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Melilotus officinalis (Trevo-Doce): Perfil Botânico Completo

Por Conselho Editorial10 Min de Leitura
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A Melilotus officinalis é uma planta herbácea bienal da família Fabaceae, conhecida popularmente como trevo-doce, trevo-amarelo, coroa-de-rei ou meliloto. Nativa da Eurásia, a espécie distingue-se pelo aroma adocicado de cumarina que exala das partes aéreas secas, pelas inflorescências amarelas em racemos alongados e pela importância histórica como planta melífera, forrageira e medicinal. É uma das maiores fontes naturais de cumarina no reino vegetal. Esta página é um perfil botânico aprofundado da espécie, focado em taxonomia formal, identificação morfológica, técnicas de cultivo, espécies relacionadas do gênero Melilotus, perfil fitoquímico e distribuição geográfica.

Para informações sobre os benefícios medicinais do trevo-amarelo, preparo de infusões, dosagens recomendadas e contraindicações, consulte o post pilar sobre trevo-amarelo (guia completo).

Sumário do Artigo
  1. Taxonomia Formal da Melilotus officinalis
  2. Identificação Botânica Detalhada
  3. Outras Espécies do Gênero Melilotus
  4. Cultivo Técnico Detalhado
  5. Geografia e Distribuição
  6. Perfil Fitoquímico
  7. Pragas e Doenças Comuns
  8. Conservação e Status Ambiental
  9. História Botânica e Cultural
  10. Identificação Visual: Como Distinguir de Plantas Confundíveis
  11. Saiba Tudo Sobre o Trevo-Amarelo na Fitoterapia

Taxonomia Formal da Melilotus officinalis

A Melilotus officinalis pertence à família Fabaceae (Leguminosae), a terceira maior família de angiospermas com cerca de 770 gêneros e 19.500 espécies. A classificação completa segue abaixo:

  • Reino: Plantae
  • Divisão: Magnoliophyta (angiospermas)
  • Classe: Magnoliopsida (dicotiledôneas)
  • Ordem: Fabales
  • Família: Fabaceae
  • Subfamília: Papilionoideae (Faboideae)
  • Tribo: Trifolieae
  • Gênero: Melilotus (com aproximadamente 20 espécies aceitas)
  • Espécie: Melilotus officinalis (L.) Lam., 1779

O nome genérico Melilotus vem do grego meli (mel) e lotos (planta), referência à qualidade melífera excepcional da espécie. O epíteto officinalis indica uso em oficinas farmacêuticas. A espécie foi originalmente descrita por Linnaeus como Trifolium melilotus officinalis em 1753 e transferida para Melilotus por Lamarck em 1779.

Sinônimos Taxonômicos Históricos

  • Melilotus arvensis Wallr.
  • Melilotus graveolens Bunge
  • Melilotus officinalis var. micranthus O.E.Schulz
  • Sertula officinalis (L.) Kuntze
  • Trifolium melilotus officinalis L. (basiônimo)

Identificação Botânica Detalhada

Hábito de Crescimento

Planta herbácea bienal (ocasionalmente anual ou perene de vida curta), ereta, ramificada, atingindo 60 a 150 centímetros de altura (excepcionalmente até 200 centímetros). No primeiro ano, forma uma roseta basal de folhas e raiz pivotante; no segundo ano, produz caules eretos, floração, frutificação e morre. Os caules são estriados longitudinalmente, glabros a esparsamente pilosos, verdes a avermelhados na base. Toda a planta exala aroma adocicado, especialmente quando murchando ou secando.

Folhas

As folhas são alternas, compostas trifoliadas (3 folíolos), características da tribo Trifolieae:

  • Comprimento Total: 3 a 8 centímetros (incluindo pecíolo)
  • Cor: verde-média, glabra ou esparsamente pilosa
  • Disposição: alternas ao longo do caule
  • Estípulas: lineares a subuladas, inteiras, 5 a 8 milímetros
  • Folíolos: 3, oblongo-obovados a elípticos, 1,5 a 3 centímetros de comprimento, com ápice truncado a arredondado
  • Margem dos Folíolos: serrilhada regularmente em toda a extensão
  • Pecíolo: 1 a 3 centímetros, com folíolo terminal peciolulado

Flores

As flores são papilionáceas (formato de borboleta), pequenas, amarelas, dispostas em racemos axilares longos:

  • Cálice: campanulado, com 5 dentes desiguais
  • Comprimento: 5 a 7 milímetros
  • Comprimento do Racemo: 4 a 10 centímetros, com 30 a 70 flores
  • Cor: amarelo-vivo
  • Disposição: racemos axilares unilaterais, pendentes ou eretos
  • Estames: 10 (9 unidos em tubo + 1 livre), padrão diadélfico das Papilionoideae
  • Floração: junho a setembro no hemisfério norte
  • Forma: papilionácea com estandarte, asas e quilha
  • Polinização: entomófila, especialmente abelhas (Apis mellifera, Bombus spp.). Planta melífera de primeira qualidade

Frutos e Sementes

  • Comprimento: 3 a 5 milímetros
  • Cor: marrom-escura a preta quando madura
  • Forma: vagem (legume) ovoide, reticulada, indeiscente ou tardiamente deiscente
  • Maturação: agosto a outubro
  • Sementes: 1 a 2 por vagem, ovoides, lisas, amarelas a marrons, com 2 a 3 milímetros

Sistema Radicular

Raiz pivotante profunda, atingindo 100 a 200 centímetros de profundidade em solos permeáveis. Como leguminosa, possui nódulos radiculares com bactérias fixadoras de nitrogênio (Rhizobium meliloti), o que permite colonizar solos pobres e contribuir para a fertilidade do solo. A profundidade radicular confere excelente tolerância à seca.

Outras Espécies do Gênero Melilotus

O gênero Melilotus possui cerca de 20 espécies, todas nativas da Eurásia e norte da África:

  • Melilotus albus Medik.: trevo-branco ou meliloto-branco, espécie muito similar com flores brancas. Mesma distribuição e usos que M. officinalis. Frequentemente crescem juntas
  • Melilotus altissimus Thuill.: meliloto-alto da Europa ocidental, com flores amarelas mais escuras
  • Melilotus dentatus (Waldst. & Kit.) Pers.: meliloto-dentado da Europa central e oriental
  • Melilotus elegans Salzm. ex Ser.: espécie mediterrânea anual
  • Melilotus indicus (L.) All.: meliloto-indiano, espécie anual de flores amarelas pequenas, amplamente naturalizada nos trópicos
  • Melilotus italicus (L.) Lam.: meliloto-italiano, anual de flores amarelas
  • Melilotus messanensis (L.) All.: espécie anual do Mediterrâneo
  • Melilotus sulcatus Desf.: meliloto-sulcado do Mediterrâneo, com vagens estriadas

Cultivo Técnico Detalhado

Requisitos Edafoclimáticos

  • Altitude: do nível do mar até 2.000 metros
  • Luminosidade: sol pleno. Intolerante a sombreamento prolongado
  • Pluviosidade: 300 a 1.000 milímetros anuais. Extremamente tolerante à seca graças à raiz pivotante profunda
  • Solo: ampla tolerância. Prefere solos calcários, argilosos a franco-argilosos, pH 6,0 a 8,5. Tolera solos salinos e alcalinos. Intolerante a solos ácidos (pH inferior a 5,5) e encharcados
  • Temperatura Ideal: 12ºC a 25ºC. Resistente a geadas severas (até -25ºC com raiz dormente)

Propagação

  • Sementes (método exclusivo): semeadura direta na primavera ou outono. Sementes possuem tegumento duro: escarificação mecânica ou tratamento com água quente (80ºC por 10 segundos) melhora a germinação de 20% para 80% a 90%. Densidade de semeadura: 10 a 15 quilos por hectare. Inoculação com Rhizobium meliloti recomendada em solos sem histórico de leguminosas

Manejo da Lavoura

  • Adubação: desnecessária na maioria dos solos (fixação biológica de nitrogênio). Fósforo e potássio podem ser necessários em solos muito pobres
  • Colheita Forrageira: cortar a 10 a 15 centímetros do solo antes da floração plena. Cuidado com secagem excessiva: a fermentação de feno mal curado converte cumarina em dicumarol (anticoagulante tóxico para ruminantes)
  • Colheita Medicinal: partes aéreas com flores (herba meliloti) colhidas durante a floração. Secar à sombra rapidamente
  • Controle de Invasão: cortar antes da maturação das sementes para evitar disseminação

Uso como Adubo Verde

A espécie é amplamente utilizada como adubo verde e cobertura de solo: fixa 100 a 200 quilos de nitrogênio por hectare ao ano, melhora a estrutura do solo com a raiz pivotante profunda (subsolagem biológica) e produz biomassa abundante para incorporação.

Geografia e Distribuição

Distribuição Nativa

  • Ásia: Turquia, Irã, Ásia central até a China ocidental, Sibéria
  • Europa: toda a Europa, da Península Ibérica aos Urais, da Escandinávia ao Mediterrâneo

Distribuição como Planta Introduzida

  • América do Norte: amplamente naturalizada nos Estados Unidos e Canadá (introduzida como forrageira e melífera no século XIX)
  • América do Sul: naturalizada no sul do Brasil, Argentina, Chile, Uruguai
  • Austrália e Nova Zelândia: naturalizada

Habitat

Terrenos baldios, margens de estradas e ferrovias, campos agrícolas abandonados, pastagens degradadas, encostas calcárias, dunas fixas, aterros e áreas perturbadas. Espécie pioneira e colonizadora de solos pobres e degradados.

Perfil Fitoquímico

A Melilotus officinalis é especialmente rica em cumarinas e flavonoides.

Cumarinas

  • Cumarina (1,2-benzopirona): composto majoritário (0,4% a 1% da matéria seca), responsável pelo aroma adocicado. Presente como glicosídeo na planta fresca, liberada por hidrólise enzimática durante secagem ou fermentação
  • Dicumarol (bishydroxycoumarin): formado pela fermentação fúngica da cumarina em feno mal conservado. Anticoagulante potente, inspirou o desenvolvimento da varfarina como raticida e anticoagulante farmacêutico
  • Melilotosídeo: glicosídeo precursor da cumarina
  • Umbeliferona: 7-hidroxicumarina

Flavonoides

  • Kaempferol e derivados glicosilados
  • Quercetina e derivados glicosilados
  • Rutina: quercetina-3-O-rutinosídeo

Saponinas

  • Melilotigenina: sapogenina triterpênica
  • Saponinas oleanólicas: em concentração moderada nas partes aéreas

Outros Compostos

  • Ácidos fenólicos: ácido cafeico, ácido clorogênico
  • Óleos essenciais: em traços
  • Vitamina C: nas folhas frescas

Pragas e Doenças Comuns

Pragas

  • Gorgulho-do-Meliloto (Sitona spp.): coleópteros que consomem folíolos e nódulos radiculares
  • Pulgões (Aphis spp.): colonizam inflorescências e brotos jovens
  • Tripes: causam prateamento dos folíolos

Doenças

  • Cercospora davisii: manchas foliares circulares castanhas
  • Erysiphe trifolii (Oídio): revestimento pulverulento branco nas folhas
  • Sclerotinia trifoliorum: podridão branca da coroa radicular, especialmente em condições úmidas

Conservação e Status Ambiental

A Melilotus officinalis não está classificada como ameaçada. É uma espécie cosmopolita abundante em áreas perturbadas:

  • Espécie Invasora: considerada invasora em pastagens nativas da América do Norte, onde compete com flora nativa em pradarias
  • Espécie Melífera: valorizada por apicultores como fonte de néctar de alta qualidade. O mel de meliloto é apreciado por seu sabor delicado
  • Revegetação: utilizada em programas de recuperação de áreas mineradas, aterros sanitários e encostas degradadas, pela capacidade de fixar nitrogênio e colonizar solos pobres

História Botânica e Cultural

O meliloto é uma das plantas medicinais mais antigas da tradição europeia. Dioscórides e Plínio documentaram seu uso em cataplasmas para inflamações e inchaços. Na Idade Média, era ingrediente de preparações contra tumores, edemas e hematomas. O emplastro de meliloto (emplastrum meliloti) foi preparação farmacêutica oficial nas farmacopeias europeias até o século XIX.

A descoberta do dicumarol a partir de feno de meliloto mal conservado revolucionou a medicina cardiovascular. Em 1921, veterinários canadenses e norte-americanos identificaram uma doença hemorrágica fatal em bovinos alimentados com feno de trevo-doce deteriorado. Em 1940, Karl Paul Link e colaboradores na Universidade de Wisconsin isolaram o agente causador: o dicumarol, formado pela fermentação fúngica da cumarina. Esta descoberta levou ao desenvolvimento da varfarina (1948), que se tornou o anticoagulante oral mais prescrito do mundo e, inicialmente, o raticida mais eficaz.

Linnaeus incluiu a espécie em Trifolium na Species Plantarum de 1753. Lamarck separou o gênero Melilotus em 1779, baseando-se na morfologia da vagem e da inflorescência.

Na cultura popular brasileira, o meliloto é pouco conhecido, sendo encontrado ocasionalmente como planta espontânea no Sul do país. Sua principal importância no Brasil é apícola, sendo valorizado por apicultores do Rio Grande do Sul e Paraná.

Identificação Visual: Como Distinguir de Plantas Confundíveis

  • Melilotus officinalis versus Melilotus albus (trevo-branco): a diferença mais óbvia é a cor das flores: amarela em M. officinalis, branca em M. albus. Ambas têm porte, folhagem e aroma similares. M. albus tende a ser ligeiramente mais alto
  • Melilotus officinalis versus Medicago sativa (alfafa): alfafa tem flores púrpuras a violáceas em racemos curtos e compactos, folíolos com margem serrilhada apenas no terço apical, e vagens espiraladas. Melilotus tem flores amarelas em racemos longos e vagens ovoides
  • Melilotus officinalis versus Trifolium pratense (trevo-vermelho): Trifolium tem inflorescências capituliformes (globosas), flores rosadas a vermelhas, e folíolos frequentemente com marca em “V” esbranquiçada. Melilotus tem racemos alongados e flores amarelas
  • Melilotus officinalis versus Lotus corniculatus (cornichão): Lotus tem flores amarelas em umbelas (não racemos), folhas com 5 folíolos (não 3) e porte rasteiro a ascendente

Saiba Tudo Sobre o Trevo-Amarelo na Fitoterapia

Para conhecer os benefícios medicinais do trevo-amarelo, as formas de preparo de infusões e compressas, dosagens recomendadas para insuficiência venosa e edema, contraindicações (uso de anticoagulantes, hepatopatias), interações medicamentosas e estudos científicos de eficácia, acesse o post pilar: Trevo-Amarelo: Guia Completo de Benefícios, Preparo e Usos.

Referências e Estudos Científicos

6 Referências Citadas

Baseado em 6 Referências Citadas (3 Peer-Reviewed, 3 Complementares).

Estudos Científicos Peer-Reviewed (3)

  1. DOI2002 Pleşca-Manea, L., Pârvu, A. E., Pârvu, M., et al. Effects of Melilotus officinalis on acute inflammation. Phytotherapy Research, 16(4), 316-319. 2002.
  2. DOI1959 Link, K. P. The discovery of dicumarol and its sequels. Circulation, 19(1), 97-107. 1959.
  3. DOI2010 Nair, R. M., Whittall, A., Hughes, S. J., et al. Variation in coumarin content of Melilotus species grown in South Australia. New Zealand Journal of Agricultural Research, 53(3), 201-213. 2010.

Leituras Complementares (3)

  1. 2007 European Medicines Agency. Assessment report on Melilotus officinalis (L.) Lam., herba. EMA/HMPC/188386/2007. 2009.
  2. 2019 Stace, C. A. New Flora of the British Isles. Cambridge University Press. 4th ed. 2019.
  3. 2005 Lewis, G., Schrire, B., Mackinder, B., Lock, M. (Eds.). Legumes of the World. Royal Botanic Gardens, Kew. 2005.

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