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Mel de Manuka: Estudos, Classificação UMF e Cuidados de Uso

O mel de manuka concentra metilglioxal, composto com ação antibacteriana em laboratório. Veja o que os estudos com pessoas mostram, como ler os selos UMF e MGO, e por que bebês não devem receber mel de nenhum tipo.

Por Conselho Editorial15 Min de Leitura
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Arbusto de manuka (Leptospermum scoparium) florido, com flores brancas pequenas, em paisagem montanhosa da Nova Zelândia

O mel de manuka é um mel monofloral produzido por abelhas que coletam o néctar das flores de Leptospermum scoparium J.R.Forst. & G.Forst., arbusto da família Myrtaceae nativo da Nova Zelândia e do sudeste da Austrália. A fama vem de um composto chamado metilglioxal, o MGO, que tem ação antibacteriana em laboratório e aparece nesse mel em quantidades até 100 vezes maiores do que nos méis comuns (Mavric e colegas, 2008).

O assunto aqui é o mel, e não chás ou preparos com folhas e flores da planta, que têm outra composição e não são objeto dos estudos descritos a seguir; o óleo essencial destilado das folhas, vendido como óleo de manuka, também é outro produto, com cuidados próprios. Os nomes populares também confundem: em inglês, o arbusto é chamado de tea tree, o mesmo apelido da melaleuca (Melaleuca alternifolia), outra Myrtaceae e fonte do óleo de tea tree vendido no Brasil. São espécies diferentes, e o que se sabe sobre o óleo de melaleuca não vale para o mel de manuka.

Sumário do Artigo
  1. A Planta e a Origem do Mel de Manuka
  2. Composição e o Papel do Metilglioxal
  3. O Que Dizem os Estudos
  4. Como Ler os Selos UMF e MGO
  5. Adulteração e Fraude: Cuidados na Compra
  6. Como Consumir
  7. Contraindicações e Cuidados
  8. Perguntas Frequentes

A Planta e a Origem do Mel de Manuka

Uma revisão botânica descreve Leptospermum scoparium como o arbusto nativo mais difundido e importante da Nova Zelândia, dominante em solos pobres e mal drenados, e aponta como seus principais produtos econômicos o mel, os óleos essenciais e as plantas ornamentais (Stephens e colegas, 2005). O nome mānuka vem da língua maori. Na Austrália, onde a espécie também ocorre, méis de outros Leptospermum, como o Leptospermum polygalifolium, compartilham parte da química do manuka neozelandês (Kato e colegas, 2012).

Como as abelhas fazem esse mel da mesma forma que qualquer outro, a identidade do manuka depende de análise de laboratório, e não da cor, do sabor ou da textura.

Arbusto de manuka (Leptospermum scoparium) florido, com flores brancas pequenas, em paisagem montanhosa da Nova Zelândia
O manuka cresce como arbusto denso nas encostas da Nova Zelândia, onde sua floração branca atrai as abelhas que produzem o mel de maior valor comercial do país. Foto: Tomas Sobek, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Composição e o Papel do Metilglioxal

Como todo mel, o de manuka é sobretudo açúcar: na tabela do USDA para o mel em geral, 100 gramas têm cerca de 82 gramas de açúcares, quase todos frutose e glicose, além de 17 gramas de água e 304 kcal (USDA, 2019).

Na maioria dos méis, a ação antibacteriana vem do peróxido de hidrogênio, gerado por uma enzima e sensível ao calor, enquanto no manuka boa parte dela persiste sem o peróxido (Molan e Allen, 1996). Em 2008, um grupo alemão apontou o MGO como o principal responsável: em seis amostras neozelandesas, o composto variou de 38 a 761 mg/kg, e o mel ainda inibia Escherichia coli e Staphylococcus aureus em diluições de 15% a 30%, enquanto a maioria dos outros méis não agiu nem a 80% (Mavric e colegas, 2008).

O MGO não vem pronto da flor. O néctar do manuka é rico em di-hidroxiacetona (DHA), que se converte aos poucos em MGO durante o armazenamento, e bastou acrescentar DHA a um mel de trevo para obter níveis de MGO parecidos com os do manuka (Adams e colegas, 2009), detalhe que ajuda a entender um tipo de fraude descrito adiante. Outro marcador, a leptosperina, descrita em 2012 com o nome de leptosina, só foi encontrada em méis da Oceania e tem concentração que cresce junto com o valor UMF (Kato e colegas, 2012).

O Que Dizem os Estudos

Quase toda a pesquisa com mel de manuka é de laboratório, e os ensaios em pessoas avaliam sobretudo curativos de mel esterilizado ou méis de vários tipos, o que impede transferir os resultados para o mel do pote.

Feridas e Queimaduras

Uma revisão Cochrane de 2015, com 26 ensaios e 3.011 participantes que usaram méis de diferentes tipos, encontrou evidência de alta qualidade de que curativos de mel levam queimaduras de espessura parcial à cicatrização cerca de 4,7 dias antes dos curativos convencionais. A vantagem sobre antissépticos com gaze em feridas pós-operatórias infectadas teve evidência moderada, vinda de um único ensaio, e para pé diabético, úlceras venosas e outras feridas a evidência foi baixa ou muito baixa (Jull e colegas, 2015).

Com manuka especificamente, um ensaio aberto na Índia sorteou 99 crianças internadas em terapia intensiva com lesões por pressão para receber curativo ou gel de mel de manuka ou de outro Leptospermum ativo, ou o cuidado padrão: a cicatrização completa levou, em mediana, 7 dias contra 9, sem reações alérgicas no grupo do mel (Sankar e colegas, 2021). Eram produtos médicos aplicados pela equipe hospitalar, e o estudo excluiu feridas infectadas e crianças com alergia conhecida ao mel.

No diabetes existe uma ressalva: o MGO é precursor dos produtos finais de glicação avançada, ligados à cicatrização prejudicada nessa doença, e um pesquisador eslovaco levantou a hipótese de que o MGO do manuka atrase a cicatrização de úlceras diabéticas, pedindo ensaios controlados para esclarecer a questão (Majtan, 2011).

Tosse Aguda em Crianças

Para tosse aguda em crianças de 12 meses a 18 anos, uma revisão Cochrane de seis ensaios concluiu que o mel provavelmente reduz a frequência da tosse mais do que o placebo ou a ausência de tratamento, talvez com efeito parecido ao do dextrometorfano, embora a maioria das crianças o tenha recebido por uma única noite (Oduwole e colegas, 2018). Os ensaios usaram méis variados, sem comparar o manuka com o mel comum, e não incluíram bebês com menos de 1 ano, que não devem receber mel de nenhum tipo.

Estômago e Helicobacter pylori

Em laboratório, 5% de mel de manuka no meio de cultura impediu o crescimento de sete isolados de Helicobacter pylori obtidos de biópsias de úlcera gástrica (Al Somal e colegas, 1994). Num pequeno estudo com pacientes infectados, publicado como carta em 1999, o mel não eliminou a bactéria (McGovern e colegas, 1999), e a erradicação continua dependendo do esquema de antibióticos prescrito pelo médico, que o mel não substitui.

Para a digestão em geral, um ensaio duplo-cego cruzado deu a 20 adultos saudáveis 20 gramas diários de manuka UMF 20+ e, em outro período, de um mel multifloral, por quatro semanas cada, ambos fornecidos pelo mesmo fabricante neozelandês. Nenhum dos dois méis mudou as bactérias intestinais analisadas, e os autores não observaram o efeito benéfico que a fama do manuka sugere (Wallace e colegas, 2010).

Gengivas e Placa Bacteriana

Num estudo piloto com 30 voluntários, mastigar uma bala de mel de manuka UMF 15 por 10 minutos após as três refeições, durante 21 dias, reduziu o índice de placa de 0,99 para 0,65 e os pontos de sangramento gengival de 48% para 17%, sem mudança no grupo do chiclete sem açúcar (English e colegas, 2004). É um estudo pequeno, com produto específico, que não autoriza trocar escovação e fio dental por mel.

Como Ler os Selos UMF e MGO

O selo UMF é concedido pela UMF Honey Association, entidade de produtores neozelandeses, com base em quatro marcadores (UMFHA):

  • DHA: precursora do MGO, indica quanto o teor de MGO ainda pode crescer
  • HMF (hidroximetilfurfural): mostra se o mel foi superaquecido ou armazenado por tempo demais
  • Leptosperina: composto do néctar de manuka usado para confirmar a autenticidade
  • MGO: principal medida da potência antibacteriana

Pela tabela da associação, UMF 5+ corresponde a 83 mg/kg de MGO, UMF 10+ a 261 mg/kg, UMF 15+ a 512 mg/kg e UMF 20+ a 826 mg/kg (UMFHA). Rótulos com a sigla MGO seguida de um número informam direto os miligramas de metilglioxal por quilo. São medidas de laboratório, e nenhum dos estudos citados aqui define uma graduação mínima para efeito no consumo como alimento.

Desde 2018, o mel exportado da Nova Zelândia como manuka precisa atender a uma definição oficial que combina DNA do pólen da planta e marcadores químicos do néctar (McDonald e colegas, 2018). O MGO não está entre esses marcadores, porque a definição confirma a origem, e não a potência.

Close de flores brancas de manuka com centro rosado, pétalas delicadas e numerosos estames
Cada flor do manuka tem só cerca de 1 centímetro, mas a florada breve e intensa concentra o néctar que depois vira o mel certificado pelos selos UMF e MGO. Foto: Chhe, domínio público, via Wikimedia Commons.

Adulteração e Fraude: Cuidados na Compra

O preço alto faz do manuka um alvo de adulteração, fraude e rotulagem enganosa, risco apontado pelos pesquisadores do Ministério das Indústrias Primárias da Nova Zelândia que propuseram a definição oficial (McDonald e colegas, 2018). Em 2019, um exportador de Auckland e seu gerente foram multados em 372.500 dólares neozelandeses por adicionar DHA e MGO sintéticos a mel de baixa qualidade ou de outras floradas, no primeiro caso de adulteração de mel detectado no país, e cerca de 14,5 toneladas de mel afetado foram recolhidas, inclusive lotes já exportados para países como Austrália, China e Estados Unidos (MPI, 2019).

Um MGO alto no rótulo, portanto, não prova sozinho que o mel é manuka. O problema lembra o do óleo de helicriso, em que o valor de mercado também estimula diluições e misturas que só a análise química revela. Na compra, ajuda conferir se o rótulo diz monofloral ou multifloral, desconfiar de preços muito abaixo da média, pedir ao vendedor o laudo de análise do lote e preferir produto com origem declarada e certificação independente rastreável.

Como Consumir

Como alimento, o mel de manuka vai bem dissolvido em chá morno, no iogurte, puro ou sobre frutas. Não há dose estabelecida para efeito sobre a saúde. Como o aquecimento eleva o teor de HMF, composto que a certificação UMF mede justamente para flagrar mel superaquecido (UMFHA), o melhor é juntar o manuka a bebidas mornas, e não ferventes.

Na pele, a regra muda. O mel às vezes contém esporos de clostrídios, e 25 kGy de radiação gama bastam para esterilizá-lo sem perda da atividade antibacteriana, que a autoclave destruiria (Molan e Allen, 1996). Por isso os curativos dos estudos são produtos de grau médico, esterilizados e com concentração controlada, usados sob orientação de profissional de saúde, e nunca mel de mesa passado sobre a ferida.

Contraindicações e Cuidados

Bebês com Menos de 12 Meses

Nenhum mel deve ser dado a crianças com menos de 1 ano, e o manuka não é exceção, porque o mel pode conter as bactérias que causam o botulismo. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos registram inclusive casos de botulismo infantil em bebês que usaram chupetas com mel (CDC), e a regra vale tanto para o mel puro quanto para o misturado a chás, leite ou papinhas.

Diabetes e Controle do Açúcar

A ação antibacteriana não muda o fato de que o mel é açúcar: uma colher de sopa, cerca de 21 gramas, traz aproximadamente 17 gramas de açúcares e 64 kcal (USDA, 2019). Quem tem diabetes ou pré-diabetes precisa contar o manuka como contaria o açúcar comum, com orientação de médico ou nutricionista, e só usá-lo em feridas dentro do plano da equipe que o acompanha, pela dúvida levantada sobre o efeito do MGO nas úlceras diabéticas (Majtan, 2011).

Alergia a Produtos de Abelha

A alergia ao mel é rara, mas pode ser grave, e há relato de anafilaxia desencadeada pelo próprio teste cutâneo com mel num hospital de Lisboa (Aguiar e colegas, 2017). Quem já reagiu a picada de abelha, a pólen de plantas ou a produtos da colmeia, como geleia real, pólen apícola ou própolis, deve falar com o alergista antes de usar o manuka, por boca ou na pele, e suspender o uso diante de coceira ou inchaço, procurando atendimento imediato se houver falta de ar.

Feridas e Infecções Graves

O mel de manuka não substitui antibiótico em infecção grave ou que já se espalhou pelo corpo. Dor crescente, febre, feridas profundas, pus, queimaduras extensas e vermelhidão que avança pedem avaliação médica, assim como qualquer lesão no pé de quem tem diabetes.

Perguntas Frequentes

Mel de Manuka É Melhor do que o Mel Comum?

Ele tem muito mais MGO (Mavric e colegas, 2008) e uma ação antibacteriana que, em laboratório, se mantém sem o peróxido de hidrogênio (Molan e Allen, 1996). Como alimento, os dois são basicamente açúcar, e os estudos sobre tosse não compararam o manuka com o mel comum (Oduwole e colegas, 2018).

Posso Passar Mel de Manuka do Pote numa Ferida?

Não, porque o mel pode trazer esporos de clostrídios, e os curativos usados nos estudos são esterilizados por radiação gama (Molan e Allen, 1996). Ferimentos que pedem mais do que água e sabão devem ser avaliados por profissional de saúde.

Bebê Pode Tomar Mel de Manuka?

Não antes dos 12 meses, nem misturado a alimentos ou passado na chupeta, pelo risco de botulismo infantil, que vale para qualquer mel (CDC).

Diabético Pode Consumir Mel de Manuka?

Só dentro do plano alimentar combinado com médico ou nutricionista, contando o mel como açúcar, já que uma colher de sopa traz cerca de 17 gramas de açúcares (USDA, 2019).

Como Saber se o Mel de Manuka É Verdadeiro?

Só a análise de laboratório confirma, com DNA do pólen e marcadores químicos do néctar (McDonald e colegas, 2018), já que houve até fraude com DHA e MGO sintéticos (MPI, 2019). Na compra, certificação independente, laudo do lote e preço compatível com o mercado são os melhores sinais.

Referências

19 Referências Citadas

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Baseado em 19 Referências Citadas (15 Peer-Reviewed, 2 Institucionais, 2 Complementares).

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Estudos Científicos Peer-Reviewed (15)

  1. DOI2008 Mavric E, Wittmann S, Barth G, Henle T. Identification and quantification of methylglyoxal as the dominant antibacterial constituent of Manuka (Leptospermum scoparium) honeys from New Zealand. Molecular Nutrition and Food Research. 2008;52(4):483-489. doi:10.1002/mnfr.200700282. Disponível em: doi.org.
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  3. DOI2012 Kato Y, Umeda N, Maeda A, Matsumoto D, Kitamoto N, Kikuzaki H. Identification of a novel glycoside, leptosin, as a chemical marker of manuka honey. Journal of Agricultural and Food Chemistry. 2012;60(13):3418-3423. doi:10.1021/jf300068w. Disponível em: doi.org.
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Fontes Institucionais (2)

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  2. GOV Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Botulism prevention. Atlanta: CDC. Disponível em: cdc.gov.

Leituras Complementares (2)

  1. UMF Honey Association (UMFHA). Unique Mānuka Factor: the UMF grading system. Disponível em: umf.org.nz.
  2. 2019 Ministry for Primary Industries (MPI). Fines totalling $372,500 imposed in landmark mānuka honey fraud case. Wellington: MPI; 2019. Disponível em: mpi.govt.nz.

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