O absinto (Artemisia absinthium) integra a RENISUS e tem uso digestivo tradicional real desde a Antiguidade, mas seu nome ficou mais associado ao licor que inspirou artistas do século XIX e a um composto, a tujona, hoje regulado por lei na União Europeia. Boa parte do que se ouve sobre a planta mistura fato histórico com lenda: a reputação de bebida alucinógena do licor deve mais aos sais de cobre usados para colorir a bebida e ao altíssimo teor alcoólico da época do que à tujona isolada. Este guia reúne a botânica, a composição química, os usos tradicionais e os riscos reais do absinto, separando o que é comprovado do que é mito.
Sumário do Artigo
- O Que É o Absinto
- História e Cultura do Absinto
- Características Botânicas da Artemisia absinthium
- Composição Química
- Usos Tradicionais e Etnobotânica
- Propriedades Estudadas do Absinto
- O Licor de Absinto: Mito e Realidade
- Como Preparar o Chá de Absinto
- Contraindicações e Efeitos Colaterais
- Perguntas Frequentes sobre o Absinto
O Que É o Absinto
Planta herbácea perene da família Asteraceae (a mesma da margarida e do girassol), nativa de regiões temperadas da Europa, da Ásia e do norte da África. Também chamada de losna ou wormwood em inglês, tem registro de uso medicinal desde o Egito Antigo, com papiro datado de 1.600 a.C. que já mencionava seu uso para problemas digestivos. Integra a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS).
História e Cultura do Absinto
Na Grécia Antiga, o absinto foi dedicado à deusa Ártemis, e o nome do gênero Artemisia deriva diretamente dessa associação. Gregos e romanos usavam a planta para tratar diversas doenças, e na Idade Média monges cultivavam a erva em jardins de mosteiros para preparar tônicos amargos usados para estimular o apetite e a digestão, além de combater vermes intestinais, uso que deu origem ao nome popular em inglês, wormwood.
A popularidade do absinto atingiu seu auge no século XIX, quando a planta se tornou o ingrediente principal do licor de mesmo nome, apelidado de “fada verde” por sua cor esverdeada. A bebida foi associada a casos de alcoolismo e a comportamentos atribuídos na época à tujona, o que levou à proibição do licor em vários países no início do século XX. Somente no final do século XX, depois da reavaliação científica dos riscos da tujona e da regulamentação do seu teor máximo, o licor voltou a ser produzido de forma legal, e destilarias e bares especializados no absinto ressurgiram em diversos países.
Características Botânicas da Artemisia absinthium
A planta pode atingir entre 60 e 120 centímetros de altura, com caules eretos, ramificados e acinzentados, cobertos por finos pelos prateados que dão a ela uma aparência aveludada. As folhas são alternas, pecioladas e profundamente recortadas, com as folhas basilares maiores e mais divididas que as superiores; o aroma exalado ao serem esmagadas é forte e penetrante.
As flores são pequenas, amarelas, agrupadas em capítulos globulares e pendentes que formam panículas nas extremidades dos ramos, com floração entre julho e setembro no hemisfério norte. O fruto é um pequeno aquênio liso. A raiz é pivotante e lenhosa, com raízes secundárias que se espalham superficialmente, o que permite à planta absorver umidade tanto de camadas profundas do solo quanto de chuvas esporádicas, além de rebrotar após cortes ou invernos rigorosos. A planta prefere solos pobres, secos e bem drenados, com plena exposição solar, e por isso é comum em terrenos baldios e encostas rochosas em suas regiões nativas.
Composição Química
Entre os componentes voláteis do óleo essencial, destacam-se camazuleno, cânfora e tujona, esta última presente em duas formas isoméricas (alfa e beta), sendo a alfa-tujona considerada a mais tóxica. A absintina e a anabsintina são os principais sesquiterpenos lactônicos da planta, responsáveis pelo sabor extremamente amargo e pelo estímulo reflexo à produção de sucos digestivos. A planta contém ainda flavonoides como artemetina e quercetina, além de ácidos fenólicos como o ácido cafeico e o ácido siríngico, compostos com atividade antioxidante.
A proporção entre esses compostos varia conforme o local de cultivo e a época da colheita: plantas cultivadas em altitudes mais elevadas tendem a produzir mais camazuleno, enquanto plantas de planície costumam ser mais ricas em tujona, o que torna a padronização de extratos de absinto um desafio para a indústria.
Usos Tradicionais e Etnobotânica
O uso mais tradicional e consolidado do absinto é digestivo, já praticado por Hipócrates: o sabor amargo estimula a produção de saliva, sucos gástricos e bile, o que ajuda a aliviar a atonia digestiva, a azia, as cólicas intestinais e a falta de apetite. Chás e tinturas são tradicionalmente consumidos antes das refeições para esse fim.
A planta também é tradicionalmente usada como vermífugo, contra parasitas como ascaris, lombriga e oxiúro, uso que deu origem ao nome popular em inglês, wormwood. Na medicina popular europeia, o absinto também era usado para aliviar cólicas menstruais; como a planta pode estimular o útero, esse uso tradicional é incompatível com a contraindicação na gravidez detalhada mais adiante neste artigo. Externamente, cataplasmas de folhas eram aplicados sobre contusões, entorses e picadas de insetos, e a planta também era queimada como incenso ou pendurada em casa, por crença popular de proteção contra maus-espíritos.
Levado pelos colonizadores europeus à América do Norte, o absinto se naturalizou como remédio caseiro para febres, problemas digestivos e vermes, além de ser plantado em hortas como repelente natural de insetos e outras pragas, um exemplo de jardinagem companheira que combinava uso medicinal e agrícola.
Propriedades Estudadas do Absinto
Estudos preliminares, em sua maioria pré-clínicos, avaliam outras possíveis propriedades do absinto. O camazuleno é estudado por seu possível papel anti-inflamatório, o que ajuda a explicar parte do uso tradicional da planta em preparações tópicas. O óleo essencial também é estudado por possível atividade antimicrobiana contra bactérias e fungos, o que pode explicar seu uso tradicional como antisséptico. Já os flavonoides e os ácidos fenólicos presentes na planta são estudados por sua atividade antioxidante, associada à proteção das células contra o estresse oxidativo. Esses achados ainda dependem de confirmação em estudos clínicos em humanos antes de sustentar qualquer recomendação de uso terapêutico específico.
O Licor de Absinto: Mito e Realidade

O licor de absinto é produzido pela maceração da Artemisia absinthium em álcool, junto a outras ervas como o anis-verde e o funcho, que conferem à bebida seu sabor anisado característico. O ritual clássico de preparo, ainda hoje praticado por apreciadores, consiste em gotejar água gelada sobre um cubo de açúcar apoiado numa colher perfurada sobre o copo, o que dilui a bebida e faz os óleos essenciais se precipitarem num efeito turvo conhecido como “louche”.
Popular a partir da década de 1880 na boemia parisiense, o licor foi a bebida de eleição de pintores como Picasso, Toulouse-Lautrec e Van Gogh, e de escritores como Baudelaire, Oscar Wilde e Verlaine, apelidado de “fada verde” pela cor esverdeada e pela fama de estimular a criatividade. Essa mesma fama, porém, também alimentou uma reputação de causar alucinações e vício, o chamado “absintismo”, que levou à proibição do licor em países como Estados Unidos, França e Suíça no início do século XX.
Pesquisas modernas atribuem boa parte dos efeitos mais graves historicamente relatados à contaminação por sais de cobre, usados na época para intensificar a cor verde da bebida, e ao altíssimo teor alcoólico dos destilados então comercializados, não apenas à tujona isoladamente. Hoje, a União Europeia regula por lei o teor máximo de tujona em bebidas destiladas de artemísia (35 mg/kg), o que permite a produção legal e regulada do licor e explica o ressurgimento de destilarias e bares especializados no absinto nas últimas décadas.
Como Preparar o Chá de Absinto
- Leve 250 ml de água para ferver em uma chaleira ou panela.
- Coloque 1 colher de chá de folhas secas de absinto em uma xícara.
- Despeje a água fervente sobre as folhas e deixe em infusão por 5 a 10 minutos, sem exceder esse tempo para evitar um amargor excessivo.
- Coe o chá para remover as folhas, adoce com mel se desejar e beba ainda morno, preferencialmente antes das refeições.
Para uso digestivo tradicional, respeite sempre doses moderadas e ocasionais; doses elevadas de tujona são tóxicas e não devem ser buscadas deliberadamente, seja via chá concentrado, óleo essencial ou bebidas alcoólicas artesanais sem regulação de teor.
Contraindicações e Efeitos Colaterais
Doses grandes de absinto são tóxicas e podem causar delírio, inquietude, náusea, vertigem e vômito; casos graves de intoxicação por tujona já foram associados a convulsões. O absinto é contraindicado na gravidez, pois pode estimular o útero, e também na amamentação, pela falta de dados de segurança para o bebê; crianças pequenas também não devem consumir a planta, pelo sistema nervoso ainda em desenvolvimento.
Pessoas com histórico de epilepsia ou convulsões devem evitar o absinto, já que a tujona pode reduzir o limiar convulsivo, e pacientes com problemas renais devem ter cautela adicional. Quem tem alergia a plantas da família Asteraceae, como a ambrósia, pode ter reações alérgicas ao absinto. Pelo teor de taninos, a planta pode interagir com sais minerais como chumbo, ferro e zinco e com alguns alcaloides; consulte um médico ou farmacêutico antes de combinar com medicamentos de uso contínuo. Evite o óleo essencial concentrado por via oral, pela maior concentração de tujona em relação ao chá.
O uso prolongado de absinto não tem segurança estabelecida e pode favorecer dependência, insônia, nervosismo e tremores; por isso, o uso deve ser moderado, ocasional e, idealmente, acompanhado por um profissional de saúde.
Perguntas Frequentes sobre o Absinto
O Que É o Absinto?
O absinto (Artemisia absinthium) é uma planta herbácea da família Asteraceae, nativa da Europa e do norte da África, também chamada de losna ou wormwood em inglês. É tradicionalmente usada para fins digestivos e é o ingrediente principal do licor de mesmo nome.
Para Que Serve o Chá de Absinto?
O chá de absinto é tradicionalmente usado para estimular o apetite e auxiliar a digestão, sobretudo em casos de atonia digestiva, azia e falta de apetite. Também é usado tradicionalmente contra parasitas intestinais, mas essa aplicação exige cautela e orientação profissional.
O Absinto Causa Alucinações?
Em doses elevadas de tujona pode haver efeitos neurológicos, mas a reputação alucinógena do licor histórico é atribuída principalmente à contaminação por sais de cobre e ao altíssimo teor alcoólico das bebidas da época, não apenas à planta em si.
O Licor de Absinto É Legal?
Sim, atualmente é produzido de forma legal e regulada na maioria dos países, com limite máximo de tujona estabelecido por lei (35 mg/kg na União Europeia).
O Chá de Absinto É Seguro?
Em doses moderadas e tradicionais, sim; doses elevadas de tujona são tóxicas e podem causar náusea, vômito, vertigem e delírio.
Grávidas Podem Tomar Chá de Absinto?
Não. O absinto é contraindicado na gravidez, pois pode estimular o útero, e também na amamentação.
O Absinto Interage com Medicamentos?
Possivelmente. Pelo teor de taninos, pode interagir com sais minerais como ferro e zinco e com alguns alcaloides; consulte um médico ou farmacêutico antes de combinar com medicamentos de uso contínuo.
O Óleo Essencial de Absinto Pode Ser Ingerido?
Não é recomendado sem orientação profissional, pela maior concentração de tujona em relação ao chá, com risco real de toxicidade.
Qual a Diferença Entre o Absinto e o Licor de Absinto?
O absinto é a planta (Artemisia absinthium); o licor de mesmo nome é uma bebida destilada que usa a planta como ingrediente principal, junto a outras ervas como anis-verde e funcho, hoje com teor de tujona regulado por lei.
O Absinto Está na Lista de Plantas do SUS?
Sim, integra a RENISUS, a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS.
Referências
Ver Todas as 10 Referências Citadas
Estudos Científicos Peer-Reviewed (4)
- PMC Bioactive Compounds, Pharmacological Actions, and Pharmacokinetics of Wormwood (Artemisia absinthium)
- PEER Chemical Composition of Artemisia absinthium L. from Two Different Locations in Serbia
- PEER Chemical Composition and Antioxidant and Antimicrobial Activities of Wormwood (Artemisia absinthium L.) Essential Oils and Phenolics
- PEER Chemical Composition and Biological Uses of Artemisia absinthium (Wormwood)
Leituras Complementares (6)
- Artemisia absinthium L.—Importance in the history of medicine, the latest advances in phytochemistry and therapeutical, cosmetological and culinary uses
- Chemical Composition of the Essential Oils of Serbian Wild-Growing Artemisia absinthium and Artemisia vulgaris
- Chemical composition of the essential oil of Artemisia absinthium growing wild in Iran
- Absinthii herba – herbal medicinal product – European Medicines Agency
- Lachenmeier DW, Uebelacker M. Risk assessment of thujone in foods and medicines containing sage and wormwood: evidence for a need of regulatory changes? Regulatory Toxicology and Pharmacology.
- 2008 Regulamento (CE) nº 1334/2008 do Parlamento Europeu e do Conselho, sobre aromatizantes e teor máximo de tujona em bebidas.






