Plantas Medicinais

Absinto: Saiba para Que Serve a Planta

O absinto (Artemisia absinthium) é uma planta RENISUS de uso digestivo tradicional, famosa por dar nome ao licor da tujona. Veja benefícios, riscos e como usar com segurança.

Por Conselho Editorial12 Min de Leitura
10 Referências
Publicado em Atualizado em
Absinto (Artemisia absinthium)
Absinto (Artemisia absinthium) seco, utilizado tradicionalmente na medicina natural para preparação de infusões e extratos terapêuticos.

O absinto (Artemisia absinthium) integra a RENISUS e tem uso digestivo tradicional real desde a Antiguidade, mas seu nome ficou mais associado ao licor que inspirou artistas do século XIX e a um composto, a tujona, hoje regulado por lei na União Europeia. Boa parte do que se ouve sobre a planta mistura fato histórico com lenda: a reputação de bebida alucinógena do licor deve mais aos sais de cobre usados para colorir a bebida e ao altíssimo teor alcoólico da época do que à tujona isolada. Este guia reúne a botânica, a composição química, os usos tradicionais e os riscos reais do absinto, separando o que é comprovado do que é mito.

Sumário do Artigo
  1. O Que É o Absinto
  2. História e Cultura do Absinto
  3. Características Botânicas da Artemisia absinthium
  4. Composição Química
  5. Usos Tradicionais e Etnobotânica
  6. Propriedades Estudadas do Absinto
  7. O Licor de Absinto: Mito e Realidade
  8. Como Preparar o Chá de Absinto
  9. Contraindicações e Efeitos Colaterais
  10. Perguntas Frequentes sobre o Absinto

O Que É o Absinto

Planta herbácea perene da família Asteraceae (a mesma da margarida e do girassol), nativa de regiões temperadas da Europa, da Ásia e do norte da África. Também chamada de losna ou wormwood em inglês, tem registro de uso medicinal desde o Egito Antigo, com papiro datado de 1.600 a.C. que já mencionava seu uso para problemas digestivos. Integra a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS).

História e Cultura do Absinto

Na Grécia Antiga, o absinto foi dedicado à deusa Ártemis, e o nome do gênero Artemisia deriva diretamente dessa associação. Gregos e romanos usavam a planta para tratar diversas doenças, e na Idade Média monges cultivavam a erva em jardins de mosteiros para preparar tônicos amargos usados para estimular o apetite e a digestão, além de combater vermes intestinais, uso que deu origem ao nome popular em inglês, wormwood.

A popularidade do absinto atingiu seu auge no século XIX, quando a planta se tornou o ingrediente principal do licor de mesmo nome, apelidado de “fada verde” por sua cor esverdeada. A bebida foi associada a casos de alcoolismo e a comportamentos atribuídos na época à tujona, o que levou à proibição do licor em vários países no início do século XX. Somente no final do século XX, depois da reavaliação científica dos riscos da tujona e da regulamentação do seu teor máximo, o licor voltou a ser produzido de forma legal, e destilarias e bares especializados no absinto ressurgiram em diversos países.

Características Botânicas da Artemisia absinthium

A planta pode atingir entre 60 e 120 centímetros de altura, com caules eretos, ramificados e acinzentados, cobertos por finos pelos prateados que dão a ela uma aparência aveludada. As folhas são alternas, pecioladas e profundamente recortadas, com as folhas basilares maiores e mais divididas que as superiores; o aroma exalado ao serem esmagadas é forte e penetrante.

As flores são pequenas, amarelas, agrupadas em capítulos globulares e pendentes que formam panículas nas extremidades dos ramos, com floração entre julho e setembro no hemisfério norte. O fruto é um pequeno aquênio liso. A raiz é pivotante e lenhosa, com raízes secundárias que se espalham superficialmente, o que permite à planta absorver umidade tanto de camadas profundas do solo quanto de chuvas esporádicas, além de rebrotar após cortes ou invernos rigorosos. A planta prefere solos pobres, secos e bem drenados, com plena exposição solar, e por isso é comum em terrenos baldios e encostas rochosas em suas regiões nativas.

Composição Química

Entre os componentes voláteis do óleo essencial, destacam-se camazuleno, cânfora e tujona, esta última presente em duas formas isoméricas (alfa e beta), sendo a alfa-tujona considerada a mais tóxica. A absintina e a anabsintina são os principais sesquiterpenos lactônicos da planta, responsáveis pelo sabor extremamente amargo e pelo estímulo reflexo à produção de sucos digestivos. A planta contém ainda flavonoides como artemetina e quercetina, além de ácidos fenólicos como o ácido cafeico e o ácido siríngico, compostos com atividade antioxidante.

A proporção entre esses compostos varia conforme o local de cultivo e a época da colheita: plantas cultivadas em altitudes mais elevadas tendem a produzir mais camazuleno, enquanto plantas de planície costumam ser mais ricas em tujona, o que torna a padronização de extratos de absinto um desafio para a indústria.

Usos Tradicionais e Etnobotânica

O uso mais tradicional e consolidado do absinto é digestivo, já praticado por Hipócrates: o sabor amargo estimula a produção de saliva, sucos gástricos e bile, o que ajuda a aliviar a atonia digestiva, a azia, as cólicas intestinais e a falta de apetite. Chás e tinturas são tradicionalmente consumidos antes das refeições para esse fim.

A planta também é tradicionalmente usada como vermífugo, contra parasitas como ascaris, lombriga e oxiúro, uso que deu origem ao nome popular em inglês, wormwood. Na medicina popular europeia, o absinto também era usado para aliviar cólicas menstruais; como a planta pode estimular o útero, esse uso tradicional é incompatível com a contraindicação na gravidez detalhada mais adiante neste artigo. Externamente, cataplasmas de folhas eram aplicados sobre contusões, entorses e picadas de insetos, e a planta também era queimada como incenso ou pendurada em casa, por crença popular de proteção contra maus-espíritos.

Levado pelos colonizadores europeus à América do Norte, o absinto se naturalizou como remédio caseiro para febres, problemas digestivos e vermes, além de ser plantado em hortas como repelente natural de insetos e outras pragas, um exemplo de jardinagem companheira que combinava uso medicinal e agrícola.

Propriedades Estudadas do Absinto

Estudos preliminares, em sua maioria pré-clínicos, avaliam outras possíveis propriedades do absinto. O camazuleno é estudado por seu possível papel anti-inflamatório, o que ajuda a explicar parte do uso tradicional da planta em preparações tópicas. O óleo essencial também é estudado por possível atividade antimicrobiana contra bactérias e fungos, o que pode explicar seu uso tradicional como antisséptico. Já os flavonoides e os ácidos fenólicos presentes na planta são estudados por sua atividade antioxidante, associada à proteção das células contra o estresse oxidativo. Esses achados ainda dependem de confirmação em estudos clínicos em humanos antes de sustentar qualquer recomendação de uso terapêutico específico.

O Licor de Absinto: Mito e Realidade

Licor de absinto (Artemisia absinthium)

O licor de absinto é produzido pela maceração da Artemisia absinthium em álcool, junto a outras ervas como o anis-verde e o funcho, que conferem à bebida seu sabor anisado característico. O ritual clássico de preparo, ainda hoje praticado por apreciadores, consiste em gotejar água gelada sobre um cubo de açúcar apoiado numa colher perfurada sobre o copo, o que dilui a bebida e faz os óleos essenciais se precipitarem num efeito turvo conhecido como “louche”.

Popular a partir da década de 1880 na boemia parisiense, o licor foi a bebida de eleição de pintores como Picasso, Toulouse-Lautrec e Van Gogh, e de escritores como Baudelaire, Oscar Wilde e Verlaine, apelidado de “fada verde” pela cor esverdeada e pela fama de estimular a criatividade. Essa mesma fama, porém, também alimentou uma reputação de causar alucinações e vício, o chamado “absintismo”, que levou à proibição do licor em países como Estados Unidos, França e Suíça no início do século XX.

Pesquisas modernas atribuem boa parte dos efeitos mais graves historicamente relatados à contaminação por sais de cobre, usados na época para intensificar a cor verde da bebida, e ao altíssimo teor alcoólico dos destilados então comercializados, não apenas à tujona isoladamente. Hoje, a União Europeia regula por lei o teor máximo de tujona em bebidas destiladas de artemísia (35 mg/kg), o que permite a produção legal e regulada do licor e explica o ressurgimento de destilarias e bares especializados no absinto nas últimas décadas.

Como Preparar o Chá de Absinto

  1. Leve 250 ml de água para ferver em uma chaleira ou panela.
  2. Coloque 1 colher de chá de folhas secas de absinto em uma xícara.
  3. Despeje a água fervente sobre as folhas e deixe em infusão por 5 a 10 minutos, sem exceder esse tempo para evitar um amargor excessivo.
  4. Coe o chá para remover as folhas, adoce com mel se desejar e beba ainda morno, preferencialmente antes das refeições.

Para uso digestivo tradicional, respeite sempre doses moderadas e ocasionais; doses elevadas de tujona são tóxicas e não devem ser buscadas deliberadamente, seja via chá concentrado, óleo essencial ou bebidas alcoólicas artesanais sem regulação de teor.

Contraindicações e Efeitos Colaterais

Doses grandes de absinto são tóxicas e podem causar delírio, inquietude, náusea, vertigem e vômito; casos graves de intoxicação por tujona já foram associados a convulsões. O absinto é contraindicado na gravidez, pois pode estimular o útero, e também na amamentação, pela falta de dados de segurança para o bebê; crianças pequenas também não devem consumir a planta, pelo sistema nervoso ainda em desenvolvimento.

Pessoas com histórico de epilepsia ou convulsões devem evitar o absinto, já que a tujona pode reduzir o limiar convulsivo, e pacientes com problemas renais devem ter cautela adicional. Quem tem alergia a plantas da família Asteraceae, como a ambrósia, pode ter reações alérgicas ao absinto. Pelo teor de taninos, a planta pode interagir com sais minerais como chumbo, ferro e zinco e com alguns alcaloides; consulte um médico ou farmacêutico antes de combinar com medicamentos de uso contínuo. Evite o óleo essencial concentrado por via oral, pela maior concentração de tujona em relação ao chá.

O uso prolongado de absinto não tem segurança estabelecida e pode favorecer dependência, insônia, nervosismo e tremores; por isso, o uso deve ser moderado, ocasional e, idealmente, acompanhado por um profissional de saúde.

Perguntas Frequentes sobre o Absinto

O Que É o Absinto?

O absinto (Artemisia absinthium) é uma planta herbácea da família Asteraceae, nativa da Europa e do norte da África, também chamada de losna ou wormwood em inglês. É tradicionalmente usada para fins digestivos e é o ingrediente principal do licor de mesmo nome.

Para Que Serve o Chá de Absinto?

O chá de absinto é tradicionalmente usado para estimular o apetite e auxiliar a digestão, sobretudo em casos de atonia digestiva, azia e falta de apetite. Também é usado tradicionalmente contra parasitas intestinais, mas essa aplicação exige cautela e orientação profissional.

O Absinto Causa Alucinações?

Em doses elevadas de tujona pode haver efeitos neurológicos, mas a reputação alucinógena do licor histórico é atribuída principalmente à contaminação por sais de cobre e ao altíssimo teor alcoólico das bebidas da época, não apenas à planta em si.

Sim, atualmente é produzido de forma legal e regulada na maioria dos países, com limite máximo de tujona estabelecido por lei (35 mg/kg na União Europeia).

O Chá de Absinto É Seguro?

Em doses moderadas e tradicionais, sim; doses elevadas de tujona são tóxicas e podem causar náusea, vômito, vertigem e delírio.

Grávidas Podem Tomar Chá de Absinto?

Não. O absinto é contraindicado na gravidez, pois pode estimular o útero, e também na amamentação.

O Absinto Interage com Medicamentos?

Possivelmente. Pelo teor de taninos, pode interagir com sais minerais como ferro e zinco e com alguns alcaloides; consulte um médico ou farmacêutico antes de combinar com medicamentos de uso contínuo.

O Óleo Essencial de Absinto Pode Ser Ingerido?

Não é recomendado sem orientação profissional, pela maior concentração de tujona em relação ao chá, com risco real de toxicidade.

Qual a Diferença Entre o Absinto e o Licor de Absinto?

O absinto é a planta (Artemisia absinthium); o licor de mesmo nome é uma bebida destilada que usa a planta como ingrediente principal, junto a outras ervas como anis-verde e funcho, hoje com teor de tujona regulado por lei.

O Absinto Está na Lista de Plantas do SUS?

Sim, integra a RENISUS, a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS.

Referências

10 Referências Citadas

Baseado em 10 Referências Citadas (4 Peer-Reviewed, 6 Complementares).

Ver Todas as 10 Referências Citadas

Estudos Científicos Peer-Reviewed (4)

  1. PMC Bioactive Compounds, Pharmacological Actions, and Pharmacokinetics of Wormwood (Artemisia absinthium)
  2. PEER Chemical Composition of Artemisia absinthium L. from Two Different Locations in Serbia
  3. PEER Chemical Composition and Antioxidant and Antimicrobial Activities of Wormwood (Artemisia absinthium L.) Essential Oils and Phenolics
  4. PEER Chemical Composition and Biological Uses of Artemisia absinthium (Wormwood)

Leituras Complementares (6)

  1. Artemisia absinthium L.—Importance in the history of medicine, the latest advances in phytochemistry and therapeutical, cosmetological and culinary uses
  2. Chemical Composition of the Essential Oils of Serbian Wild-Growing Artemisia absinthium and Artemisia vulgaris
  3. Chemical composition of the essential oil of Artemisia absinthium growing wild in Iran
  4. Absinthii herba – herbal medicinal product – European Medicines Agency
  5. Lachenmeier DW, Uebelacker M. Risk assessment of thujone in foods and medicines containing sage and wormwood: evidence for a need of regulatory changes? Regulatory Toxicology and Pharmacology.
  6. 2008 Regulamento (CE) nº 1334/2008 do Parlamento Europeu e do Conselho, sobre aromatizantes e teor máximo de tujona em bebidas.

Este conteúdo foi útil?

O que você achou deste artigo?

Continue Lendo Neste Tópico

Pode Interessar