico cefazolina diminuiu a contagem bacteriana mais do que o antibiótico sozinho (Yang e colegas, 2017). O achado não autoriza tratar pneumonia com chá, quadro que exige avaliação médica e tratamento prescrito.

Em ratos com diabetes induzido em laboratório, a decocção das folhas, em doses de 250 a 1.000 mg por quilo de peso durante quatro semanas, reduziu a glicemia entre 30% e 40% e prolongou a disponibilidade do GLP-1, hormônio intestinal que estimula a liberação de insulina. O experimento usou apenas cinco animais por grupo (Purnomo e colegas, 2017).

Um terceiro estudo levanta uma questão de segurança. Ratos machos que receberam extrato da raiz por 55 dias tiveram redução do peso dos testículos e, na dose maior, queda na contagem, na mobilidade e na viabilidade dos espermatozoides, alterações que se desfizeram 55 dias após a suspensão. Os autores ligaram o achado ao uso popular da raiz como anticoncepcional masculino na Índia (Dhanapal e colegas, 2012).

Estudos In Vitro

O extrato metanólico da raiz inibiu um amplo espectro de bactérias em laboratório (Mazumder e colegas, 2001) e neutralizou radicais livres em testes químicos (Lissy e colegas, 2006). Lignanas isoladas da planta diminuíram a produção de óxido nítrico, um marcador de inflamação, em macrófagos cultivados em placa, com potência inferior à da quercetina usada como controle (Luo e colegas, 2019).

Em 2026, uma fração do extrato das folhas protegeu membranas de hemácias humanas contra o rompimento em nível comparável ao do diclofenaco, num teste de triagem anti-inflamatória (Arney e colegas, 2026). Outro extrato das folhas inibiu a alfa-glicosidase, enzima que quebra carboidratos no intestino, com potência cerca de 38 vezes menor que a da acarbose (Purnomo e colegas, 2021). Resultados em placa mostram que a planta tem compostos ativos, mas não dizem se eles chegam ao organismo nem se funcionam e são seguros em pessoas.

Formas de Uso Descritas na Tradição

Os registros tradicionais citam o cataplasma de folhas sobre a pele, o chá de flores e folhas e a decocção da casca ou da raiz (N’danikou e colegas, 2011). Não existe dose padronizada para nenhuma dessas formas, e as quantidades, que variam de uma comunidade para outra, nunca passaram por estudos de segurança. Por isso não indicamos quantidade nem tempo de uso, e quem pensa em experimentar a planta deve conversar antes com farmacêutico, fitoterapeuta ou médico.

Contraindicações, Cuidados e Interações

Crianças, Gravidez e Lactação

Não há estudos de segurança da guaxima na amamentação nem na gestação, e a tradição dá motivos concretos para cautela. Na África, as folhas são amplamente usadas para facilitar ou induzir o parto, e na Costa do Marfim uma decocção da planta é tomada como ocitócica, isto é, para provocar contrações do útero (N’danikou e colegas, 2011). Por precaução, gestantes, lactantes e mulheres que tentam engravidar devem evitar a planta. Para crianças, também não localizamos dados de segurança, e a planta não deve ser oferecida a elas.

Mucilagem e Remédios Tomados por Via Oral

Preparações mucilaginosas formam um gel no tubo digestivo e, em teoria, podem atrasar ou reduzir a absorção de medicamentos tomados ao mesmo tempo. Não encontramos estudos desse efeito com a guaxima, mas o quiabo, outra malvácea mucilaginosa, mostrou o problema em ratos diabéticos. Com a fração solúvel em água do fruto dada junto com a metformina, a glicemia média ficou acima de 32 mmol/L nas 24 horas seguintes, praticamente o nível de antes do remédio, enquanto a metformina sozinha a derrubou para perto de 15 mmol/L em quatro horas, sinal de que o remédio perdeu quase todo o efeito (Khatun e colegas, 2011). Por precaução, quem usa remédios orais deve deixar um intervalo de pelo menos uma hora, de preferência duas, entre eles e qualquer preparo da planta, combinando o esquema com o farmacêutico ou o médico.

Antibióticos, Diabetes e Fertilidade

Como a decocção das folhas baixou a glicemia de ratos diabéticos (Purnomo e colegas, 2017), a planta pode, em teoria, somar efeito aos remédios para diabetes e favorecer hipoglicemia, enquanto a mucilagem pode, ao contrário, atrapalhar a absorção desses mesmos remédios. Com dois riscos opostos e nenhum dado em pessoas, quem trata diabetes não deve usar a guaxima sem orientação do médico. O experimento com cefazolina em camundongos (Yang e colegas, 2017) não autoriza combinar a guaxima com antibióticos por conta própria, e o efeito sobre os espermatozoides de ratos (Dhanapal e colegas, 2012) pede cautela a homens que tentam ter filhos.

Coleta e Identificação

Pela confusão frequente com a guanxuma, só faz sentido usar a planta com identificação segura, de preferência confirmada por quem conhece botânica. A guaxima é combatida como planta daninha com herbicidas como o 2,4-D e o glifosato (Awan e colegas, 2014), e em áreas de mineração na China exemplares da espécie acumularam cádmio na parte aérea (Zhou e colegas, 2025), o que torna arriscada a coleta em beira de estrada, pasto ou solo contaminado.

Sinais Que Pedem Avaliação Médica

Ardor ao urinar, catarro com sangue, diarreia com sangue ou que não melhora em poucos dias, falta de ar, febre, sangue na urina e tosse que não passa pedem consulta médica, e nenhum chá substitui esse atendimento.

Perguntas Frequentes

Guaxima e Guanxuma São a Mesma Planta?

Não. A guaxima é a Urena lobata, e a guanxuma, também chamada de mata-pasto, é a Sida rhombifolia (Chaves e colegas, 2017), malvácea de outro gênero, com cuidados e usos próprios.

Chá de Guaxima Serve para Tosse?

O uso contra problemas respiratórios e tosse é tradicional (N’danikou e colegas, 2011), e o único dado experimental ligado aos pulmões vem de camundongos com pneumonia (Yang e colegas, 2017). Não há estudo em pessoas, e tosse persistente pede avaliação médica.

Grávidas Podem Usar Guaxima?

Não é recomendado, porque faltam estudos de segurança na gestação e as folhas são usadas tradicionalmente para induzir o parto (N’danikou e colegas, 2011). A mesma precaução vale para a amamentação.

A Guaxima Interfere em Outros Remédios?

Não há estudo específico, mas um extrato solúvel em água do quiabo, outra malvácea mucilaginosa, reduziu o efeito da metformina em ratos (Khatun e colegas, 2011). Por precaução, deixe pelo menos uma hora, de preferência duas, entre a planta e os remédios orais e converse com o médico.

Por Que a Guaxima Também Se Chama Malva?

Malva é o nome corrente da planta na Amazônia, onde ela é cultivada para a extração de fibra usada em sacarias (Ferreira e Homma, 2024). Essa malva não é a malva-silvestre dos chás europeus, e o uso têxtil não indica que a planta seja segura para consumo.

Referências

17 Referências Citadas

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Baseado em 17 Referências Citadas (14 Peer-Reviewed, 1 Institucional, 2 Complementares).

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Estudos Científicos Peer-Reviewed (14)

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Fontes Institucionais (1)

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Leituras Complementares (2)

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  2. 2026 Flora e Funga do Brasil. Urena lobata L. (Malvaceae). Rio de Janeiro: Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Acesso em: 10 out. 2026. Disponível em: floradobrasil.jbrj.gov.br.

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