Aromaterapia

Helicriso (Helichrysum italicum): Óleo Essencial, Estudos e Cuidados

O helicriso tem um óleo essencial caro, famoso na aromaterapia por cicatrizes e hematomas. Veja o que os estudos mostram de fato, como diluir o óleo na pele com segurança e quem deve evitar a planta.

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Touceira de helicriso (Helichrysum italicum) de folhagem prateada e pequenos capítulos amarelos, em vegetação costeira

O helicriso (Helichrysum italicum) é um subarbusto aromático do Mediterrâneo, da família Asteraceae, de folhas prateadas e flores amarelas que conservam a cor depois de secas. Das sumidades floridas se extrai um óleo essencial caro, com fama de cicatrizante e de redutor de hematomas que se apoia sobretudo em laboratório, em animais e em poucos trabalhos preliminares com pessoas.

Uma revisão portuguesa de 2014 concluiu que a maior parte dos usos tradicionais da planta ainda não tem comprovação científica e que faltam ensaios clínicos (Antunes Viegas e colegas, 2014). Os poucos estudos em humanos publicados depois disso são pequenos e usaram quase sempre o chá ou extratos, e não o óleo essencial.

A seguir, como não confundir o helicriso com plantas de nome parecido no Brasil, o que os estudos encontraram, como usar o óleo na pele com segurança e quem deve evitá-lo.

Sumário do Artigo
  1. Identificação Botânica e Nomes
  2. Composição do Óleo de Helicriso
  3. O Que Dizem os Estudos
  4. Usos Tradicionais
  5. Como Usar o Óleo de Helicriso com Segurança
  6. Contraindicações e Cuidados
  7. Perguntas Frequentes

Identificação Botânica e Nomes

O nome científico aceito é Helichrysum italicum (Roth) G.Don, da família Asteraceae (GBIF). O nome do gênero junta as palavras gregas para sol e ouro, numa referência às inflorescências amarelas (Furlan e Bren, 2023). A planta forma touceiras baixas de folhas estreitas, cobertas por uma penugem prateada, e abre pequenos capítulos amarelos reunidos no alto dos ramos. Cresce em terrenos secos, arenosos e pedregosos da região mediterrânea (Nostro e colegas, 2001).

A divisão em subespécies mudou com o tempo. A lista mais citada reúne as subespécies italicum, microphyllum, picardii, pseudolitoreum, serotinum e siculum, e uma revisão posterior reduziu o grupo a italicum, microphyllum, siculum e tyrrhenicum (Furlan e Bren, 2023). Por isso, estudos e rótulos nem sempre falam da mesma planta.

Touceira de helicriso (Helichrysum italicum) de folhagem prateada e pequenos capítulos amarelos, em vegetação costeira
Foto: Stefan.lefnaer, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Nomes Populares e Confusões Comuns

No mercado de perfumaria e cosmética, a planta aparece muitas vezes como immortelle, nome francês ligado às flores que não murcham depois de colhidas. Em Portugal ela é chamada também de planta-do-caril, porque as folhas têm cheiro forte e persistente parecido com o do caril, como os portugueses chamam o curry (Furlan e Bren, 2023).

Dois nomes pedem cuidado por aqui. Sempre-viva, no Brasil, designa plantas da família Eriocaulaceae dos campos rupestres, como a sempre-viva-pé-de-ouro, e também a flor-de-palha de jardim (Xerochrysum bracteatum), uma Asteraceae australiana de flores grandes e coloridas que já se chamou Helichrysum bracteatum e ainda aparece com esse nome em sementes e fotos, mas não é o helicriso medicinal. O nome perpétua costuma indicar a Gomphrena globosa, de flores em forma de bola, geralmente roxas, da família Amaranthaceae, sem parentesco próximo com o helicriso. A confusão mais provável, porém, é com a macela (Achyrocline satureioides), também uma Asteraceae de flores amareladas e da mesma tribo, Gnaphalieae, mas outra espécie, nativa da América do Sul.

Composição do Óleo de Helicriso

O óleo é obtido pela destilação das sumidades floridas, e o rendimento é baixo: uma tonelada de material florido produz só cerca de 0,9 a 1,5 quilo de óleo. Essa escassez explica o preço, de 30 a 120 euros por frasco de 5 mililitros (Furlan e Bren, 2023).

A composição muda com a origem. Os óleos da Córsega se destacam pelo acetato de nerila, que pode passar de 55% do total, enquanto amostras da Toscana chegam a mais de 50% de alfa-pineno e óleos da Croácia combinam alfa-pineno e alfa-curcumeno. Dentro da própria subespécie italicum foram descritos três quimiotipos, ricos em gama-curcumeno, em nerol e seus ésteres ou em selinenos (Furlan e Bren, 2023). Na prática, dois frascos vendidos com o mesmo nome podem ter perfis químicos bem diferentes.

Os extratos da planta, preparados com solventes, têm outra composição, com acetofenonas, flavonoides e floroglucinóis, grupos ligados à maior parte das atividades observadas em laboratório (Antunes Viegas e colegas, 2014).

O Que Dizem os Estudos

A pesquisa com helicriso é extensa em laboratório e escassa em pessoas, e os ensaios humanos, pequenos e com preparações diferentes entre si, não servem de base para indicar o óleo no tratamento de nenhuma doença.

Estudos em Humanos

O trabalho mais citado sobre pele é francês, de 2007, com pacientes de cirurgia plástica reparadora ou estética. Segundo a revisão que o resume, a aplicação por dois a três meses do óleo da subespécie serotinum, diluído a 10% em óleo de rosa-mosqueta, reduziu equimoses (manchas roxas), hematomas, inchaço e inflamação nas cicatrizes operatórias (Voinchet e Giraud-Robert, 2007; Furlan e Bren, 2023). É um trabalho preliminar, publicado numa revista francesa de fitoterapia, sem grupo de comparação mencionado na revisão, e a concentração de 10% é de cinco a dez vezes a de 1% a 2% indicada para uso caseiro.

Num estudo sérvio de 2023, tecidos impregnados com extrato de helicriso foram aplicados em voluntários sobre pele irritada de propósito para o teste, sem causar irritação nem vermelhidão, e o tecido de polipropileno preparado com etanol protegeu a pele mais que as outras amostras (Maksimovic e colegas, 2023). O ensaio avaliou extrato, e não óleo essencial, e não testou feridas nem cicatrizes.

O outro ensaio em pessoas testou o chá. Na Eslovênia, 30 adultos com traços de síndrome metabólica foram sorteados para tomar todos os dias, por quatro semanas, a infusão de um sachê com 1 grama de helicriso seco ou de Helichrysum arenarium, espécie aparentada. Na publicação que analisou 27 deles, o grupo do helicriso perdeu peso e gordura corporal (Kenig e colegas, 2022), e uma segunda publicação do mesmo ensaio registrou queda de marcadores inflamatórios no sangue de quem tomou helicriso (Petelin e colegas, 2022). O estudo comparou uma planta com a outra, sem grupo placebo, e os resultados, ainda iniciais, não autorizam apresentar o chá como recurso para emagrecer.

Estudos em Animais e In Vitro

Em camundongos, extratos das partes aéreas reduziram edemas e inflamações provocados em laboratório, e os autores atribuíram o efeito à ação antioxidante, à inibição de enzimas inflamatórias e a um mecanismo semelhante ao dos corticoides (Sala e colegas, 2002). Em cultura, um extrato de helicriso inibiu o crescimento de cepas de Staphylococcus aureus, incluindo cepas resistentes à meticilina, e reduziu enzimas ligadas à virulência da bactéria (Nostro e colegas, 2001). O arzanol, um floroglucinol isolado da subespécie microphyllum, inibiu a via inflamatória NF-kappaB e a replicação do HIV-1 em células (Appendino e colegas, 2007). São resultados de laboratório e de animais, que não mostram efeito do helicriso contra HIV, infecções ou inflamações em pessoas.

A fama cicatrizante tem apoio sobretudo em animais. Em ratos diabéticos com incisões profundas na pele, fechadas com pontos, gel e pomada com 0,5% de óleo essencial de helicriso aceleraram o fechamento das lesões e elevaram a hidroxiprolina, um marcador de colágeno, no tecido (Andjić e colegas, 2021). São dados de animais, que não indicam que o óleo sirva para tratar feridas em pessoas.

Usos Tradicionais

Bósnia e Herzegovina, Espanha, Itália e Portugal concentram a maior parte dos registros de uso popular. Flores e folhas aparecem em preparos para alergias, infecções, inflamações, insônia, problemas de pele, do fígado e da vesícula, resfriados e tosse, mas a maioria desses usos ainda não foi confirmada por estudos científicos (Antunes Viegas e colegas, 2014). O óleo essencial aparece em relatos de aromaterapia para feridas, hematomas e queimaduras de sol (Furlan e Bren, 2023).

A Fama de Super-Arnica

Em lojas e blogs, o helicriso é chamado de super-arnica e apresentado como mais eficaz que a arnica contra hematomas. Não localizamos estudo que compare as duas plantas em pessoas, e a evidência humana sobre hematomas se resume ao trabalho francês descrito acima. Quem já reagiu à arnica, uma das Asteraceae que mais sensibilizam a pele (Paulsen, 2002), tem motivo a mais para evitar o helicriso.

Detalhe das flores amarelas do helicriso, em capítulos pequenos e arredondados, ao lado de folhas finas cobertas de penugem prateada

Como Usar o Óleo de Helicriso com Segurança

O óleo essencial de helicriso é de uso externo: é um produto muito concentrado e não tem dose oral segura estabelecida. Não pingue o óleo na boca, em água ou em alimentos nem o use em cápsulas, mesmo que o rótulo fale em grau alimentício.

Na pele, a orientação é diluir em óleo vegetal, como o de amêndoas ou o de semente de uva, numa proporção de 1% a 2%, ou seja, 2 a 4 gotas de óleo essencial em 10 mililitros de óleo vegetal. Antes do primeiro uso, faça um teste de contato: aplique um pouco da mistura já diluída na parte interna do antebraço e observe o local por 48 horas. Ardor, bolhas, coceira ou vermelhidão indicam que o produto não deve ser usado, e reações alérgicas e irritação são descritas com óleos essenciais em geral, sobretudo quando ficam muito tempo em contato com a pele (NCI, 2023).

Use a mistura apenas em pele íntegra, sem cortes. Ferida aberta, lesão com sinais de infecção ou queimadura com bolhas precisa de avaliação de um profissional de saúde antes de receber qualquer óleo. Calor, dor crescente, pus ou vermelhidão que se espalha são sinais de infecção.

Adulteração e Escolha do Óleo

Preço alto e produção pequena formam o cenário típico de fraude. Em óleos essenciais, as adulterações mais comuns são o acréscimo de compostos sintéticos, a diluição em óleo vegetal e a mistura com óleos mais baratos, e boa parte delas só aparece em análise de laboratório (Capetti e colegas, 2021). Um frasco muito mais barato que a média do mercado merece desconfiança.

Na compra, procure no rótulo ou na ficha técnica do fornecedor:

  • laudo de cromatografia gasosa do lote, que mostra os componentes principais
  • nome científico completo, com a subespécie quando informada
  • número de lote e prazo de validade
  • país de origem da planta
  • parte destilada, que deve ser a sumidade florida

Contraindicações e Cuidados

Alergia a Asteraceae

Quem tem alergia conhecida a plantas da família Asteraceae, como arnica, calêndula, camomila ou crisântemo, não deve usar o helicriso em nenhuma forma, seja chá, creme, extrato ou óleo. A família é uma causa importante de dermatite de contato alérgica na Europa, e pelo menos 15 espécies, entre elas a calêndula usada no óleo de calêndula, já foram associadas a sensibilização por remédios à base de plantas e cosméticos (Paulsen, 2002). Há também o relato de uma mulher de 69 anos que desenvolveu dermatite alérgica por causa de um creme emoliente com extrato de helicriso (Foti e colegas, 2013; Furlan e Bren, 2023).

Gestação, Amamentação e Crianças

Não localizamos estudos de segurança do óleo de helicriso em gestantes, lactantes ou crianças. Por precaução, esses grupos devem evitar o óleo essencial, inclusive em difusores perto de bebês, e o frasco deve ficar fora do alcance das crianças.

Medicamentos e Hematomas Frequentes

Um dos flavonoides da planta inibiu, em laboratório, enzimas do grupo CYP, que participam do metabolismo de vários medicamentos (Antunes Viegas e colegas, 2014), e por isso quem pensa em tomar o chá e usa remédios de uso contínuo deve conversar antes com o médico ou o farmacêutico.

Manchas roxas que surgem sem pancada, aparecem com frequência ou vêm com sangramento na gengiva ou no nariz pedem consulta médica, porque podem indicar alteração da coagulação ou efeito de medicamentos. O mesmo vale para quem usa anticoagulante e tem um hematoma grande, que cresce ou dói muito.

Perguntas Frequentes

Helicriso É o Mesmo que Sempre-Viva?

Não. No Brasil, sempre-viva designa Eriocaulaceae dos campos rupestres e também a flor-de-palha de jardim (Xerochrysum bracteatum), antes chamada Helichrysum bracteatum. O helicriso é outra espécie, uma Asteraceae mediterrânea conhecida também como immortelle (Furlan e Bren, 2023) e, em Portugal, como planta-do-caril.

Helicriso e Macela São a Mesma Planta?

São espécies diferentes. As duas são Asteraceae da mesma tribo e têm flores amareladas, mas a macela é Achyrocline satureioides, nativa da América do Sul, e os estudos de uma não valem para a outra.

O Óleo de Helicriso Pode Ser Ingerido?

Não deve. O óleo essencial é de uso externo e sempre diluído, sem dose oral segura estabelecida, e os estudos com ingestão usaram o chá da planta seca (Kenig e colegas, 2022).

O Helicriso Ajuda a Clarear Hematomas e Cicatrizes?

Em pessoas, há apenas um trabalho francês preliminar com cicatrizes de cirurgia plástica (Voinchet e Giraud-Robert, 2007), e o efeito cicatrizante foi visto sobretudo em ratos (Andjić e colegas, 2021). O óleo não substitui a avaliação médica de hematomas frequentes, feridas abertas ou lesões infectadas.

Por Que o Óleo de Helicriso É Tão Caro?

Porque a destilação rende pouco, só cerca de 0,9 a 1,5 quilo de óleo por tonelada de flores, e o preço chega a 120 euros por 5 mililitros (Furlan e Bren, 2023). Esse valor favorece a adulteração, e o laudo de cromatografia do lote ajuda a conferir o produto, embora não revele todo tipo de fraude, como a diluição em óleo vegetal (Capetti e colegas, 2021).

Referências

15 Referências Citadas

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Baseado em 15 Referências Citadas (13 Peer-Reviewed, 1 Institucional, 1 Complementar).

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Estudos Científicos Peer-Reviewed (13)

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  2. PMC2023 Furlan V, Bren U. Helichrysum italicum: from extraction, distillation, and encapsulation techniques to beneficial health effects. Foods. 2023;12(4):802. doi:10.3390/foods12040802. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov.
  3. DOI2001 Nostro A, Bisignano G, Cannatelli MA, Crisafi G, Germanò MP, Alonzo V. Effects of Helichrysum italicum extract on growth and enzymatic activity of Staphylococcus aureus. International Journal of Antimicrobial Agents. 2001;17(6):517-520. doi:10.1016/s0924-8579(01)00336-3. Disponível em: doi.org.
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  7. PMC2022 Petelin A, Šik Novak K, Hladnik M, Bandelj D, Baruca Arbeiter A, Kramberger K, Kenig S, Jenko Pražnikar Z. Helichrysum italicum (Roth) G. Don and Helichrysum arenarium (L.) Moench infusion consumption affects the inflammatory status and the composition of human gut microbiota in patients with traits of metabolic syndrome: a randomized comparative study. Foods. 2022;11(20):3277. doi:10.3390/foods11203277. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov.
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  12. PMC2021 Capetti F, Marengo A, Cagliero C, Liberto E, Bicchi C, Rubiolo P, Sgorbini B. Adulteration of essential oils: a multitask issue for quality control. Three case studies: Lavandula angustifolia Mill., Citrus limon (L.) Osbeck and Melaleuca alternifolia (Maiden & Betche) Cheel. Molecules. 2021;26(18):5610. doi:10.3390/molecules26185610. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov.
  13. DOI2013 Foti C, Guida S, Antelmi A, Romita P, Corazza M. Allergic contact dermatitis caused by Helichrysum italicum contained in an emollient cream. Contact Dermatitis. 2013;69(1):62-63. doi:10.1111/cod.12049. Disponível em: doi.org.

Fontes Institucionais (1)

  1. GOV2023 PDQ Integrative, Alternative, and Complementary Therapies Editorial Board. Aromatherapy and essential oils (PDQ): patient version. Bethesda: National Cancer Institute (NCI); atualizado em 11 set. 2023. Disponível em: cancer.gov.

Leituras Complementares (1)

  1. GBIF Secretariat. GBIF Backbone Taxonomy: Helichrysum italicum (Roth) G.Don (Asteraceae). Disponível em: gbif.org.

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