A macaúba é uma palmeira espinhosa da América tropical, comum no Cerrado brasileiro, cujo fruto de casca dura tem duas partes comestíveis: a polpa amarela e fibrosa, de sabor adocicado, e a amêndoa guardada dentro de um caroço muito resistente (Junqueira e colegas, 2018). Na região central do Brasil ela é mais conhecida como bocaiúva (Junqueira e colegas, 2018), e em Mato Grosso do Sul a polpa vira farinha, licor, sorvete e suco (Slow Food).
Cada parte do fruto fornece um óleo diferente. O da polpa tem o ácido oleico como principal ácido graxo, o mesmo que predomina no azeite de oliva, enquanto o da amêndoa é dominado por gorduras saturadas, sobretudo o ácido láurico (Coimbra e Jorge, 2012). Essa diferença pesa na leitura das pesquisas, que testaram ora um óleo, ora outro, ora a própria polpa ou a amêndoa, e, até onde localizamos, foram todas feitas em animais ou em laboratório.
Sumário do Artigo
Identificação Botânica e Nomes
O nome científico é Acrocomia aculeata (Jacq.) Lodd. ex Mart., da família Arecaceae. O tronco pode chegar a 20 metros de altura, e as folhas, de 2 a 5 metros, têm a bainha, o pecíolo e a ráquis cobertos por espinhos escuros e agudos (Junqueira e colegas, 2018). O fruto, uma drupa globosa de cerca de 3,4 centímetros de diâmetro (Ramos e colegas, 2008), tem casca dura e quebradiça, polpa amarela e mucilaginosa e, no centro, um endocarpo enegrecido e muito duro que protege a amêndoa (Junqueira e colegas, 2018).
Além de macaúba e bocaiúva, a palmeira é chamada de coco-baboso, coco-de-catarro, coco-espinho, macaíba, macajuba e mucajá, entre outros. As palmeiras do gênero Acrocomia ocorrem do sul do México e das Antilhas até a Argentina e o Paraguai, e no Brasil as maiores populações estão em Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, São Paulo e Tocantins (Junqueira e colegas, 2018).
Macaúba, Bocaiúva e Acrocomia totai
Bocaiúva é o nome mais usado no Pantanal e em Mato Grosso do Sul, e é justamente ali que mora uma confusão botânica. Parte dessas populações é hoje considerada Acrocomia totai Mart., espécie aceita como separada da macaúba, que ocorre na Argentina, na Bolívia, no Paraguai e, no Brasil, no oeste de Mato Grosso do Sul e no noroeste do Paraná (Vianna e colegas, 2021; GBIF). Seus frutos são menores e têm, em média, menos óleo, e os autores apontam que vários trabalhos trataram como A. aculeata populações que eram de A. totai (Vianna e colegas, 2021).
A diferença aparece nos números. Em dados reunidos por pesquisadores da Embrapa, a polpa de plantas de A. aculeata de Minas Gerais teve de 68% a 78% de óleo em base seca, isto é, descontada a água, contra 27% a 30% nas plantas de A. totai de Ponta Porã (MS) (Junqueira e colegas, 2018). Como boa parte das pesquisas com bocaiúva usou frutos de Mato Grosso do Sul, não dá para garantir que todas tratem da mesma espécie.

Composição da Polpa e da Amêndoa
Nos frutos colhidos em Campo Grande (MS), a polpa e a amêndoa somaram 48% do peso do fruto. Para 100 gramas de polpa crua, o estudo registrou (Ramos e colegas, 2008):
- betacaroteno: 4.900 µg
- cálcio: 62 mg
- energia: 168 kcal
- fibra, estimada por diferença: 13,8 g
- fósforo: 36,7 mg
- gorduras totais: 8,1 g
- potássio: 766 mg
- proteína: 1,5 g
O betacaroteno respondeu por cerca de 80% dos carotenoides da polpa, e o potássio, o mineral mais abundante, ficou no dobro do teor descrito para a banana (Ramos e colegas, 2008). Esses valores mudam bastante de uma planta para outra: em frutos maduros de Mato Grosso do Sul, a gordura da polpa fresca variou de 4,2% a 24,7% (Junqueira e colegas, 2018).
A amêndoa é bem mais concentrada, com cerca de 52% de gordura, 17,6% de proteína e 561 kcal por 100 gramas, e se destaca entre os frutos do Cerrado pelos teores de cobre, fósforo, manganês e zinco (Junqueira e colegas, 2018).
Dois Óleos, Dois Perfis
Por extração mecânica, cerca de 85% do óleo do fruto sai da polpa e 15% sai da amêndoa (Junqueira e colegas, 2018). O óleo da polpa é rico em ácido oleico, uma gordura monoinsaturada, que chegou a 52,6% numa análise da Unesp (Coimbra e Jorge, 2012) e a cerca de 66% em outro levantamento (Junqueira e colegas, 2018), e as polpas concentraram mais carotenoides e tocoferóis, compostos com atividade de vitamina E, do que as amêndoas (Coimbra e Jorge, 2012).
No óleo da amêndoa a lógica se inverte: predominam as gorduras saturadas, com o ácido láurico à frente (Coimbra e Jorge, 2012), em torno de 44%, seguido do oleico, perto de 26% (Junqueira e colegas, 2018). Esse perfil o aproxima dos óleos láuricos de outras palmeiras, como o de babaçu e o de coco, e por isso falar em um único óleo de macaúba mistura dois produtos de perfis quase opostos.
A qualidade do óleo da polpa também varia muito: em amostras de frutos de Mato Grosso do Sul, a acidez, que sobe quando a gordura se degrada, foi de 1,1% a 11,4%, e os cuidados na colheita e na pós-colheita são apontados como decisivos para mantê-la baixa (Junqueira e colegas, 2018).

O Que Dizem os Estudos
Até outubro de 2026, não localizamos no PubMed nenhum ensaio clínico que tenha dado amêndoa, óleo ou polpa de macaúba a pessoas, e autores dos estudos descritos a seguir pedem pesquisas em humanos antes de qualquer conclusão (Traesel e colegas, 2014; Sant’Ana e colegas, 2023).
Gorduras no Sangue: Resultados Só em Animais
Os efeitos sobre colesterol e triglicerídeos foram vistos em animais e não foram confirmados em humanos. Em ratos com diabetes tipo 2 induzido em laboratório, dietas em que o óleo da amêndoa ocupou parte das calorias dos carboidratos reduziram o colesterol LDL, a glicemia e os triglicerídeos e elevaram o HDL (Nunes e colegas, 2020). Em camundongos com dieta rica em gordura, a amêndoa liofilizada de bocaiúva de Mato Grosso do Sul misturada à ração por 12 semanas elevou o HDL, mas só a menor dose reduziu os triglicerídeos, sem efeito sobre o peso e com efeito apenas discreto sobre a glicemia (Santana e colegas, 2025).
Com o óleo da polpa, de frutos de Minas Gerais, o quadro foi outro. Camundongos com dieta rica em gordura e 4% desse óleo na ração por oito semanas tiveram células de gordura menores e menos inflamação no tecido adiposo, mas colesterol total, glicemia, peso e triglicerídeos não mudaram de forma significativa (Sant’Ana e colegas, 2023). São resultados em animais, não confirmados em humanos, obtidos com o óleo isolado e não com a fruta.
Betacaroteno, Plaquetas e Segurança
Em ratos com deficiência de vitamina A, uma ração com polpa de bocaiúva aumentou as reservas de retinol do fígado, e os autores concluíram que o betacaroteno da fruta foi mais bem aproveitado do que o betacaroteno puro (Ramos e colegas, 2007). Em outro experimento, o óleo da polpa reduziu a agregação de plaquetas em amostras de sangue de 20 voluntários saudáveis, sem alterar os testes de coagulação, mas ninguém ingeriu o óleo (Espinoça e colegas, 2024).
Quanto à segurança, uma dose única de 2.000 mg de óleo da polpa por quilo não causou mortes em ratos, e doses de 125 a 1.000 mg/kg por 28 dias não alteraram exames de sangue nem a análise dos órgãos (Traesel e colegas, 2014), sem sinais de dano ao DNA (Traesel e colegas, 2015). Os autores lembram que isso ainda não basta para garantir a segurança do óleo concentrado em humanos.
Usos Tradicionais
O uso mais bem documentado da macaúba é alimentar. A polpa e a amêndoa são consumidas cruas ou em bolos, cocada, paçoca doce e sorvete (Junqueira e colegas, 2018), e a amêndoa está entre os produtos da palmeira aproveitados pelo povo Terena (Slow Food).
Em quatro comunidades rurais à beira do rio Paraguai, no Pantanal, a bocaiúva teve o maior valor de uso entre 54 plantas silvestres comestíveis. A maior parte dos usos da bocaiúva foi citada pelos moradores mais velhos, muitos dos quais disseram ter consumido a planta só no passado: uma bebida de leite quente sobre a amêndoa ralada, o licor, o óleo da amêndoa e a polpa crua. O óleo saiu da dieta porque dava muito trabalho e ficou mais fácil comprar outros óleos no mercado (Bortolotto e colegas, 2015). Por se tratar do Pantanal, parte dessas palmeiras pode corresponder à A. totai. Na medicina popular, a polpa tem fama de analgésica, cicatrizante e laxante (Espinoça e colegas, 2024), uso tradicional sem confirmação em estudos clínicos.
Como Consumir
A polpa madura pode ser comida crua, raspada do caroço, ou entrar em bolos, doces e sorvetes, enquanto a amêndoa exige quebrar o endocarpo. Prefira frutos íntegros, lave a casca antes de abrir e descarte os amolecidos, com cheiro de ranço ou mofados.
A polpa fornece 168 kcal em 100 gramas (Ramos e colegas, 2008), e a amêndoa, com 561 kcal por 100 gramas (Junqueira e colegas, 2018), entra no prato como uma castanha, a exemplo do baru, outra amêndoa do Cerrado. O óleo da amêndoa, rico em gordura saturada, entra na mesma conta das outras gorduras desse tipo: a Organização Mundial da Saúde recomenda que, a partir dos 2 anos, no máximo 10% das calorias diárias venham de gorduras saturadas (OMS, 2023). O óleo da polpa tem perfil mais próximo do azeite, mas nenhum estudo em humanos mostrou efeito dele sobre o colesterol.
Cuidados na Coleta e no Consumo
Como alimento, a macaúba é de baixo risco para a maioria das pessoas, e os frutos não contêm substâncias tóxicas conhecidas (Junqueira e colegas, 2018).
Espinhos
Os espinhos do tronco e das folhas são o principal risco prático, e os do pecíolo podem ferir quando as folhas secas caem (Junqueira e colegas, 2018). Um relato de caso argentino descreveu um menino de 11 anos com insuficiência grave da válvula tricúspide do coração depois de ter o tórax perfurado pelo espinho de uma palmeira identificada pelos autores como A. aculeata (Lugones e colegas, 2009). Na coleta, use calçado fechado e luvas grossas, recolha os frutos do chão em vez de sacudir a palmeira e mantenha as crianças longe do tronco. Ferimento profundo por espinho pede avaliação médica.
Medicamentos, Óleos Concentrados e Potássio
Com 766 mg de potássio por 100 gramas (Ramos e colegas, 2008), a polpa entra na conta do plano alimentar definido com o nutricionista para quem tem doença renal crônica com restrição de potássio. Os óleos não têm dose estabelecida para pessoas, e quem usa antiagregantes ou anticoagulantes, como ácido acetilsalicílico, clopidogrel ou varfarina, deve falar com o médico antes de tomar o óleo concentrado ou em cápsulas, já que o efeito sobre plaquetas foi visto em laboratório (Espinoça e colegas, 2024). Para colesterol alto e diabetes, o óleo não substitui os medicamentos prescritos.
Crianças, Gestação e Lactação
A polpa e a amêndoa, como alimento, podem fazer parte da alimentação nessas fases, com exceção do licor e de outras preparações alcoólicas, que devem ser evitados por crianças, gestantes e lactantes. Não localizamos estudos de segurança dos óleos concentrados em crianças, gestantes ou lactantes, por isso eles não devem ser usados como suplemento por conta própria. Para crianças pequenas, a amêndoa inteira ou em pedaços duros oferece risco de engasgo, como qualquer castanha.
Perguntas Frequentes
Qual a Diferença entre Macaúba e Bocaiúva?
Muitas vezes nenhuma, porque bocaiúva é o nome regional da macaúba no Centro-Oeste. Parte das palmeiras chamadas de bocaiúva no Pantanal e no oeste de Mato Grosso do Sul, porém, é hoje considerada Acrocomia totai, espécie separada, de frutos menores e com menos óleo (Vianna e colegas, 2021).
Óleo da Polpa e Óleo da Amêndoa São Iguais?
Não. O óleo da polpa tem o ácido oleico como principal ácido graxo, e o da amêndoa é dominado por gorduras saturadas, sobretudo o ácido láurico (Coimbra e Jorge, 2012).
Macaúba Baixa o Colesterol?
Não é possível afirmar. O óleo da amêndoa reduziu LDL e triglicerídeos em ratos diabéticos (Nunes e colegas, 2020), e o óleo da polpa não alterou colesterol total nem triglicerídeos em camundongos (Sant’Ana e colegas, 2023), resultados em animais e não confirmados em humanos.
A Polpa de Macaúba Tem Vitamina A?
Tem betacaroteno, precursor da vitamina A, com cerca de 4.900 µg por 100 gramas nos frutos analisados em Campo Grande (Ramos e colegas, 2008). Em ratos com deficiência de vitamina A esse betacaroteno foi bem aproveitado (Ramos e colegas, 2007), mas o efeito não foi medido em pessoas.
Referências
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Estudos Científicos Peer-Reviewed (12)
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Fontes Institucionais (1)
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Leituras Complementares (3)
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- Fondazione Slow Food per la Biodiversità. Ark of Taste: Bocaiuva. Disponível em: fondazioneslowfood.com.
- GBIF Secretariat. GBIF Backbone Taxonomy: Acrocomia totai Mart. (Arecaceae), nome aceito. Disponível em: gbif.org.





