A Melilotus officinalis é uma planta herbácea bienal da família Fabaceae, conhecida popularmente como trevo-doce, trevo-amarelo, coroa-de-rei ou meliloto. Nativa da Eurásia, a espécie distingue-se pelo aroma adocicado de cumarina que exala das partes aéreas secas, pelas inflorescências amarelas em racemos alongados e pela importância histórica como planta melífera, forrageira e medicinal. É uma das maiores fontes naturais de cumarina no reino vegetal. Esta página é um perfil botânico aprofundado da espécie, focado em taxonomia formal, identificação morfológica, técnicas de cultivo, espécies relacionadas do gênero Melilotus, perfil fitoquímico e distribuição geográfica.
Para informações sobre os benefícios medicinais do trevo-amarelo, preparo de infusões, dosagens recomendadas e contraindicações, consulte o post pilar sobre trevo-amarelo (guia completo).
Sumário do Artigo
- Taxonomia Formal da Melilotus officinalis
- Identificação Botânica Detalhada
- Outras Espécies do Gênero Melilotus
- Cultivo Técnico Detalhado
- Geografia e Distribuição
- Perfil Fitoquímico
- Pragas e Doenças Comuns
- Conservação e Status Ambiental
- História Botânica e Cultural
- Identificação Visual: Como Distinguir de Plantas Confundíveis
- Saiba Tudo Sobre o Trevo-Amarelo na Fitoterapia
Taxonomia Formal da Melilotus officinalis
A Melilotus officinalis pertence à família Fabaceae (Leguminosae), a terceira maior família de angiospermas com cerca de 770 gêneros e 19.500 espécies. A classificação completa segue abaixo:
- Reino: Plantae
- Divisão: Magnoliophyta (angiospermas)
- Classe: Magnoliopsida (dicotiledôneas)
- Ordem: Fabales
- Família: Fabaceae
- Subfamília: Papilionoideae (Faboideae)
- Tribo: Trifolieae
- Gênero: Melilotus (com aproximadamente 20 espécies aceitas)
- Espécie: Melilotus officinalis (L.) Lam., 1779
O nome genérico Melilotus vem do grego meli (mel) e lotos (planta), referência à qualidade melífera excepcional da espécie. O epíteto officinalis indica uso em oficinas farmacêuticas. A espécie foi originalmente descrita por Linnaeus como Trifolium melilotus officinalis em 1753 e transferida para Melilotus por Lamarck em 1779.
Sinônimos Taxonômicos Históricos
- Melilotus arvensis Wallr.
- Melilotus graveolens Bunge
- Melilotus officinalis var. micranthus O.E.Schulz
- Sertula officinalis (L.) Kuntze
- Trifolium melilotus officinalis L. (basiônimo)
Identificação Botânica Detalhada
Hábito de Crescimento
Planta herbácea bienal (ocasionalmente anual ou perene de vida curta), ereta, ramificada, atingindo 60 a 150 centímetros de altura (excepcionalmente até 200 centímetros). No primeiro ano, forma uma roseta basal de folhas e raiz pivotante; no segundo ano, produz caules eretos, floração, frutificação e morre. Os caules são estriados longitudinalmente, glabros a esparsamente pilosos, verdes a avermelhados na base. Toda a planta exala aroma adocicado, especialmente quando murchando ou secando.
Folhas
As folhas são alternas, compostas trifoliadas (3 folíolos), características da tribo Trifolieae:
- Comprimento Total: 3 a 8 centímetros (incluindo pecíolo)
- Cor: verde-média, glabra ou esparsamente pilosa
- Disposição: alternas ao longo do caule
- Estípulas: lineares a subuladas, inteiras, 5 a 8 milímetros
- Folíolos: 3, oblongo-obovados a elípticos, 1,5 a 3 centímetros de comprimento, com ápice truncado a arredondado
- Margem dos Folíolos: serrilhada regularmente em toda a extensão
- Pecíolo: 1 a 3 centímetros, com folíolo terminal peciolulado
Flores
As flores são papilionáceas (formato de borboleta), pequenas, amarelas, dispostas em racemos axilares longos:
- Cálice: campanulado, com 5 dentes desiguais
- Comprimento: 5 a 7 milímetros
- Comprimento do Racemo: 4 a 10 centímetros, com 30 a 70 flores
- Cor: amarelo-vivo
- Disposição: racemos axilares unilaterais, pendentes ou eretos
- Estames: 10 (9 unidos em tubo + 1 livre), padrão diadélfico das Papilionoideae
- Floração: junho a setembro no hemisfério norte
- Forma: papilionácea com estandarte, asas e quilha
- Polinização: entomófila, especialmente abelhas (Apis mellifera, Bombus spp.). Planta melífera de primeira qualidade
Frutos e Sementes
- Comprimento: 3 a 5 milímetros
- Cor: marrom-escura a preta quando madura
- Forma: vagem (legume) ovoide, reticulada, indeiscente ou tardiamente deiscente
- Maturação: agosto a outubro
- Sementes: 1 a 2 por vagem, ovoides, lisas, amarelas a marrons, com 2 a 3 milímetros
Sistema Radicular
Raiz pivotante profunda, atingindo 100 a 200 centímetros de profundidade em solos permeáveis. Como leguminosa, possui nódulos radiculares com bactérias fixadoras de nitrogênio (Rhizobium meliloti), o que permite colonizar solos pobres e contribuir para a fertilidade do solo. A profundidade radicular confere excelente tolerância à seca.
Outras Espécies do Gênero Melilotus
O gênero Melilotus possui cerca de 20 espécies, todas nativas da Eurásia e norte da África:
- Melilotus albus Medik.: trevo-branco ou meliloto-branco, espécie muito similar com flores brancas. Mesma distribuição e usos que M. officinalis. Frequentemente crescem juntas
- Melilotus altissimus Thuill.: meliloto-alto da Europa ocidental, com flores amarelas mais escuras
- Melilotus dentatus (Waldst. & Kit.) Pers.: meliloto-dentado da Europa central e oriental
- Melilotus elegans Salzm. ex Ser.: espécie mediterrânea anual
- Melilotus indicus (L.) All.: meliloto-indiano, espécie anual de flores amarelas pequenas, amplamente naturalizada nos trópicos
- Melilotus italicus (L.) Lam.: meliloto-italiano, anual de flores amarelas
- Melilotus messanensis (L.) All.: espécie anual do Mediterrâneo
- Melilotus sulcatus Desf.: meliloto-sulcado do Mediterrâneo, com vagens estriadas
Cultivo Técnico Detalhado
Requisitos Edafoclimáticos
- Altitude: do nível do mar até 2.000 metros
- Luminosidade: sol pleno. Intolerante a sombreamento prolongado
- Pluviosidade: 300 a 1.000 milímetros anuais. Extremamente tolerante à seca graças à raiz pivotante profunda
- Solo: ampla tolerância. Prefere solos calcários, argilosos a franco-argilosos, pH 6,0 a 8,5. Tolera solos salinos e alcalinos. Intolerante a solos ácidos (pH inferior a 5,5) e encharcados
- Temperatura Ideal: 12ºC a 25ºC. Resistente a geadas severas (até -25ºC com raiz dormente)
Propagação
- Sementes (método exclusivo): semeadura direta na primavera ou outono. Sementes possuem tegumento duro: escarificação mecânica ou tratamento com água quente (80ºC por 10 segundos) melhora a germinação de 20% para 80% a 90%. Densidade de semeadura: 10 a 15 quilos por hectare. Inoculação com Rhizobium meliloti recomendada em solos sem histórico de leguminosas
Manejo da Lavoura
- Adubação: desnecessária na maioria dos solos (fixação biológica de nitrogênio). Fósforo e potássio podem ser necessários em solos muito pobres
- Colheita Forrageira: cortar a 10 a 15 centímetros do solo antes da floração plena. Cuidado com secagem excessiva: a fermentação de feno mal curado converte cumarina em dicumarol (anticoagulante tóxico para ruminantes)
- Colheita Medicinal: partes aéreas com flores (herba meliloti) colhidas durante a floração. Secar à sombra rapidamente
- Controle de Invasão: cortar antes da maturação das sementes para evitar disseminação
Uso como Adubo Verde
A espécie é amplamente utilizada como adubo verde e cobertura de solo: fixa 100 a 200 quilos de nitrogênio por hectare ao ano, melhora a estrutura do solo com a raiz pivotante profunda (subsolagem biológica) e produz biomassa abundante para incorporação.
Geografia e Distribuição
Distribuição Nativa
- Ásia: Turquia, Irã, Ásia central até a China ocidental, Sibéria
- Europa: toda a Europa, da Península Ibérica aos Urais, da Escandinávia ao Mediterrâneo
Distribuição como Planta Introduzida
- América do Norte: amplamente naturalizada nos Estados Unidos e Canadá (introduzida como forrageira e melífera no século XIX)
- América do Sul: naturalizada no sul do Brasil, Argentina, Chile, Uruguai
- Austrália e Nova Zelândia: naturalizada
Habitat
Terrenos baldios, margens de estradas e ferrovias, campos agrícolas abandonados, pastagens degradadas, encostas calcárias, dunas fixas, aterros e áreas perturbadas. Espécie pioneira e colonizadora de solos pobres e degradados.
Perfil Fitoquímico
A Melilotus officinalis é especialmente rica em cumarinas e flavonoides.
Cumarinas
- Cumarina (1,2-benzopirona): composto majoritário (0,4% a 1% da matéria seca), responsável pelo aroma adocicado. Presente como glicosídeo na planta fresca, liberada por hidrólise enzimática durante secagem ou fermentação
- Dicumarol (bishydroxycoumarin): formado pela fermentação fúngica da cumarina em feno mal conservado. Anticoagulante potente, inspirou o desenvolvimento da varfarina como raticida e anticoagulante farmacêutico
- Melilotosídeo: glicosídeo precursor da cumarina
- Umbeliferona: 7-hidroxicumarina
Flavonoides
- Kaempferol e derivados glicosilados
- Quercetina e derivados glicosilados
- Rutina: quercetina-3-O-rutinosídeo
Saponinas
- Melilotigenina: sapogenina triterpênica
- Saponinas oleanólicas: em concentração moderada nas partes aéreas
Outros Compostos
- Ácidos fenólicos: ácido cafeico, ácido clorogênico
- Óleos essenciais: em traços
- Vitamina C: nas folhas frescas
Pragas e Doenças Comuns
Pragas
- Gorgulho-do-Meliloto (Sitona spp.): coleópteros que consomem folíolos e nódulos radiculares
- Pulgões (Aphis spp.): colonizam inflorescências e brotos jovens
- Tripes: causam prateamento dos folíolos
Doenças
- Cercospora davisii: manchas foliares circulares castanhas
- Erysiphe trifolii (Oídio): revestimento pulverulento branco nas folhas
- Sclerotinia trifoliorum: podridão branca da coroa radicular, especialmente em condições úmidas
Conservação e Status Ambiental
A Melilotus officinalis não está classificada como ameaçada. É uma espécie cosmopolita abundante em áreas perturbadas:
- Espécie Invasora: considerada invasora em pastagens nativas da América do Norte, onde compete com flora nativa em pradarias
- Espécie Melífera: valorizada por apicultores como fonte de néctar de alta qualidade. O mel de meliloto é apreciado por seu sabor delicado
- Revegetação: utilizada em programas de recuperação de áreas mineradas, aterros sanitários e encostas degradadas, pela capacidade de fixar nitrogênio e colonizar solos pobres
História Botânica e Cultural
O meliloto é uma das plantas medicinais mais antigas da tradição europeia. Dioscórides e Plínio documentaram seu uso em cataplasmas para inflamações e inchaços. Na Idade Média, era ingrediente de preparações contra tumores, edemas e hematomas. O emplastro de meliloto (emplastrum meliloti) foi preparação farmacêutica oficial nas farmacopeias europeias até o século XIX.
A descoberta do dicumarol a partir de feno de meliloto mal conservado revolucionou a medicina cardiovascular. Em 1921, veterinários canadenses e norte-americanos identificaram uma doença hemorrágica fatal em bovinos alimentados com feno de trevo-doce deteriorado. Em 1940, Karl Paul Link e colaboradores na Universidade de Wisconsin isolaram o agente causador: o dicumarol, formado pela fermentação fúngica da cumarina. Esta descoberta levou ao desenvolvimento da varfarina (1948), que se tornou o anticoagulante oral mais prescrito do mundo e, inicialmente, o raticida mais eficaz.
Linnaeus incluiu a espécie em Trifolium na Species Plantarum de 1753. Lamarck separou o gênero Melilotus em 1779, baseando-se na morfologia da vagem e da inflorescência.
Na cultura popular brasileira, o meliloto é pouco conhecido, sendo encontrado ocasionalmente como planta espontânea no Sul do país. Sua principal importância no Brasil é apícola, sendo valorizado por apicultores do Rio Grande do Sul e Paraná.
Identificação Visual: Como Distinguir de Plantas Confundíveis
- Melilotus officinalis versus Melilotus albus (trevo-branco): a diferença mais óbvia é a cor das flores: amarela em M. officinalis, branca em M. albus. Ambas têm porte, folhagem e aroma similares. M. albus tende a ser ligeiramente mais alto
- Melilotus officinalis versus Medicago sativa (alfafa): alfafa tem flores púrpuras a violáceas em racemos curtos e compactos, folíolos com margem serrilhada apenas no terço apical, e vagens espiraladas. Melilotus tem flores amarelas em racemos longos e vagens ovoides
- Melilotus officinalis versus Trifolium pratense (trevo-vermelho): Trifolium tem inflorescências capituliformes (globosas), flores rosadas a vermelhas, e folíolos frequentemente com marca em “V” esbranquiçada. Melilotus tem racemos alongados e flores amarelas
- Melilotus officinalis versus Lotus corniculatus (cornichão): Lotus tem flores amarelas em umbelas (não racemos), folhas com 5 folíolos (não 3) e porte rasteiro a ascendente
Saiba Tudo Sobre o Trevo-Amarelo na Fitoterapia
Para conhecer os benefícios medicinais do trevo-amarelo, as formas de preparo de infusões e compressas, dosagens recomendadas para insuficiência venosa e edema, contraindicações (uso de anticoagulantes, hepatopatias), interações medicamentosas e estudos científicos de eficácia, acesse o post pilar: Trevo-Amarelo: Guia Completo de Benefícios, Preparo e Usos.
Referências e Estudos Científicos
Estudos Científicos Peer-Reviewed (3)
- DOI2002 Pleşca-Manea, L., Pârvu, A. E., Pârvu, M., et al. Effects of Melilotus officinalis on acute inflammation. Phytotherapy Research, 16(4), 316-319. 2002. ↗
- DOI1959 Link, K. P. The discovery of dicumarol and its sequels. Circulation, 19(1), 97-107. 1959. ↗
- DOI2010 Nair, R. M., Whittall, A., Hughes, S. J., et al. Variation in coumarin content of Melilotus species grown in South Australia. New Zealand Journal of Agricultural Research, 53(3), 201-213. 2010. ↗
Leituras Complementares (3)
- 2007 European Medicines Agency. Assessment report on Melilotus officinalis (L.) Lam., herba. EMA/HMPC/188386/2007. 2009.
- 2019 Stace, C. A. New Flora of the British Isles. Cambridge University Press. 4th ed. 2019.
- 2005 Lewis, G., Schrire, B., Mackinder, B., Lock, M. (Eds.). Legumes of the World. Royal Botanic Gardens, Kew. 2005.

