Plantas Medicinais

Crataegus (Biancospino): Benefícios, Usos e Contraindicações

Descubra os benefícios do crataegus (Crataegus oxyacantha) para o coração e a pressão arterial, como preparar o chá e quais interações medicamentosas reais exigem atenção médica.

Por Conselho Editorial13 Min de Leitura
Evidência Moderada14 Referências
Publicado em Atualizado em
Biancospino - Crataegus oxyacantha
Frutos maduros de Crataegus oxyacantha (biancospino), planta utilizada na medicina natural para preparo de chás medicinais com propriedades cardiotônicas.

O crataegus (Crataegus oxyacantha), também conhecido como biancospino, espinheiro-branco ou hawthorn, é um dos fitoterápicos cardiovasculares com evidência científica mais robusta: estudos pré-clínicos mostram proteção do músculo cardíaco durante episódios de isquemia, ensaios clínicos indicam redução modesta da pressão arterial, e a tradição europeia usa a planta há séculos como apoio ao coração. Mas justamente por agir sobre o sistema cardiovascular, o crataegus tem interações reais e documentadas com medicamentos cardíacos, vasodilatadores e estimulantes sexuais como o sildenafil, o que torna a orientação médica indispensável para quem já usa esse tipo de tratamento.

Sumário do Artigo
  1. O Que É o Crataegus (Biancospino)
  2. Composição Química e Princípios Ativos
  3. Benefícios Cardiovasculares
  4. Impacto na Hipertensão Arterial
  5. Propriedades Antioxidantes e Anti-Inflamatórias
  6. Uso Tradicional e Etnobotânica
  7. Como Preparar o Chá de Crataegus
  8. Formas de Uso e Dosagem
  9. Interações Medicamentosas Reais: a Parte Mais Importante deste Artigo
  10. Contraindicações e Efeitos Colaterais
  11. Perguntas Frequentes sobre o Crataegus

O Que É o Crataegus (Biancospino)

Arbusto ou pequena árvore espinhosa da família Rosaceae, o crataegus pode atingir até dez metros de altura e tem madeira notavelmente dura, característica que inspirou o nome do gênero: Crataegus vem do grego “kratos”, força. Existem mais de 280 espécies do gênero, nativas da Europa, da Ásia e da América do Norte, hoje também cultivadas com facilidade em outras regiões de clima temperado. Crataegus oxyacantha e Crataegus monogyna são as mais comuns na Europa; na China, predomina o uso de Crataegus pinnatifida.

As folhas são lobuladas e brilhantes, as flores brancas ou rosadas desabrocham na primavera com odor característico, e os frutos, pequenas bagas vermelhas conhecidas como pilritos, amadurecem no outono; são a parte mais usada na fitoterapia, junto com folhas e flores secas. Além de crataegus e biancospino, a planta é popularmente chamada de espinheiro-branco, pilriteiro e hawthorn.

Composição Química e Princípios Ativos

Crataegus oxyacantha (fruto)

A riqueza terapêutica do crataegus vem da combinação de diferentes grupos de compostos bioativos, concentrados em partes distintas da planta: as folhas são mais ricas em proantocianidinas oligoméricas (OPCs), as flores concentram flavonoides como hiperosídeo, rutina e vitexina, e os frutos contêm mais proantocianidinas e ácidos triterpênicos (crataególico, oleanólico e ursólico). Por isso, o melhor efeito medicinal costuma ser obtido combinando as diferentes partes da planta em vez de usar apenas uma delas.

A vitexina tem ação vasodilatadora documentada, ajudando a relaxar vasos sanguíneos e melhorar o fluxo de sangue. As proantocianidinas oligoméricas são polímeros de catequina e epicatequina que fortalecem os capilares, melhoram a circulação periférica e protegem o colágeno da degradação, contribuindo para a integridade dos vasos. Os ácidos triterpênicos estão associados ao efeito inotrópico positivo da planta, o aumento da força de contração do músculo cardíaco. O crataegus também contém compostos amínicos, como acetilcolina, dopamina, feniletilamina e tiramina, além de vitamina C e minerais.

Benefícios Cardiovasculares

Os extratos de crataegus são amplamente estudados e usados na Europa como apoio nos estágios iniciais de insuficiência cardíaca. A ação da planta sobre o coração acontece por múltiplos mecanismos, descritos a seguir.

Ação Inotrópica Positiva

O crataegus está associado a um efeito inotrópico positivo, o aumento da força de contração do músculo cardíaco, que permite ao coração bombear sangue de forma mais eficiente. Esse efeito é atribuído principalmente aos ácidos triterpênicos e flavonoides, que atuariam sobre o metabolismo energético das células cardíacas. Diferentemente de fármacos digitálicos, a literatura tradicional associa ao crataegus uma ação mais suave e um menor risco de arritmias, mas isso não o torna substituto de nenhum medicamento prescrito para insuficiência cardíaca.

Efeito Vasodilatador e Hipotensor

O uso tradicional do crataegus para angina, hipertensão e aterosclerose é atribuído à dilatação dos vasos sanguíneos e à melhora do metabolismo muscular cardíaco sob baixa oferta de oxigênio. Os flavonoides, como a vitexina, relaxam as artérias coronárias, o que pode aumentar o suprimento de sangue e oxigênio para o próprio músculo cardíaco e ajudar a aliviar sintomas de angina. A vasodilatação periférica também contribui para regularizar a pressão arterial, tanto a hipertensão quanto, tradicionalmente, a hipotensão. A planta ainda é usada tradicionalmente como apoio à memória em casos de fluxo sanguíneo cerebral reduzido.

Proteção Contra Isquemia e Reperfusão

Estudos em modelo animal mostram que o pré-tratamento com crataegus protege o músculo cardíaco durante episódios de isquemia e reperfusão, reduzindo a liberação de marcadores de dano celular. A hipótese é que a atividade antioxidante da planta neutraliza radicais livres gerados nesses eventos, minimizando o dano às células cardíacas. Esses achados sustentam o uso tradicional europeu do crataegus como cardioprotetor, embora a maior parte dessa evidência específica venha de estudos pré-clínicos, não de grandes ensaios clínicos em humanos.

Efeito Antiarrítmico

Estudos sugerem que o crataegus prolonga o período refratário das células cardíacas, o tempo que elas levam para responder a um novo estímulo elétrico, o que ajudaria a prevenir batimentos irregulares ou extras. Esse efeito é considerado suave e contribui para o perfil de segurança da planta, mas não substitui o acompanhamento médico em quadros de arritmia.

Impacto na Hipertensão Arterial

Estudos clínicos randomizados e controlados por placebo investigaram o efeito hipotensor do crataegus. Uma meta-análise recente reuniu vários desses estudos e encontrou redução estatisticamente significativa da pressão arterial sistólica, em torno de 6,65 mmHg em média; a redução da pressão diastólica também apareceu, mas nem sempre foi estatisticamente significativa. As dosagens usadas nos estudos variaram entre 250 mg e 1200 mg de extrato por dia, com duração de tratamento de 2 a 6 meses, e o efeito parece levar algumas semanas para se manifestar. Alguns pesquisadores consideram essa redução comparável à de certos anti-hipertensivos de primeira linha, mas o crataegus deve ser usado apenas como terapia complementar, nunca como substituto do tratamento médico prescrito, e sempre com acompanhamento profissional.

Propriedades Antioxidantes e Anti-Inflamatórias

Os compostos fenólicos do crataegus, sobretudo flavonoides e proantocianidinas, têm ação antioxidante documentada, neutralizando radicais livres que danificam as células. Essa ação ajuda a proteger os vasos sanguíneos e pode contribuir para prevenir a oxidação do colesterol LDL, um dos passos da formação de placas na aterosclerose, além de proteger as mitocôndrias das células do músculo cardíaco, que dependem de bastante energia. A planta também exibe efeitos anti-inflamatórios em estudos de laboratório, incluindo redução da expressão de enzimas como a COX-2 e de citocinas como TNF-alfa e interleucinas, moléculas ligadas à inflamação crônica de baixo grau associada à progressão da insuficiência cardíaca.

Uso Tradicional e Etnobotânica

O uso medicinal do crataegus é antigo. O médico grego Dioscórides já recomendava a planta para problemas cardíacos no século I d.C., e durante a Idade Média ela era usada para tratar desde pedras nos rins até gota, embora sua associação com o coração sempre tenha sido a mais forte. No folclore celta, o espinheiro-branco era considerado uma árvore sagrada, associada à proteção, ao amor e à fertilidade, e os romanos a usavam em cerimônias de casamento. Só no final do século XIX o uso cardíaco foi formalmente reconhecido pela medicina, quando médicos irlandeses, e depois europeus, passaram a prescrevê-lo.

Na medicina tradicional chinesa, o fruto do crataegus, chamado Shan Zha, é valorizado principalmente para promover a digestão, aliviar a estagnação alimentar (sobretudo de carne e gordura) e revigorar a circulação sanguínea; uma perspectiva que complementa o uso cardiovascular predominante na tradição ocidental.

Como Preparar o Chá de Crataegus

  1. Use de uma a duas colheres de chá de flores, folhas ou frutos secos de crataegus por xícara de água.
  2. Aqueça a água até ferver.
  3. Despeje a água quente sobre a erva e deixe em infusão por 10 a 15 minutos.
  4. Coe o chá para remover as partes da planta antes de servir.
  5. Tome de duas a três xícaras por dia.

O chá é a forma mais tradicional de uso, mas a concentração de compostos ativos pode variar bastante entre preparos; a maior parte da evidência clínica vem de extratos padronizados, não do chá caseiro isolado.

Formas de Uso e Dosagem

Além do chá, o crataegus está disponível em extrato padronizado, cápsulas e tintura. Os extratos padronizados garantem uma dose mais consistente de flavonoides ou proantocianidinas e concentram a maior parte da evidência clínica sobre a planta. Nos estudos sobre insuficiência cardíaca leve (classes I e II da NYHA), as doses usadas variaram de 160 a 1800 mg de extrato por dia, geralmente divididas em duas ou três tomadas; para hipertensão, as doses tendem a ser um pouco menores. Os efeitos não costumam ser imediatos: a maioria dos estudos aponta de 4 a 8 semanas de uso contínuo antes que os benefícios apareçam, por isso a consistência importa mais do que a quantidade isolada em um único dia. Seguir a orientação do fabricante ou de um profissional de saúde é essencial; a automedicação, mesmo com fitoterápicos, deve ser evitada.

Interações Medicamentosas Reais: a Parte Mais Importante deste Artigo

O crataegus pode potencializar o efeito de medicamentos que atuam sobre o coração e a circulação. Isso inclui betabloqueadores, clonidina (medicamento para hipertensão), digitálicos, sildenafil (Viagra) e outros estimulantes sexuais da mesma classe, e vasodilatadores usados para asma; a combinação pode causar queda excessiva da pressão arterial ou frequência cardíaca muito lenta. Quem usa qualquer medicação cardiovascular deve consultar um médico antes de associar o crataegus, e eventuais ajustes de dose do medicamento convencional só devem ser feitos por orientação profissional.

Contraindicações e Efeitos Colaterais

O crataegus é contraindicado na gravidez e na amamentação, pela falta de estudos de segurança suficientes nesses grupos. Pessoas com pressão arterial muito baixa devem ter cautela, já que o efeito hipotensor da planta poderia agravar essa condição, e o uso em crianças não é recomendado sem supervisão de um pediatra ou cardiologista pediátrico, pois a segurança nessa faixa etária não foi bem estabelecida. Pessoas em uso de betabloqueadores, clonidina, digitálicos, sildenafil, vasodilatadores ou qualquer outro medicamento cardiovascular devem consultar um médico antes de usar o crataegus, pelo risco real de potencialização de efeito.

Os efeitos colaterais são geralmente leves e raros, podendo incluir desconforto abdominal, dor de estômago, fadiga, insônia, sudorese e tontura; costumam desaparecer com a continuidade do uso ou a redução da dose. Ainda assim, se os sintomas persistirem, a orientação é procurar um médico.

Perguntas Frequentes sobre o Crataegus

O Crataegus Interage com Viagra (Sildenafil)?

Sim, pode potencializar o efeito do sildenafil e de estimulantes sexuais semelhantes, aumentando o risco de queda excessiva da pressão arterial.

Posso Usar Crataegus com Remédio para Pressão?

Não sem orientação médica: o crataegus pode potencializar o efeito de anti-hipertensivos como a clonidina e de betabloqueadores.

O Crataegus Trata Insuficiência Cardíaca?

Não é uma cura. Há uso tradicional e estudos de laboratório favoráveis, mas o crataegus é mais indicado como apoio complementar nos estágios iniciais, sempre associado ao tratamento médico prescrito, nunca como substituto dele.

Grávidas Podem Tomar Chá de Crataegus?

Não é recomendado, pela falta de estudos de segurança suficientes durante a gestação e a amamentação.

Qual a Diferença entre Crataegus e Pilriteiro?

Nenhuma essencial: ambos são nomes populares para espécies do gênero Crataegus (o mesmo vale para espinheiro-branco, biancospino e hawthorn), com composição e uso tradicional muito semelhantes; o que diferencia, na prática, é a espécie botânica específica.

O Chá de Crataegus Tem a Mesma Eficácia dos Extratos?

Não necessariamente. A maior parte da evidência clínica vem de extratos padronizados usados em pesquisa; o chá caseiro é uma forma tradicional mais suave e com concentração de ativos menos previsível.

O Crataegus Interage com Remédios para Asma?

Sim, pode potencializar o efeito de vasodilatadores usados no tratamento da asma; consulte um médico antes de combinar.

Quanto Tempo Leva para o Crataegus Fazer Efeito?

Geralmente de 4 a 8 semanas de uso contínuo. A planta atua de forma gradual e cumulativa, então não se deve esperar alívio imediato dos sintomas.

Quais os Efeitos Colaterais Mais Comuns do Crataegus?

São geralmente leves e raros: desconforto abdominal, dor de estômago, fadiga, insônia, sudorese e tontura.

Crianças Podem Usar Crataegus?

Não é recomendado sem supervisão de um pediatra ou cardiologista pediátrico, já que a segurança e a eficácia da planta não foram bem estabelecidas nessa faixa etária.

Referências

14 Referências Citadas

Nível de Evidência: 🥈 Moderado

Baseado em 14 Referências Citadas (5 Peer-Reviewed, 9 Complementares).

Ver Todas as 14 Referências Citadas

Estudos Científicos Peer-Reviewed (5)

  1. PMC Effect of Crataegus Usage in Cardiovascular Disease Prevention: An Evidence-Based Approach
  2. PEER Effect of crataegus oxyacantha on high blood pressure: A randomized single-blind controlled trial
  3. PMC Hawthorn: pharmacology and therapeutic uses
  4. PEER A randomised double blind placebo controlled clinical trial of a standardised extract of fresh Crataegus berries (Crataegisan®) in the treatment of patients with cardiac failure NYHA class II
  5. PEER Benefit-Risk Assessment of Crataegus Extract WS 1442: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Placebo-Controlled Trials

Leituras Complementares (9)

  1. 1999 Al Makdessi S, et al. Protective effect of Crataegus oxyacantha against reperfusion arrhythmias after global no-flow ischemia in the rat heart. Basic Research in Cardiology, 1999;94(2):71-77.
  2. 2007 Verma SK, et al. Crataegus oxyacantha: a cardioprotective herb. Journal of Herbal Medicine and Toxicology, 2007;1(1):65-71.
  3. 1982 Wagner H, Grevel J. Cardioactive drugs IV: cardiotonic amines from Crataegus oxyacantha. Planta Medica, 1982;45(2):98-101.
  4. 1987 Abdul-Ghani AS, et al. Hypotensive effect of Crataegus oxyacantha. International Journal of Crude Drug Research, 1987;25(4):216-220.
  5. Hawthorn (Crataegus spp.) Clinically Significantly Reduces Blood Pressure in Hypertension: A Meta-Analysis of Randomized Placebo-Controlled Clinical Trials
  6. Phytochemical and pharmacological activity profile of Crataegus oxyacantha L. (hawthorn), a cardiotonic herb
  7. Neurologically Potent Molecules from Crataegus oxyacantha: An Overview of the Traditional Use and Modern Scientific Evidence
  8. Crataegus oxyacantha, a cardioprotective herb
  9. Hawthorn extract for treating chronic heart failure

Este conteúdo foi útil?

O que você achou deste artigo?

Continue Lendo Neste Tópico

Pode Interessar