Perfis Botânicos

Althaea officinalis (Alteia): Perfil Botânico Completo

Por Conselho Editorial12 Min de Leitura
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A Althaea officinalis é uma planta herbácea perene da família Malvaceae, conhecida popularmente como alteia, malvaísco ou marshmallow. Cultivada há mais de 2.000 anos na Europa e Oriente Médio, a espécie é uma das plantas medicinais mais antigas da farmacopeia ocidental e a fonte original do doce marshmallow, que historicamente era feito com extrato mucilaginoso de sua raiz. Esta página é um perfil botânico aprofundado da espécie, focado em taxonomia formal, identificação morfológica, técnicas de cultivo, espécies relacionadas do gênero Althaea, perfil fitoquímico e distribuição geográfica.

Para informações sobre os benefícios medicinais da alteia, preparo de decocções e infusões, dosagens recomendadas, contraindicações e usos terapêuticos tradicionais, consulte o post pilar sobre alteia (guia completo).

Sumário do Artigo
  1. Taxonomia Formal da Althaea officinalis
  2. Identificação Botânica Detalhada
  3. Outras Espécies do Gênero Althaea
  4. Cultivo Técnico Detalhado
  5. Geografia e Distribuição Natural
  6. Perfil Fitoquímico
  7. Pragas e Doenças Comuns
  8. Conservação e Status Ambiental
  9. História Botânica e Cultural
  10. Identificação Visual: Como Distinguir de Plantas Confundíveis
  11. Saiba Tudo Sobre a Alteia na Fitoterapia

Taxonomia Formal da Althaea officinalis

A Althaea officinalis pertence à família Malvaceae, uma grande família cosmopolita com cerca de 244 gêneros e mais de 4.200 espécies, que inclui plantas economicamente importantes como algodão (Gossypium), cacau (Theobroma), hibisco (Hibiscus) e baobá (Adansonia). A classificação completa segue abaixo:

  • Reino: Plantae
  • Divisão: Magnoliophyta (angiospermas)
  • Classe: Magnoliopsida (dicotiledôneas)
  • Ordem: Malvales
  • Família: Malvaceae
  • Subfamília: Malvoideae
  • Tribo: Malveae
  • Gênero: Althaea (com aproximadamente 12 espécies aceitas)
  • Espécie: Althaea officinalis L., 1753

O nome genérico Althaea vem do grego althainein, que significa “curar”, referência direta ao uso medicinal milenar da espécie. O epíteto officinalis indica que a planta era comercializada em oficinas farmacêuticas (boticas).

Sinônimos Taxonômicos Históricos

A espécie foi descrita por Linnaeus em 1753 e é nomenclaturalmente estável. Sinônimos registrados incluem:

  • Althaea kragujevacensis Pancic
  • Althaea officinalis var. pseudoarmeniaca Borbás
  • Althaea sublobata Stokes
  • Althaea taurinensis DC.
  • Malva officinalis (L.) Schimp. & Spenn.

Variedades e Cultivares

  • Althaea officinalis var. micrantha: variante com flores menores, encontrada na Europa oriental
  • Althaea officinalis var. pseudoarmeniaca: variante balcânica com pilosidade mais densa
  • Cultivar ‘Romney Marsh’: selecionado para alta produção de mucilagem na raiz, usado na indústria farmacêutica britânica
  • Cultivar ‘Erfurter’: seleção alemã para cultivo medicinal com teor elevado de polissacarídeos

Identificação Botânica Detalhada

Hábito de Crescimento

Planta herbácea perene, ereta, robusta, atingindo 60 a 150 centímetros de altura (excepcionalmente até 200 centímetros em solos férteis e úmidos). Toda a planta é coberta por pilosidade densa e macia de tricomas estrelados, conferindo aspecto aveludado e acinzentado. Os caules são eretos, pouco ramificados, lenhosos na base e herbáceos nas porções superiores, morrendo no inverno e rebrotando do rizoma na primavera.

Folhas

As folhas são alternas, simples, pecioladas, com estípulas lineares caducas na base do pecíolo:

  • Comprimento: 5 a 15 centímetros
  • Cor: verde-acinzentada em ambas as faces devido à densa pilosidade de tricomas estrelados
  • Disposição: alternas ao longo do caule
  • Forma: ovadas a orbiculares nas folhas basais, com 3 a 5 lobos superficiais. Folhas superiores progressivamente mais estreitas e menos lobuladas
  • Largura: 4 a 12 centímetros
  • Margem: irregularmente crenado-serrilhada
  • Pecíolo: 2 a 6 centímetros, densamente piloso
  • Textura: macia e aveludada ao tato, espessa e carnosa

Flores

As flores são hermafroditas, actinomorfas, dispostas em fascículos axilares na porção superior do caule:

  • Cálice: 5 sépalas unidas na base, com epicálice (calículo) de 6 a 9 bractéolas lineares
  • Cor: branca a rosa-pálido com veios rosados mais escuros
  • Diâmetro: 2,5 a 5 centímetros
  • Estames: numerosos, unidos em tubo estaminal (coluna) ao redor do pistilo, com anteras púrpuras
  • Floração: julho a setembro no hemisfério norte
  • Pétalas: 5, obcordadas (emarginadas no ápice), 1,5 a 2,5 centímetros de comprimento
  • Polinização: entomófila, com abelhas (Apis mellifera) como polinizadores principais

Frutos e Sementes

O fruto é um esquizocarpo discóide, achatado, composto por 15 a 25 mericarpos (carpídios) dispostos em anel:

  • Cor dos Mericarpos: marrom-clara quando maduros
  • Diâmetro do Esquizocarpo: 7 a 10 milímetros
  • Maturação: setembro a outubro no hemisfério norte
  • Sementes: uma por mericarpo, reniforme, 2 a 3 milímetros, marrom-escura

Sistema Radicular

A raiz é a parte mais valorizada farmacologicamente. Trata-se de uma raiz pivotante carnosa, cilíndrica, com 30 a 50 centímetros de comprimento e até 3 centímetros de diâmetro. A casca é marrom-acinzentada externamente e branca internamente, com textura fibrosa e altamente mucilaginosa quando fresca. Raízes secas apresentam superfície rugosa e estriada longitudinalmente. A capacidade de armazenar mucilagem na raiz é a característica mais importante da espécie do ponto de vista econômico e medicinal.

Outras Espécies do Gênero Althaea

O gênero Althaea é relativamente pequeno, com cerca de 12 espécies aceitas, todas restritas à Europa, norte da África e Ásia ocidental:

  • Althaea acaulis Alef.: espécie perene do Mediterrâneo oriental, acaule ou subacaule
  • Althaea armeniaca Ten.: alteia-armênia, do Cáucaso e Turquia oriental, com flores rosadas intensas
  • Althaea cannabina L.: alteia-canabinoide, com folhas profundamente divididas semelhantes a Cannabis. Ocorre no Mediterrâneo e Ásia central
  • Althaea hirsuta L.: alteia-peluda, espécie anual do Mediterrâneo, menor e mais delicada
  • Althaea longiflora Boiss. & Reut.: endêmica da Península Ibérica, flores grandes
  • Althaea ludwigii L.: espécie anual do Mediterrâneo oriental e Ásia central
  • Althaea narbonensis Pourr.: endêmica do sul da França e Catalunha
  • Althaea rosea (L.) Cav.: a malva-rosa (hollyhock), frequentemente reclassificada como Alcea rosea. Amplamente cultivada como ornamental, com flores em diversas cores

Nota: a delimitação entre os gêneros Althaea e Alcea é debatida taxonomicamente. Análises moleculares recentes sugerem que Althaea em sentido amplo é parafilético.

Cultivo Técnico Detalhado

Requisitos Edafoclimáticos

  • Altitude: do nível do mar até 1.500 metros
  • Luminosidade: sol pleno a meia-sombra. Sol pleno favorece a produção de mucilagem na raiz
  • Pluviosidade: 500 a 1.200 milímetros anuais. Tolera períodos de alagamento temporário
  • Solo: argiloso a franco-argiloso, úmido, fértil, pH 6,0 a 8,0. Tolera solos levemente salinos (halófita facultativa). Solos arenosos secos reduzem o teor de mucilagem nas raízes
  • Temperatura Ideal: 12ºC a 25ºC. Planta resistente ao frio, tolerando temperaturas de até -20ºC (raiz dormente no inverno). A dormência invernal é necessária para boa produção no ano seguinte

Propagação

  • Divisão de Touceira: na primavera ou outono, separando porções do rizoma com pelo menos 2 a 3 gemas. Método mais rápido para produção comercial
  • Estaquia de Raiz: segmentos de raiz de 5 a 8 centímetros plantados horizontalmente a 3 centímetros de profundidade. Brotos emergem em 3 a 4 semanas
  • Sementes: semear na primavera em substrato úmido. Germinação em 10 a 21 dias a 18ºC a 22ºC. Estratificação fria (4ºC por 4 semanas) melhora a taxa germinativa. Plantas oriundas de semente atingem porte adulto no segundo ano

Manejo da Lavoura

  • Adubação: composto orgânico incorporado antes do plantio (10 a 15 toneladas por hectare). Adubação de cobertura com nitrogênio (40 a 60 quilos por hectare) na primavera
  • Colheita de Folhas: durante o verão, colher folhas em desenvolvimento para uso medicinal. Secagem à sombra em temperatura inferior a 40ºC
  • Colheita de Raízes: no outono do segundo ou terceiro ano, quando a concentração de mucilagem é máxima. Desenterrar as raízes, lavar, descascar (remoção do córtex externo) e secar em fatias
  • Espaçamento: 50 a 60 centímetros entre plantas, 70 a 80 centímetros entre fileiras
  • Irrigação: regas regulares durante o primeiro ano de estabelecimento. Plantas adultas são relativamente resistentes à seca, mas a qualidade da raiz melhora com irrigação suplementar

Idade Produtiva

As raízes atingem qualidade comercial no segundo a terceiro ano. A planta pode ser mantida produtiva por 5 a 8 anos, colhendo raízes laterais e deixando a raiz principal para regeneração. Em jardins ornamentais, touceiras persistem por 10 a 20 anos.

Geografia e Distribuição Natural

Distribuição Mundial

A Althaea officinalis é nativa da Europa, norte da África e Ásia ocidental, com ampla naturalização em outras regiões temperadas:

  • África: norte da África (Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egito)
  • América do Norte: naturalizada no leste dos Estados Unidos e sudeste do Canadá
  • Ásia: Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão, Cáucaso, Ásia central até o oeste da China
  • Europa: toda a Europa central e meridional, Ilhas Britânicas, Escandinávia meridional, Rússia europeia

Habitat Natural

Ocorre em prados úmidos, margens de rios e lagos, pântanos costeiros salobros, valas de drenagem e terrenos baixos periodicamente inundados. A tolerância à salinidade explica sua frequência em estuários e costas.

Perfil Fitoquímico

A Althaea officinalis é especialmente rica em mucilagens, sendo esta classe de compostos a responsável pela maioria de suas aplicações tradicionais e farmacêuticas.

Mucilagens (5% a 35% da Raiz Seca)

  • Arabinogalactanas: polissacarídeos ramificados com alta capacidade de retenção de água
  • Galacturonorramnanas: polissacarídeos ácidos com atividade anti-inflamatória demonstrada in vitro
  • Glucanas: polissacarídeos lineares
  • Ramnogalacturonanas: pectinas complexas que formam gel viscoso em contato com água

Flavonoides

  • Hiperosídeo: quercetina-3-O-galactosídeo
  • Isoquercitrina: quercetina-3-O-glucosídeo
  • Kaempferol e derivados glicosilados
  • Tiliroside: kaempferol acilado

Outros Compostos

  • Ácidos fenólicos: ácido cafeico, ácido p-cumárico, ácido ferúlico
  • Asparagina: aminoácido livre presente na raiz em concentração significativa
  • Cumarinas: escopoletina e derivados em pequena quantidade
  • Fitosteróis: beta-sitosterol como componente majoritário
  • Taninos: taninos condensados em baixa concentração

Pragas e Doenças Comuns

Pragas

  • Besouro-da-Malva (Podagrica fuscicornis): coleóptero que perfura folhas e pétalas
  • Lagarta-da-Malva (Pyrausta purpuralis): larva que enrola e consome folhas jovens
  • Pulgões (Aphis gossypii): colonizam brotos e folhas jovens, transmitindo viroses

Doenças Fúngicas

  • Cercospora althaeina: manchas foliares circulares marrons
  • Colletotrichum malvarum: antracnose dos caules e folhas
  • Puccinia malvacearum (Ferrugem-da-Malva): a doença mais destrutiva do gênero. Causa pústulas alaranjadas a marrons na face inferior das folhas, podendo desfolhar a planta inteira

Conservação e Status Ambiental

A Althaea officinalis não está classificada como ameaçada globalmente. A espécie é amplamente cultivada e ocorre naturalmente em habitats perturbados que são relativamente comuns. No entanto, populações nativas em pântanos costeiros e prados úmidos são vulneráveis à:

  • Drenagem de Áreas Úmidas: a conversão de pântanos em terrenos agrícolas é a maior ameaça histórica
  • Eutrofização: enriquecimento de nutrientes favorece espécies competidoras mais agressivas
  • Salinização Excessiva: embora tolerante à salinidade moderada, intrusão salina severa elimina populações
  • Urbanização Costeira: destruição de habitats estuarinos onde a espécie é frequente

História Botânica e Cultural

A alteia é mencionada em textos médicos há mais de 2.000 anos. Hipócrates (século V a.C.) prescrevia a raiz para tratar feridas. Dioscórides descreveu a planta detalhadamente em De Materia Medica, e Plínio, o Velho, documentou seu uso alimentar em Roma, onde as folhas jovens eram consumidas como hortaliça.

O nome popular “marshmallow” em inglês origina-se diretamente da espécie: a confeitaria marshmallow foi inventada no Egito antigo e aperfeiçoada pelos confeiteiros franceses do século XIX, que batiam o extrato mucilaginoso da raiz com açúcar e clara de ovo para produzir o doce esponjoso. O marshmallow industrial moderno substituiu o extrato vegetal por gelatina, mas algumas marcas artesanais resgataram a receita original.

Na farmacopeia medieval, a raiz de alteia era ingrediente essencial do unguentum althaeae, empomada para tratar queimaduras e inflamações de pele. A planta figura em todas as farmacopeias europeias tradicionais e permanece monografada na Farmacopeia Europeia atual (PhEur).

No século XIX, a alteia foi introduzida na América do Norte e rapidamente naturalizada em áreas úmidas do nordeste dos Estados Unidos, onde comunidades de imigrantes europeus mantiveram o uso medicinal tradicional.

Identificação Visual: Como Distinguir de Plantas Confundíveis

A Althaea officinalis pode ser confundida com outras Malvaceae de flores rosadas ou brancas. Diferenças-chave:

  • Althaea officinalis versus Alcea rosea (malva-rosa): Alcea rosea é muito mais alta (até 250 centímetros), com flores maiores (8 a 12 centímetros) em cores variadas (vermelha, amarela, roxa). A. officinalis tem flores menores (2,5 a 5 centímetros), sempre brancas a rosa-pálido, e porte menor
  • Althaea officinalis versus Malva sylvestris (malva-silvestre): M. sylvestris tem flores roxo-rosadas com veios escuros proeminentes, pétalas emarginadas profundamente, e pilosidade menos densa. A. officinalis tem pilosidade aveludada cinzenta característica em toda a planta
  • Althaea officinalis versus Lavatera thuringiaca: Lavatera tem flores maiores, folhas com lobos mais profundos e pilosidade menos densa. O epicálice de Lavatera tem 3 bractéolas (versus 6 a 9 em Althaea)

Saiba Tudo Sobre a Alteia na Fitoterapia

Para conhecer os benefícios medicinais da alteia, as formas de preparo de decocções e macerações a frio, dosagens indicadas para irritações de garganta, tosse e problemas gastrointestinais, contraindicações, interações medicamentosas e estudos científicos sobre eficácia, acesse o post pilar: Alteia: Guia Completo de Benefícios, Preparo e Usos.

Referências e Estudos Científicos

7 Referências Citadas

Baseado em 7 Referências Citadas (4 Peer-Reviewed, 3 Complementares).

Estudos Científicos Peer-Reviewed (4)

  1. DOI2010 Bonaterra, G. A., Heinrich, E. U., Kelber, O., et al. Anti-inflammatory effects of the willow bark extract STW 33-I (Proaktiv) in LPS-activated human monocytes and differentiated macrophages. Phytomedicine, 17(14), 1106-1113. 2010.
  2. DOI2004 Elmastas, M., Ozturk, L., Gokce, I., et al. Determination of antioxidant activity of marshmallow flower (Althaea officinalis L.). Analytical Letters, 37(9), 1859-1869. 2004.
  3. DOI2011 Hage-Sleiman, R., Mroueh, M., Daher, C. F. Pharmacological evaluation of aqueous extract of Althaea officinalis flower grown in Lebanon. Pharmaceutical Biology, 49(3), 327-333. 2011.
  4. DOI2010 Deters, A., Zippel, J., Hellenbrand, N., et al. Aqueous extracts and polysaccharides from Marshmallow roots: Cellular internalisation and stimulation of cell physiology. Journal of Ethnopharmacology, 127(1), 62-69. 2010.

Leituras Complementares (3)

  1. 2013 Al-Snafi, A. E. The pharmaceutical importance of Althaea officinalis and Althaea rosea: A review. International Journal of PharmTech Research, 5(3), 1378-1385. 2013.
  2. 2008 European Medicines Agency. Assessment report on Althaea officinalis L., radix. EMA/HMPC/98717/2008. 2016.
  3. 2011 Shah, S. M. A., Akhtar, N., Akram, M., et al. Pharmacological activity of Althaea officinalis L. Journal of Medicinal Plants Research, 5(24), 5662-5666. 2011.

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