A adatoda, também conhecida como vasaka, é um arbusto do sul e do sudeste da Ásia cujo nome científico aceito é Justicia adhatoda L., da família Acanthaceae, e que aparece em boa parte da literatura sob o sinônimo Adhatoda vasica Nees. Na medicina ayurvédica e na unani, a planta tem uso antigo contra males das vias respiratórias, como catarro e tosse, e dela vem a vasicina, alcaloide que serviu de ponto de partida para dois remédios de farmácia, o ambroxol e a bromexina (Grange e Snell, 1996; Claeson e colegas, 2000).
A mesma vasicina, porém, estimula contrações do útero (Claeson e colegas, 2000), e a folha tem registro de uso popular para provocar aborto (Nath e colegas, 1992). Por isso a adatoda é contraindicada na gestação, e uma revisão crítica dos dados toxicológicos da espécie foi escrita justamente para avaliar se esses efeitos comprometem sua segurança como planta medicinal (Claeson e colegas, 2000).
A seguir, o que se sabe sobre a composição da adatoda, o que os poucos estudos em pessoas encontraram, quase sempre com a planta misturada a outras ervas, e quais cuidados valem para crianças, gestantes e quem convive com asma ou bronquite.
Sumário do Artigo
Identificação Botânica e Nomes
O nome aceito é Justicia adhatoda L., publicado por Lineu em 1753, e tanto a Flora of China quanto o GBIF tratam Adhatoda vasica Nees como sinônimo (Flora of China, 2011; GBIF), e é esse sinônimo que aparece na maioria dos estudos citados aqui. Em inglês a planta é chamada de Malabar nut, e na Índia recebe nomes como adosa, vasa e vasaka (Gupta e colegas, 2016; Khandelwal e colegas, 2024).
Trata-se de um arbusto que chega a 4 metros de altura, com folhas ovais a elíptico-ovais de 7 a 18 centímetros de comprimento e flores reunidas em espigas curtas, protegidas por brácteas sobrepostas. A corola, de 2,5 a 3 centímetros, é branca ou rosada, com estrias arroxeadas ou rosadas. A espécie provavelmente é nativa do subcontinente indiano e do Sudeste Asiático, mas foi cultivada e se naturalizou em tantas regiões tropicais que a área de origem ficou difícil de delimitar (Flora of China, 2011).

A adatoda não deve ser confundida com o chambá (Justicia pectoralis), planta do mesmo gênero usada popularmente no Brasil para problemas respiratórios. São espécies diferentes, e os dados de uma não valem para a outra.
Composição: Vasicina e Outros Alcaloides
Os alcaloides são os principais constituintes químicos da adatoda e pertencem ao grupo das pirroloquinazolinas, entre eles anisotina, vasicina, vasicinol e vasicinona (Khandelwal e colegas, 2024). A vasicinona foi descrita em 1959 como um alcaloide com ação broncodilatadora em experimentos de laboratório (Amin e Mehta, 1959), enquanto a vasicina ganhou importância por dois caminhos opostos: deu origem a remédios para o catarro e é o alcaloide associado aos efeitos da planta sobre o útero (Claeson e colegas, 2000).

Da Vasicina à Bromexina
O ambroxol e a bromexina, remédios usados para soltar o catarro, são derivados semissintéticos da vasicina, isto é, moléculas criadas em laboratório com base na estrutura do alcaloide (Grange e Snell, 1996; Khandelwal e colegas, 2024). É um caso conhecido de planta que inspirou fármacos, mas essa origem não faz da folha uma versão natural desses remédios. Os medicamentos têm composição e dose definidas e foram avaliados como substâncias isoladas, enquanto num chá ou extrato caseiro de adatoda a quantidade de vasicina é desconhecida.
Usos Tradicionais
A adatoda é uma planta conhecida da medicina ayurvédica e da unani, empregada sobretudo contra problemas das vias respiratórias (Claeson e colegas, 2000). Na tradição indiana ela aparece em preparações para asma, catarro e tosse (Khandelwal e colegas, 2024), e foi da folha que vieram os extratos testados nos poucos ensaios em pessoas (Barth e colegas, 2015; Gupta e colegas, 2016). No Brasil, o uso popular para catarro e tosse costuma envolver outras plantas, como o chambá e o guaco, que têm composição e cuidados próprios.
O uso tradicional ligado à gravidez é o que exige mais atenção. Em partes da Índia, o extrato das folhas é usado para estimular contrações uterinas e acelerar o parto (Khandelwal e colegas, 2024). Um estudo indiano partiu de um levantamento das plantas de medicina popular usadas por mulheres em duas cidades de Uttar Pradesh, chamadas no título do trabalho de plantas abortivas de uso comum, e a adatoda estava entre elas (Nath e colegas, 1992). Nesse caso, a tradição é motivo de cautela, e não garantia de segurança.
O Que Dizem os Estudos
Os ensaios com adatoda em pessoas são poucos e curtos, e a maioria testou a planta misturada a outras ervas, num xarope ayurvédico indiano ou numa combinação fixa de extratos aprovada na Escandinávia (Barth e colegas, 2015). Com esse desenho, não há como saber quanto do resultado se deve à adatoda, e a revisão mais recente sobre a química e a farmacologia da espécie aponta a necessidade de ensaios clínicos que validem o uso de seus componentes (Khandelwal e colegas, 2024).
Estudos em Humanos
Na Armênia, um ensaio randomizado avaliou pacientes com infecção respiratória aguda sem complicações e comparou uma solução oral com extratos de adatoda, eleuterococo e equinácea à mesma mistura sem adatoda e à bromexina. Na comparação aberta, a combinação completa trouxe melhora maior de sintomas como congestão nasal e tosse do que a bromexina, mas na comparação duplo-cega com a mistura sem adatoda, a única capaz de isolar o papel da planta, não houve diferença significativa (Narimanian e colegas, 2005).
Num segundo ensaio com a mesma combinação, 177 adultos de 18 a 65 anos com resfriado foram sorteados para receber bromexina, a combinação ou placebo durante cinco dias. Tanto a combinação quanto a bromexina aliviaram a tosse mais do que o placebo, com recuperação um pouco mais rápida no grupo da combinação no terceiro e no quarto dia de tratamento (Barth e colegas, 2015).
Na Índia, um xarope ayurvédico com mel e oito plantas, entre elas a adatoda e o tulsi, foi comparado a um xarope convencional à base de difenidramina em 105 adultos com tosse seca aguda, e os dois tiveram resultados parecidos ao longo de três dias de uso. Parte dos autores trabalhava para a empresa que patrocinou o estudo e comercializa o xarope (Gupta e colegas, 2016).
O único ensaio que localizamos com um grupo tratado apenas com extrato de adatoda foi feito na Índia com 150 pessoas com COVID-19 sem sintomas ou com sintomas leves, divididas entre adatoda, Tinospora cordifolia e a combinação das duas por 14 dias. Todos os que concluíram o estudo se recuperaram e ninguém relatou efeitos adversos, mas o ensaio foi aberto e não teve grupo placebo, o que impede separar o efeito do extrato da evolução natural da doença (Verma e colegas, 2023).
Somados, esses trabalhos não permitem afirmar que a adatoda trate asma, bronquite ou infecções respiratórias, e nenhum deles avaliou o chá ou a folha preparados em casa.
Estudos em Animais e em Laboratório
Em cobaias e coelhos, o extrato de adatoda reduziu a tosse provocada por estímulos elétricos e mecânicos e por aerossóis irritantes (Dhuley, 1999). Os efeitos sobre o útero vêm sendo estudados em animais desde os anos 1970: a vasicina foi descrita como abortiva e uterotônica (Gupta e colegas, 1978), e extratos da folha provocaram aborto em todas as ratas tratadas por via oral, na dose avaliada, nos dez dias seguintes ao acasalamento (Nath e colegas, 1992). Segundo a revisão de 2024, esse efeito parece envolver o aumento da liberação e da produção de prostaglandinas, substâncias que participam das contrações uterinas (Khandelwal e colegas, 2024).
Os dados em animais, porém, não são unânimes: um estudo posterior, com outro extrato da folha, não observou aborto em ratas prenhes (Burgos e colegas, 1997). Ao avaliar a planta, a Agência Europeia de Medicamentos concluiu que não era possível criar uma monografia oficial da folha sem mais informações, citando entre os motivos as preocupações com a segurança na reprodução (EMA, 2013). Esses resultados não se transferem automaticamente para pessoas, mas no caso do útero bastam para justificar a contraindicação na gravidez.
Contraindicações, Cuidados e Interações
Os ensaios em humanos relataram boa tolerância, mas foram curtos, envolveram apenas adultos e usaram extratos e xaropes prontos (Barth e colegas, 2015; Gupta e colegas, 2016; Verma e colegas, 2023), o que nada diz sobre o uso prolongado nem sobre chás e extratos caseiros.
Gravidez e Lactação
A adatoda é contraindicada na gestação. A vasicina estimula contrações uterinas, extratos da folha foram abortivos em ratas e a planta tem uso tradicional para acelerar o parto e provocar aborto (Gupta e colegas, 1978; Nath e colegas, 1992; Khandelwal e colegas, 2024). Quem está grávida ou tentando engravidar não deve usar cápsula, chá, extrato ou xarope que contenha a planta.
Na amamentação, o uso também deve ser evitado, porque não localizamos estudos de segurança em lactantes, e os ensaios clínicos que descrevem esse critério excluíram gestantes e mulheres que amamentavam (Gupta e colegas, 2016; Verma e colegas, 2023).
Asma, Bronquite e Crise de Falta de Ar
A adatoda não substitui o broncodilatador nem o corticoide prescritos para asma ou bronquite, e os ensaios descritos acima trataram de infecções respiratórias agudas e resfriados, não de asma nem de bronquite crônica. O tratamento da asma não deve ser interrompido sem consulta prévia ao médico (Ministério da Saúde).
Uma crise de falta de ar é emergência, e não momento para testar chá ou xarope de planta. Quem tem asma diagnosticada deve usar o broncodilatador de alívio como prevê o plano de tratamento. Procure imediatamente o serviço de saúde mais próximo se a falta de ar não melhorar ou se a crise vier acompanhada de qualquer um destes sinais (Ministério da Saúde):
- alteração do nível de consciência
- respiração rápida, com dificuldade para falar e esforço para respirar
- batimentos do coração acelerados
- chiado ao respirar
Crianças
Não há dados de segurança da adatoda em crianças, já que os ensaios que informam a faixa etária incluíram apenas adultos de 18 a 65 anos (Barth e colegas, 2015; Gupta e colegas, 2016; Verma e colegas, 2023). Por isso a planta não deve ser dada a crianças sem orientação do pediatra, que também é quem deve avaliar chiado no peito ou tosse persistente na infância.
Anticoagulantes e Outros Medicamentos
Não encontramos estudos de interação medicamentosa da adatoda em humanos. No ensaio com COVID-19, o grupo que tomou só a adatoda teve aumento do INR, índice usado para acompanhar a coagulação do sangue, embora os valores tenham permanecido dentro da faixa normal (Verma e colegas, 2023). É um achado isolado, mas quem usa anticoagulante, como a varfarina, deve conversar com o médico antes de usar a planta. O mesmo vale para quem tem doença crônica ou toma remédios de uso contínuo, inclusive ambroxol ou bromexina, já que não encontramos estudos sobre a combinação desses remédios com a planta.
Perguntas Frequentes
Para Que Serve a Adatoda?
Na medicina ayurvédica e na unani, a adatoda é usada principalmente para catarro, tosse e outros males respiratórios (Claeson e colegas, 2000). Os poucos ensaios em pessoas testaram a planta quase sempre combinada com outras ervas, e os resultados não permitem afirmar que ela trate essas condições (Narimanian e colegas, 2005; Barth e colegas, 2015).
Adatoda Pode Ser Usada na Gravidez?
Não. A vasicina estimula contrações do útero, extratos da folha foram abortivos em ratas e a planta tem uso tradicional para provocar aborto (Gupta e colegas, 1978; Nath e colegas, 1992). Na amamentação, o uso também deve ser evitado, por falta de estudos de segurança.
Adatoda Substitui o Remédio da Asma?
Não. A planta não substitui broncodilatador nem corticoide, e o tratamento prescrito não deve ser interrompido sem orientação médica (Ministério da Saúde). Diante de uma crise de falta de ar, procure atendimento de urgência.
Ambroxol e Bromexina Vêm da Adatoda?
Indiretamente. Os dois remédios são derivados semissintéticos da vasicina, alcaloide da adatoda, criados em laboratório com base na estrutura dessa molécula (Grange e Snell, 1996). Isso não torna a folha equivalente a eles, porque os medicamentos têm composição e dose definidas, e a planta, não.
Crianças Podem Tomar Adatoda?
Não há dados de segurança em crianças, porque os ensaios com idade informada incluíram apenas adultos (Barth e colegas, 2015; Verma e colegas, 2023). A planta não deve ser dada a crianças sem orientação do pediatra.
Posso Fazer Chá de Adatoda em Casa?
Não existe dose segura estabelecida para o chá ou para a folha preparada em casa, e os estudos em pessoas usaram extratos e xaropes preparados para esse fim (Barth e colegas, 2015; Gupta e colegas, 2016). Somado ao efeito sobre o útero, isso torna o uso por conta própria desaconselhável, e qualquer uso deve ser discutido antes com farmacêutico ou médico.
Referências
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Estudos Científicos Peer-Reviewed (12)
- DOI1996 Grange JM, Snell NJ. Activity of bromhexine and ambroxol, semi-synthetic derivatives of vasicine from the Indian shrub Adhatoda vasica, against Mycobacterium tuberculosis in vitro. Journal of Ethnopharmacology. 1996;50(1):49-53. doi:10.1016/0378-8741(95)01331-8. Disponível em: doi.org.
- DOI2000 Claeson UP, Malmfors T, Wikman G, Bruhn JG. Adhatoda vasica: a critical review of ethnopharmacological and toxicological data. Journal of Ethnopharmacology. 2000;72(1-2):1-20. doi:10.1016/S0378-8741(00)00225-7. Disponível em: doi.org.
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- PMC2023 Verma M, Rawat N, Rani R, Singh M, Choudhary A, Abbasi S, et al. Adhatoda vasica and Tinospora cordifolia extracts ameliorate clinical and molecular markers in mild COVID-19 patients: a randomized open-label three-armed study. European Journal of Medical Research. 2023;28(1):556. doi:10.1186/s40001-023-01507-7. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov.
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- PMC1978 Gupta OP, Anand KK, Ghatak BJ, Atal CK. Vasicine, alkaloid of Adhatoda vasica, a promising uterotonic abortifacient. Indian Journal of Experimental Biology. 1978;16(10):1075-1077. PMID: 750386. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov.
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Leituras Complementares (4)
- 2011 Flora of China Editorial Committee. Justicia adhatoda Linnaeus. In: Flora of China. Vol. 19 (Acanthaceae). Beijing: Science Press; St. Louis: Missouri Botanical Garden Press; 2011. p. 450, 456-457. Disponível em: efloras.org.
- 2026 GBIF Secretariat. GBIF Backbone Taxonomy: Justicia adhatoda L. (Acanthaceae), com Adhatoda vasica Nees como sinônimo. Acesso em: 9 out. 2026. Disponível em: gbif.org.
- 2012 European Medicines Agency, Committee on Herbal Medicinal Products. Public statement on Adhatoda vasica Nees, folium. EMA/HMPC/681468/2012. Londres: EMA; 2013. Disponível em: ema.europa.eu.
- 2026 Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado: Asma. Sou Paciente. Brasília: Ministério da Saúde. Acesso em: 9 out. 2026. Disponível em: linhasdecuidado.saude.gov.br.





