O lírio-do-brejo é uma erva de rizoma grosso e flores brancas muito perfumadas da família Zingiberaceae, a mesma da cúrcuma e do gengibre. Seu nome científico é Hedychium coronarium J.Koenig, e a área nativa da espécie vai do subcontinente indiano a Taiwan (POWO). Cultivada no Brasil como ornamental, ela já tem registros de herbário em todos os estados do país e se espalha sozinha por brejos, margens de rios e valas, o que lhe valeu a classificação de exótica invasora (Pupin e Mendes, 2022).
Na Ásia, o rizoma aparece em registros de medicina tradicional para dor de cabeça, febre e inflamação, e os laboratórios já isolaram dele dezenas de compostos. Nada disso foi testado em pessoas: não localizamos um único ensaio clínico com a planta, e por isso não existe dose estabelecida nem dado de segurança para gestantes e lactantes.
A seguir, como reconhecer a planta sem confundi-la com outros lírios, por que ela preocupa quem cuida de matas e rios, o que o laboratório encontrou e quais cuidados valem para quem já a tem em casa.
Sumário do Artigo
Identificação Botânica e Nomes
O nome aceito é Hedychium coronarium J.Koenig, da família Zingiberaceae, publicado em 1783 (Maas-van de Kamer e Maas, 2003). O POWO, base de nomes botânicos mantida pelo Jardim Botânico de Kew, registra como área nativa Assam, o centro-sul e o sudeste da China, o Himalaia oriental, a Índia, Mianmar, o Nepal, a Tailândia, Taiwan e o Vietnã (POWO). O nome do gênero vem do grego e junta doce, pelo perfume, e neve, pela cor das flores, e o epíteto coronarium, do latim, remete a coroas e guirlandas.
A Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo descreve plantas de 1,2 a 1,5 metro, com folhas estreitas de 20 a 50 centímetros, verde-brilhantes por cima e com pelos claros por baixo. No alto do caule, entre brácteas verdes e duras sobrepostas como escamas, saem flores brancas de tubo longo e labelo largo, dividido em dois lobos. No estado, a espécie foi coletada florida ao longo de todo o ano, em bordas de mata e locais alagados (Maas-van de Kamer e Maas, 2003). No Brasil, a planta é chamada de borboleta-branca, gengibre-branco e lírio-do-brejo, este último por causa do solo encharcado onde costuma crescer.

Plantas Que Podem Ser Confundidas
Apesar do nome, o lírio-do-brejo não é um lírio verdadeiro. Os lírios do gênero Lilium pertencem a outra família, Liliaceae, e o lírio-da-paz, do gênero Spathiphyllum, é uma Araceae de vaso, com uma espata branca envolvendo a inflorescência. A planta também não tem parentesco próximo com outras espécies chamadas de lírio que já apareceram aqui no site, como Convallaria majalis, conhecida pela toxicidade cardíaca, Iris versicolor, uma Iridaceae de áreas úmidas cujo rizoma também tem uso tradicional, e Nymphaea alba, planta aquática de folhas flutuantes.
O nome gengibre-branco pede o mesmo cuidado. O lírio-do-brejo é da família do gengibre de cozinha, Zingiber officinale, mas é outra espécie, com rizoma de composição diferente, e não deve ser usado no lugar dele.
Uma Exótica Invasora no Brasil
Fora da Ásia, a mesma vitalidade que torna o lírio-do-brejo fácil de cultivar vira um problema ambiental. A planta se espalha principalmente pelo rizoma, forma touceiras densas que tomam o lugar da vegetação nativa e pode obstruir pequenos córregos e canais (Pupin e Mendes, 2022). Uma revisão de 2026 sobre plantas aquáticas não nativas da região neotropical reuniu evidências de que ela disputa recursos no solo com as raízes de mudas de árvores nativas da mata ciliar, freando o crescimento delas, e elimina o habitat do bicudinho-do-brejo (Formicivora acutirostris), uma ave de brejos. A mesma revisão descreve compostos da planta tóxicos para algas, outras plantas aquáticas e pequenos invertebrados (Thomaz e Padial, 2026).
No sul do Brasil, um levantamento em 148 trechos de margem de rio encontrou o lírio-do-brejo com mais frequência onde a mata ciliar estava degradada ou substituída por árvores exóticas, perto de cidades e nos trechos mais baixos da bacia. Para os autores, a maior presença nos trechos mais baixos pode se explicar, em parte, pela correnteza, que leva pedaços de rizoma rio abaixo (Bellini e Becker, 2021).

Cuidados com o Cultivo e o Descarte
Por esse histórico, o lírio-do-brejo não deve ser plantado perto de brejos, lagos, nascentes ou rios, nem em áreas de preservação. Em Santa Catarina, a espécie está na Categoria 1 da lista oficial de exóticas invasoras, que proíbe cultivo, doação, posse, propagação, transporte e venda (IMA, 2025), e em outros estados vale consultar o órgão ambiental antes de manter, multiplicar ou doar mudas. Onde não há proibição, quem já tem a planta pode mantê-la em vaso, longe de cursos d’água e valas, e nunca deve jogar pedaços de rizoma ou restos de poda em córregos, matas ou terrenos baldios. Os rizomas resistem cerca de 30 dias ao ressecamento e a planta rebrota com vigor, de modo que a retirada manual só funciona quando leva o rizoma inteiro (Thomaz e Padial, 2026). Para jardins úmidos, a escolha mais segura é uma espécie nativa da região.
Composição Química
A maior parte da química conhecida do lírio-do-brejo vem do rizoma. Uma revisão de 2015 contou 53 diterpenos do tipo labdano isolados dessa parte da planta, entre eles a coronarina D, e observou que folhas e flores receberam muito menos atenção dos pesquisadores (Chan e Wong, 2015).
No óleo essencial, o componente dominante é o 1,8-cineol, o mesmo composto que dá o cheiro característico ao eucalipto. Num estudo feito na Índia, ele respondeu por 41% do óleo do rizoma fresco e 37% do óleo do rizoma seco, seguido pelo β-pineno e pelo α-terpineol (Joy e colegas, 2007). Em seis amostras do Pará, os óleos de rizoma e de folha variaram entre si, e os compostos majoritários incluíram o (E)-cariofileno, o 1,8-cineol, o α-pineno e o β-pineno. A toxicidade dessas substâncias foi estimada só por simulação em computador (Cruz e colegas, 2023).
O Que Dizem os Estudos
Estudos em Humanos
Numa busca no PubMed em outubro de 2026, não localizamos nenhum ensaio clínico nem estudo observacional com o lírio-do-brejo em pessoas, e as revisões sobre o gênero Hedychium reúnem apenas trabalhos em animais e em células (Tavares e colegas, 2020). Qualquer promessa de efeito analgésico, anti-inflamatório ou contra o câncer feita para chá, óleo ou pó da planta está extrapolando resultados de laboratório.
Estudos em Animais e In Vitro
Em roedores, extratos do rizoma na dose de 400 mg por quilo de peso reduziram em até 32% o inchaço da pata provocado por carragenina e em até 41% as contorções induzidas por ácido acético, um teste de dor (Shrotriya e colegas, 2007). Em neutrófilos humanos isolados do sangue e testados em laboratório, compostos isolados do rizoma inibiram a liberação de elastase e a produção de superóxido, dois sinais da resposta inflamatória dessas células (Chen e colegas, 2013).
O óleo essencial do rizoma inibiu em laboratório Candida albicans e um fungo do gênero Trichoderma com mais força do que as bactérias Bacillus subtilis e Pseudomonas aeruginosa, e a amostra fresca foi mais ativa do que a seca (Joy e colegas, 2007). Uma revisão lista ainda atividades analgésica, antibacteriana, antifúngica, anti-inflamatória, antioxidante e citotóxica para extratos e compostos da planta, todas descritas em animais ou em células (Chan e Wong, 2015).
Parte da fama da coronarina D vem de um estudo de 2008 que descreveu, em linhagens de células, o bloqueio da via inflamatória NF-κB por esse diterpeno. O artigo foi retratado pela própria revista em 2018 e não deve ser usado como evidência (Kunnumakkara e colegas, 2008). No conjunto, são achados em animais e in vitro, com doses e concentrações que não equivalem a um chá caseiro, e nenhum deles autoriza indicar a planta para tratar doença.
Usos Tradicionais e Culturais
Os registros reunidos numa revisão de 2020 citam o rizoma na China e no Vietnã para diabetes, doenças de pele, dor de cabeça, inflamação e reumatismo, e a planta na Índia como carminativo e tônico e para diabetes, dor de cabeça e febre. Na Tailândia aparecem amigdalite e dores e rigidez nas articulações, e no Brasil há registro da infusão das folhas como anti-inflamatório e sedativo, para dor de cabeça e febre (Tavares e colegas, 2020). São usos populares, sem dose padronizada e sem confirmação em estudos clínicos.
O mesmo levantamento menciona o rizoma na dieta de algumas populações do Sudeste Asiático, consumido como condimento ou hortaliça (Tavares e colegas, 2020). Esse costume culinário não define uma dose medicinal e não serve como garantia de segurança para chás concentrados ou para uso prolongado.
Fora da medicina, a flor ganhou peso simbólico em Cuba, onde é chamada de mariposa e foi escolhida como flor nacional em 1936. Segundo a enciclopédia cubana EcuRed, durante as guerras de independência mulheres escondiam mensagens clandestinas entre os ramos floridos (EcuRed). No Havaí, as flores são usadas em guirlandas (Cruz e colegas, 2023).
Contraindicações, Cuidados e Interações
Sem nenhum estudo em pessoas, não há como definir para quem a planta é segura nem em que quantidade. Os cuidados abaixo partem dessa ausência de dados.
Rizoma sem Dose Estabelecida
O rizoma só tem registros de uso tradicional na Ásia (Tavares e colegas, 2020), sem posologia firme, e não localizamos ensaios de segurança em pessoas nem informações sobre interações com medicamentos. Por isso, não indicamos cápsula, chá, pó ou tintura do lírio-do-brejo, e quem usa remédios de uso contínuo ou tem doença crônica deve conversar com o médico antes de usar qualquer preparo. O óleo essencial, concentrado e rico em 1,8-cineol, não foi avaliado em pessoas e não deve ser ingerido.
Crianças, Gestação e Lactação
Não localizamos dados de segurança do lírio-do-brejo na amamentação, na gravidez ou na infância, nem em pessoas nem em estudos de reprodução com animais. Diante dessa falta de informação, crianças, gestantes e lactantes devem evitar qualquer preparo da planta.
Animais de Estimação
A ASPCA, entidade americana de proteção animal, lista Hedychium coronarium como não tóxico para cães, cavalos e gatos (ASPCA). O risco está na confusão de nomes: nos gatos, beber a água do vaso, lamber o pólen do pelo ou mordiscar uma folha de lírio-de-um-dia (Hemerocallis) ou de lírio verdadeiro (Lilium) pode causar insuficiência renal em 24 a 72 horas, fatal se o gato não for tratado a tempo (FDA, 2021). Quem tem gato deve confirmar a espécie de qualquer arranjo de lírios e, se houver ingestão, procurar o veterinário na hora.
Perguntas Frequentes
Lírio-do-Brejo Tem Efeito Comprovado em Pessoas?
Não. Os efeitos analgésico, anti-inflamatório e antimicrobiano foram observados apenas em células, em culturas de microrganismos e em roedores (Joy e colegas, 2007; Shrotriya e colegas, 2007), e não localizamos nenhum ensaio clínico com a planta.
Existe Dose Segura do Chá do Rizoma?
Não existe dose estabelecida. O rizoma tem apenas registros de uso tradicional na Ásia (Tavares e colegas, 2020), sem estudos de segurança em pessoas, e a planta não substitui tratamento médico.
Posso Plantar Lírio-do-Brejo Perto de Nascente ou Rio?
Não. A espécie é exótica invasora no Brasil, avança mais em margens degradadas e pode se espalhar rio abaixo por pedaços de rizoma levados pela água (Bellini e Becker, 2021). Em Santa Catarina, cultivar ou manter a planta é proibido (IMA, 2025). Prefira espécies nativas e nunca descarte restos da planta em cursos d’água ou matas.
Lírio-do-Brejo É Tóxico para Gatos?
A ASPCA lista Hedychium coronarium como não tóxico para cães e gatos (ASPCA). Os lírios-de-um-dia (Hemerocallis) e os lírios verdadeiros (Lilium), porém, podem causar insuficiência renal grave em gatos (FDA, 2021), por isso confirme a espécie antes de levar um arranjo para casa.
Lírio-do-Brejo e Gengibre São a Mesma Planta?
Não. As duas são da família Zingiberaceae, mas o gengibre de cozinha é Zingiber officinale e o lírio-do-brejo é Hedychium coronarium, cujo óleo essencial do rizoma é dominado pelo 1,8-cineol (Joy e colegas, 2007). Os rizomas não são intercambiáveis, e o do lírio-do-brejo não deve ser usado no lugar do gengibre.
Gestantes Podem Usar Lírio-do-Brejo?
Devem evitar. Não localizamos dados de segurança na amamentação nem na gestação, e essa falta de estudos basta como motivo para não usar nenhum preparo da planta nessas fases.
Referências
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Estudos Científicos Peer-Reviewed (9)
- DOI2022 Pupin GB, Mendes ZR. Impact of Hedychium coronarium J. König (Zingiberaceae) on the assembly of spiders in the Parque Estadual das Fontes do Ipiranga, São Paulo State, Brazil. Hoehnea. 2022;49:e73/2020. doi:10.1590/2236-8906-73/2020. Disponível em: doi.org.
- DOI2021 Bellini G, Becker FG. Riparian degradation, stream position in watershed, and proximity to towns facilitate invasion by Hedychium coronarium. Aquatic Invasions. 2021;16(1):11-27. doi:10.3391/ai.2021.16.1.02. Disponível em: doi.org.
- PMC2015 Chan EWC, Wong SK. Phytochemistry and pharmacology of ornamental gingers, Hedychium coronarium and Alpinia purpurata: a review. Journal of Integrative Medicine. 2015;13(6):368-379. doi:10.1016/S2095-4964(15)60208-4. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov.
- PMC2007 Joy B, Rajan A, Abraham E. Antimicrobial activity and chemical composition of essential oil from Hedychium coronarium. Phytotherapy Research. 2007;21(5):439-443. doi:10.1002/ptr.2091. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov.
- PMC2023 Cruz JN, de Oliveira MS, Cascaes M, Mali SN, Tambe S, dos Santos CBR, et al. Variation in the chemical composition of endemic specimens of Hedychium coronarium J. Koenig from the Amazon and in silico investigation of the ADME/Tox properties of the major compounds. Plants. 2023;12(14):2626. doi:10.3390/plants12142626. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov.
- PMC2020 Tavares WR, Barreto MC, Seca AML. Uncharted source of medicinal products: the case of the Hedychium genus. Medicines. 2020;7(5):23. doi:10.3390/medicines7050023. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov.
- PMC2007 Shrotriya S, Ali MS, Saha A, Bachar SC, Islam MS. Anti-inflammatory and analgesic effects of Hedychium coronarium Koen. Pakistan Journal of Pharmaceutical Sciences. 2007;20(1):47-51. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov.
- PMC2013 Chen JJ, Ting CW, Wu YC, Hwang TL, Cheng MJ, Sung PJ, et al. New labdane-type diterpenoids and anti-inflammatory constituents from Hedychium coronarium. International Journal of Molecular Sciences. 2013;14(7):13063-13077. doi:10.3390/ijms140713063. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov.
- PMC2008 Kunnumakkara AB, Ichikawa H, Anand P, Mohankumar CJ, Hema PS, Nair MS, Aggarwal BB. Coronarin D, a labdane diterpene, inhibits both constitutive and inducible nuclear factor-kappa B pathway activation, leading to potentiation of apoptosis, inhibition of invasion, and suppression of osteoclastogenesis. Molecular Cancer Therapeutics. 2008;7(10):3306-3317. doi:10.1158/1535-7163.MCT-08-0432. Artigo retratado em 2018: Molecular Cancer Therapeutics. 2018;17(9):2074. doi:10.1158/1535-7163.MCT-18-0871. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov.
Fontes Institucionais (1)
- GOV2021 U.S. Food and Drug Administration (FDA). Lovely lilies and curious cats: a dangerous combination. 2021. Disponível em: fda.gov.
Leituras Complementares (6)
- POWO. Plants of the World Online: Hedychium coronarium J.Koenig. Royal Botanic Gardens, Kew. Disponível em: powo.science.kew.org.
- 2003 Maas-van de Kamer H, Maas PJM. Zingiberaceae. In: Wanderley MGL, Shepherd GJ, Melhem TS, Giulietti AM, Kirizawa M, editores. Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo. Vol. 3. São Paulo: Instituto de Botânica; 2003. p. 349-351. Disponível em: infraestruturameioambiente.sp.gov.br.
- 2026 Thomaz SM, Padial AA. Neotropical invaders: a review of the most impactful non-native aquatic macrophytes. Acta Limnologica Brasiliensia. 2026;38:e20. doi:10.1590/S2179-975X8425. Disponível em: scielo.br.
- 2025 Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA). O que fazer com as espécies exóticas invasoras em Santa Catarina? Guia prático de manejo. 2025. Com base na Resolução CONSEMA nº 271, de 30 de maio de 2025, que reconhece a Lista Oficial de Espécies da Flora Exóticas Invasoras no Estado de Santa Catarina. Disponível em: ima.sc.gov.br.
- EcuRed. Flor nacional de Cuba. Disponível em: ecured.cu.
- ASPCA. Butterfly Ginger (Hedychium coronarium). Animal Poison Control Center: toxic and non-toxic plants. Disponível em: aspca.org.





