A Althaea officinalis é uma planta herbácea perene da família Malvaceae, conhecida popularmente como alteia, malvaísco ou marshmallow. Cultivada há mais de 2.000 anos na Europa e Oriente Médio, a espécie é uma das plantas medicinais mais antigas da farmacopeia ocidental e a fonte original do doce marshmallow, que historicamente era feito com extrato mucilaginoso de sua raiz. Esta página é um perfil botânico aprofundado da espécie, focado em taxonomia formal, identificação morfológica, técnicas de cultivo, espécies relacionadas do gênero Althaea, perfil fitoquímico e distribuição geográfica.
Para informações sobre os benefícios medicinais da alteia, preparo de decocções e infusões, dosagens recomendadas, contraindicações e usos terapêuticos tradicionais, consulte o post pilar sobre alteia (guia completo).
Sumário do Artigo
- Taxonomia Formal da Althaea officinalis
- Identificação Botânica Detalhada
- Outras Espécies do Gênero Althaea
- Cultivo Técnico Detalhado
- Geografia e Distribuição Natural
- Perfil Fitoquímico
- Pragas e Doenças Comuns
- Conservação e Status Ambiental
- História Botânica e Cultural
- Identificação Visual: Como Distinguir de Plantas Confundíveis
- Saiba Tudo Sobre a Alteia na Fitoterapia
Taxonomia Formal da Althaea officinalis
A Althaea officinalis pertence à família Malvaceae, uma grande família cosmopolita com cerca de 244 gêneros e mais de 4.200 espécies, que inclui plantas economicamente importantes como algodão (Gossypium), cacau (Theobroma), hibisco (Hibiscus) e baobá (Adansonia). A classificação completa segue abaixo:
- Reino: Plantae
- Divisão: Magnoliophyta (angiospermas)
- Classe: Magnoliopsida (dicotiledôneas)
- Ordem: Malvales
- Família: Malvaceae
- Subfamília: Malvoideae
- Tribo: Malveae
- Gênero: Althaea (com aproximadamente 12 espécies aceitas)
- Espécie: Althaea officinalis L., 1753
O nome genérico Althaea vem do grego althainein, que significa “curar”, referência direta ao uso medicinal milenar da espécie. O epíteto officinalis indica que a planta era comercializada em oficinas farmacêuticas (boticas).
Sinônimos Taxonômicos Históricos
A espécie foi descrita por Linnaeus em 1753 e é nomenclaturalmente estável. Sinônimos registrados incluem:
- Althaea kragujevacensis Pancic
- Althaea officinalis var. pseudoarmeniaca Borbás
- Althaea sublobata Stokes
- Althaea taurinensis DC.
- Malva officinalis (L.) Schimp. & Spenn.
Variedades e Cultivares
- Althaea officinalis var. micrantha: variante com flores menores, encontrada na Europa oriental
- Althaea officinalis var. pseudoarmeniaca: variante balcânica com pilosidade mais densa
- Cultivar ‘Romney Marsh’: selecionado para alta produção de mucilagem na raiz, usado na indústria farmacêutica britânica
- Cultivar ‘Erfurter’: seleção alemã para cultivo medicinal com teor elevado de polissacarídeos
Identificação Botânica Detalhada
Hábito de Crescimento
Planta herbácea perene, ereta, robusta, atingindo 60 a 150 centímetros de altura (excepcionalmente até 200 centímetros em solos férteis e úmidos). Toda a planta é coberta por pilosidade densa e macia de tricomas estrelados, conferindo aspecto aveludado e acinzentado. Os caules são eretos, pouco ramificados, lenhosos na base e herbáceos nas porções superiores, morrendo no inverno e rebrotando do rizoma na primavera.
Folhas
As folhas são alternas, simples, pecioladas, com estípulas lineares caducas na base do pecíolo:
- Comprimento: 5 a 15 centímetros
- Cor: verde-acinzentada em ambas as faces devido à densa pilosidade de tricomas estrelados
- Disposição: alternas ao longo do caule
- Forma: ovadas a orbiculares nas folhas basais, com 3 a 5 lobos superficiais. Folhas superiores progressivamente mais estreitas e menos lobuladas
- Largura: 4 a 12 centímetros
- Margem: irregularmente crenado-serrilhada
- Pecíolo: 2 a 6 centímetros, densamente piloso
- Textura: macia e aveludada ao tato, espessa e carnosa
Flores
As flores são hermafroditas, actinomorfas, dispostas em fascículos axilares na porção superior do caule:
- Cálice: 5 sépalas unidas na base, com epicálice (calículo) de 6 a 9 bractéolas lineares
- Cor: branca a rosa-pálido com veios rosados mais escuros
- Diâmetro: 2,5 a 5 centímetros
- Estames: numerosos, unidos em tubo estaminal (coluna) ao redor do pistilo, com anteras púrpuras
- Floração: julho a setembro no hemisfério norte
- Pétalas: 5, obcordadas (emarginadas no ápice), 1,5 a 2,5 centímetros de comprimento
- Polinização: entomófila, com abelhas (Apis mellifera) como polinizadores principais
Frutos e Sementes
O fruto é um esquizocarpo discóide, achatado, composto por 15 a 25 mericarpos (carpídios) dispostos em anel:
- Cor dos Mericarpos: marrom-clara quando maduros
- Diâmetro do Esquizocarpo: 7 a 10 milímetros
- Maturação: setembro a outubro no hemisfério norte
- Sementes: uma por mericarpo, reniforme, 2 a 3 milímetros, marrom-escura
Sistema Radicular
A raiz é a parte mais valorizada farmacologicamente. Trata-se de uma raiz pivotante carnosa, cilíndrica, com 30 a 50 centímetros de comprimento e até 3 centímetros de diâmetro. A casca é marrom-acinzentada externamente e branca internamente, com textura fibrosa e altamente mucilaginosa quando fresca. Raízes secas apresentam superfície rugosa e estriada longitudinalmente. A capacidade de armazenar mucilagem na raiz é a característica mais importante da espécie do ponto de vista econômico e medicinal.
Outras Espécies do Gênero Althaea
O gênero Althaea é relativamente pequeno, com cerca de 12 espécies aceitas, todas restritas à Europa, norte da África e Ásia ocidental:
- Althaea acaulis Alef.: espécie perene do Mediterrâneo oriental, acaule ou subacaule
- Althaea armeniaca Ten.: alteia-armênia, do Cáucaso e Turquia oriental, com flores rosadas intensas
- Althaea cannabina L.: alteia-canabinoide, com folhas profundamente divididas semelhantes a Cannabis. Ocorre no Mediterrâneo e Ásia central
- Althaea hirsuta L.: alteia-peluda, espécie anual do Mediterrâneo, menor e mais delicada
- Althaea longiflora Boiss. & Reut.: endêmica da Península Ibérica, flores grandes
- Althaea ludwigii L.: espécie anual do Mediterrâneo oriental e Ásia central
- Althaea narbonensis Pourr.: endêmica do sul da França e Catalunha
- Althaea rosea (L.) Cav.: a malva-rosa (hollyhock), frequentemente reclassificada como Alcea rosea. Amplamente cultivada como ornamental, com flores em diversas cores
Nota: a delimitação entre os gêneros Althaea e Alcea é debatida taxonomicamente. Análises moleculares recentes sugerem que Althaea em sentido amplo é parafilético.
Cultivo Técnico Detalhado
Requisitos Edafoclimáticos
- Altitude: do nível do mar até 1.500 metros
- Luminosidade: sol pleno a meia-sombra. Sol pleno favorece a produção de mucilagem na raiz
- Pluviosidade: 500 a 1.200 milímetros anuais. Tolera períodos de alagamento temporário
- Solo: argiloso a franco-argiloso, úmido, fértil, pH 6,0 a 8,0. Tolera solos levemente salinos (halófita facultativa). Solos arenosos secos reduzem o teor de mucilagem nas raízes
- Temperatura Ideal: 12ºC a 25ºC. Planta resistente ao frio, tolerando temperaturas de até -20ºC (raiz dormente no inverno). A dormência invernal é necessária para boa produção no ano seguinte
Propagação
- Divisão de Touceira: na primavera ou outono, separando porções do rizoma com pelo menos 2 a 3 gemas. Método mais rápido para produção comercial
- Estaquia de Raiz: segmentos de raiz de 5 a 8 centímetros plantados horizontalmente a 3 centímetros de profundidade. Brotos emergem em 3 a 4 semanas
- Sementes: semear na primavera em substrato úmido. Germinação em 10 a 21 dias a 18ºC a 22ºC. Estratificação fria (4ºC por 4 semanas) melhora a taxa germinativa. Plantas oriundas de semente atingem porte adulto no segundo ano
Manejo da Lavoura
- Adubação: composto orgânico incorporado antes do plantio (10 a 15 toneladas por hectare). Adubação de cobertura com nitrogênio (40 a 60 quilos por hectare) na primavera
- Colheita de Folhas: durante o verão, colher folhas em desenvolvimento para uso medicinal. Secagem à sombra em temperatura inferior a 40ºC
- Colheita de Raízes: no outono do segundo ou terceiro ano, quando a concentração de mucilagem é máxima. Desenterrar as raízes, lavar, descascar (remoção do córtex externo) e secar em fatias
- Espaçamento: 50 a 60 centímetros entre plantas, 70 a 80 centímetros entre fileiras
- Irrigação: regas regulares durante o primeiro ano de estabelecimento. Plantas adultas são relativamente resistentes à seca, mas a qualidade da raiz melhora com irrigação suplementar
Idade Produtiva
As raízes atingem qualidade comercial no segundo a terceiro ano. A planta pode ser mantida produtiva por 5 a 8 anos, colhendo raízes laterais e deixando a raiz principal para regeneração. Em jardins ornamentais, touceiras persistem por 10 a 20 anos.
Geografia e Distribuição Natural
Distribuição Mundial
A Althaea officinalis é nativa da Europa, norte da África e Ásia ocidental, com ampla naturalização em outras regiões temperadas:
- África: norte da África (Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egito)
- América do Norte: naturalizada no leste dos Estados Unidos e sudeste do Canadá
- Ásia: Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão, Cáucaso, Ásia central até o oeste da China
- Europa: toda a Europa central e meridional, Ilhas Britânicas, Escandinávia meridional, Rússia europeia
Habitat Natural
Ocorre em prados úmidos, margens de rios e lagos, pântanos costeiros salobros, valas de drenagem e terrenos baixos periodicamente inundados. A tolerância à salinidade explica sua frequência em estuários e costas.
Perfil Fitoquímico
A Althaea officinalis é especialmente rica em mucilagens, sendo esta classe de compostos a responsável pela maioria de suas aplicações tradicionais e farmacêuticas.
Mucilagens (5% a 35% da Raiz Seca)
- Arabinogalactanas: polissacarídeos ramificados com alta capacidade de retenção de água
- Galacturonorramnanas: polissacarídeos ácidos com atividade anti-inflamatória demonstrada in vitro
- Glucanas: polissacarídeos lineares
- Ramnogalacturonanas: pectinas complexas que formam gel viscoso em contato com água
Flavonoides
- Hiperosídeo: quercetina-3-O-galactosídeo
- Isoquercitrina: quercetina-3-O-glucosídeo
- Kaempferol e derivados glicosilados
- Tiliroside: kaempferol acilado
Outros Compostos
- Ácidos fenólicos: ácido cafeico, ácido p-cumárico, ácido ferúlico
- Asparagina: aminoácido livre presente na raiz em concentração significativa
- Cumarinas: escopoletina e derivados em pequena quantidade
- Fitosteróis: beta-sitosterol como componente majoritário
- Taninos: taninos condensados em baixa concentração
Pragas e Doenças Comuns
Pragas
- Besouro-da-Malva (Podagrica fuscicornis): coleóptero que perfura folhas e pétalas
- Lagarta-da-Malva (Pyrausta purpuralis): larva que enrola e consome folhas jovens
- Pulgões (Aphis gossypii): colonizam brotos e folhas jovens, transmitindo viroses
Doenças Fúngicas
- Cercospora althaeina: manchas foliares circulares marrons
- Colletotrichum malvarum: antracnose dos caules e folhas
- Puccinia malvacearum (Ferrugem-da-Malva): a doença mais destrutiva do gênero. Causa pústulas alaranjadas a marrons na face inferior das folhas, podendo desfolhar a planta inteira
Conservação e Status Ambiental
A Althaea officinalis não está classificada como ameaçada globalmente. A espécie é amplamente cultivada e ocorre naturalmente em habitats perturbados que são relativamente comuns. No entanto, populações nativas em pântanos costeiros e prados úmidos são vulneráveis à:
- Drenagem de Áreas Úmidas: a conversão de pântanos em terrenos agrícolas é a maior ameaça histórica
- Eutrofização: enriquecimento de nutrientes favorece espécies competidoras mais agressivas
- Salinização Excessiva: embora tolerante à salinidade moderada, intrusão salina severa elimina populações
- Urbanização Costeira: destruição de habitats estuarinos onde a espécie é frequente
História Botânica e Cultural
A alteia é mencionada em textos médicos há mais de 2.000 anos. Hipócrates (século V a.C.) prescrevia a raiz para tratar feridas. Dioscórides descreveu a planta detalhadamente em De Materia Medica, e Plínio, o Velho, documentou seu uso alimentar em Roma, onde as folhas jovens eram consumidas como hortaliça.
O nome popular “marshmallow” em inglês origina-se diretamente da espécie: a confeitaria marshmallow foi inventada no Egito antigo e aperfeiçoada pelos confeiteiros franceses do século XIX, que batiam o extrato mucilaginoso da raiz com açúcar e clara de ovo para produzir o doce esponjoso. O marshmallow industrial moderno substituiu o extrato vegetal por gelatina, mas algumas marcas artesanais resgataram a receita original.
Na farmacopeia medieval, a raiz de alteia era ingrediente essencial do unguentum althaeae, empomada para tratar queimaduras e inflamações de pele. A planta figura em todas as farmacopeias europeias tradicionais e permanece monografada na Farmacopeia Europeia atual (PhEur).
No século XIX, a alteia foi introduzida na América do Norte e rapidamente naturalizada em áreas úmidas do nordeste dos Estados Unidos, onde comunidades de imigrantes europeus mantiveram o uso medicinal tradicional.
Identificação Visual: Como Distinguir de Plantas Confundíveis
A Althaea officinalis pode ser confundida com outras Malvaceae de flores rosadas ou brancas. Diferenças-chave:
- Althaea officinalis versus Alcea rosea (malva-rosa): Alcea rosea é muito mais alta (até 250 centímetros), com flores maiores (8 a 12 centímetros) em cores variadas (vermelha, amarela, roxa). A. officinalis tem flores menores (2,5 a 5 centímetros), sempre brancas a rosa-pálido, e porte menor
- Althaea officinalis versus Malva sylvestris (malva-silvestre): M. sylvestris tem flores roxo-rosadas com veios escuros proeminentes, pétalas emarginadas profundamente, e pilosidade menos densa. A. officinalis tem pilosidade aveludada cinzenta característica em toda a planta
- Althaea officinalis versus Lavatera thuringiaca: Lavatera tem flores maiores, folhas com lobos mais profundos e pilosidade menos densa. O epicálice de Lavatera tem 3 bractéolas (versus 6 a 9 em Althaea)
Saiba Tudo Sobre a Alteia na Fitoterapia
Para conhecer os benefícios medicinais da alteia, as formas de preparo de decocções e macerações a frio, dosagens indicadas para irritações de garganta, tosse e problemas gastrointestinais, contraindicações, interações medicamentosas e estudos científicos sobre eficácia, acesse o post pilar: Alteia: Guia Completo de Benefícios, Preparo e Usos.
Referências e Estudos Científicos
Estudos Científicos Peer-Reviewed (4)
- DOI2010 Bonaterra, G. A., Heinrich, E. U., Kelber, O., et al. Anti-inflammatory effects of the willow bark extract STW 33-I (Proaktiv) in LPS-activated human monocytes and differentiated macrophages. Phytomedicine, 17(14), 1106-1113. 2010. ↗
- DOI2004 Elmastas, M., Ozturk, L., Gokce, I., et al. Determination of antioxidant activity of marshmallow flower (Althaea officinalis L.). Analytical Letters, 37(9), 1859-1869. 2004. ↗
- DOI2011 Hage-Sleiman, R., Mroueh, M., Daher, C. F. Pharmacological evaluation of aqueous extract of Althaea officinalis flower grown in Lebanon. Pharmaceutical Biology, 49(3), 327-333. 2011. ↗
- DOI2010 Deters, A., Zippel, J., Hellenbrand, N., et al. Aqueous extracts and polysaccharides from Marshmallow roots: Cellular internalisation and stimulation of cell physiology. Journal of Ethnopharmacology, 127(1), 62-69. 2010. ↗
Leituras Complementares (3)
- 2013 Al-Snafi, A. E. The pharmaceutical importance of Althaea officinalis and Althaea rosea: A review. International Journal of PharmTech Research, 5(3), 1378-1385. 2013.
- 2008 European Medicines Agency. Assessment report on Althaea officinalis L., radix. EMA/HMPC/98717/2008. 2016.
- 2011 Shah, S. M. A., Akhtar, N., Akram, M., et al. Pharmacological activity of Althaea officinalis L. Journal of Medicinal Plants Research, 5(24), 5662-5666. 2011.


