Plantas Comestíveis

Crithmum maritimum: Funcho-Marinho, Usos e Cuidados

O Crithmum maritimum, chamado em Portugal de funcho-marinho, funcho-do-mar ou perrexil-do-mar, é uma planta das rochas costeiras europeias com longa história na culinária. Veja a composição, os cuidados com sódio, iodo e fotossensibilidade, e por que não é nativa do Brasil.

Por Conselho Editorial13 Min de Leitura
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Touceira de Crithmum maritimum com folhas carnudas verde-azuladas crescendo numa fenda de rocha à beira-mar

Entre as rochas batidas pelo mar, do litoral atlântico de Portugal às costas do Mediterrâneo e do Mar Negro, cresce uma planta baixa de folhas carnudas e cheiro resinoso que os botânicos chamam de Crithmum maritimum L. Em Portugal ela recebe os nomes de funcho-marinho, funcho-do-mar e perrexil-do-mar, e sua história junta cozinha de pescadores, conservas em vinagre e registros antigos de uso a bordo de navios. O interesse científico pela espécie cresceu bastante na última década, embora quase tudo o que se sabe sobre seus efeitos biológicos ainda venha de ensaios em laboratório, e essa distância entre tradição e evidência orienta tudo o que vem a seguir.

Touceira de Crithmum maritimum com folhas carnudas verde-azuladas crescendo numa fenda de rocha à beira-mar
A planta forma touceiras baixas em fendas de rochas costeiras, ambiente batido pelo vento e pelo sal. Foto: Ixitixel, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
Sumário do Artigo
  1. O Que É o Crithmum maritimum
  2. Não Confundir com Funcho nem com Salicórnia
  3. Habitat e Distribuição
  4. História e Uso Tradicional
  5. Composição Química e Nutricional
  6. O Que Dizem os Estudos
  7. Uso na Culinária
  8. Contraindicações e Cuidados
  9. Quando Buscar Atendimento
  10. Perguntas Frequentes

O Que É o Crithmum maritimum

O Crithmum maritimum L. é uma erva perene da família Apiaceae, a mesma da cenoura, da salsa e do aipo, e é a única espécie do gênero Crithmum. Forma touceiras que costumam ficar abaixo de 60 cm de altura, com caules lenhosos na base e folhas divididas em segmentos estreitos, grossos e suculentos, de cor verde-azulada. Quando esmagadas, as folhas soltam um aroma que muitos descrevem como uma mistura de cenoura, casca de limão e resina. No verão surgem umbelas de flores pequenas, de tom amarelo-esverdeado, que depois dão frutos ovais com tecido esponjoso, capazes de flutuar e viajar com a água do mar.

A planta é considerada uma halófita facultativa, ou seja, tolera bem o sal sem depender dele para viver, e cresce melhor em salinidade moderada do que em solos muito salgados, segundo a revisão agronômica de Renna (2018). As folhas carnudas guardam água e ajudam a planta a atravessar períodos de vento forte, sol intenso e pouca água doce, condições típicas das falésias e dos molhes onde ela costuma aparecer.

Nomes Populares

A Flora Digital de Portugal, mantida pelo Jardim Botânico da UTAD, registra para a espécie os nomes funcho-do-mar, funcho-marinho e perrexil-do-mar, entre outros de uso regional. No Brasil não existe nome popular consolidado, porque a planta não faz parte da nossa flora, e por isso o nome científico é o identificador mais seguro. Em inglês ela é chamada de rock samphire ou sea fennel, termos que aparecem com frequência em livros de culinária e em rótulos importados.

Não Confundir com Funcho nem com Salicórnia

O nome funcho-marinho leva muita gente a imaginar uma variedade litorânea do funcho de horta, mas são plantas diferentes. O funcho verdadeiro (Foeniculum vulgare) também pertence à família Apiaceae, porém a um gênero distinto, com porte bem maior, folhas finíssimas como fios, bulbo comestível e sementes de sabor anisado. O Crithmum maritimum, por sua vez, tem porte baixo, folhas grossas e salgadas e não forma bulbo, e os usos tradicionais, a composição e os cuidados de cada um não se transferem de uma planta para a outra.

Outra confusão comum vem do nome inglês samphire, aplicado tanto ao Crithmum quanto às salicórnias. A salicórnia também é uma halófita de beira-mar, mas pertence à família Amaranthaceae, tem caules articulados e quase sem folhas visíveis e vive sobretudo em sapais e marismas lamacentos, enquanto o funcho-marinho prefere rochas e areias. Em cardápios e mercados estrangeiros convém conferir o nome científico antes de comprar ou de buscar informações sobre a planta.

Habitat e Distribuição

A espécie é nativa das costas atlânticas e mediterrânicas da Europa e do Norte da África, além do litoral do Mar Negro e de arquipélagos da Macaronésia, como Açores, Madeira e Canárias. Em Portugal continental aparece do noroeste ao Algarve, em areias marítimas e fendas de rochas costeiras, com floração registrada entre maio e outubro, de acordo com a Flora Digital de Portugal.

No Brasil o Crithmum maritimum não é nativo nem naturalizado, de modo que, quando aparece por aqui, trata-se de produto importado, geralmente em conserva, ou de cultivo pontual feito por colecionadores e restaurantes, e não há populações silvestres para colher no nosso litoral.

História e Uso Tradicional

Autores da Antiguidade já descreviam uma planta costeira chamada krithmon, nome tradicionalmente associado a esta espécie e que deu origem ao gênero. Ao longo dos séculos, comunidades litorâneas da Europa colhiam as folhas jovens para comer frescas ou conservar em vinagre e salmoura, o que permitia guardá-las por meses. Na Inglaterra a colheita nas falésias era tão arriscada que Shakespeare a mencionou em Rei Lear, na cena em que um personagem descreve, do alto de um penhasco, alguém pendurado a meio caminho colhendo samphire e chama aquilo de ofício terrível.

Há registros históricos do uso da planta em conserva por marinheiros e populações costeiras contra o escorbuto, doença causada pela falta de vitamina C, numa época em que vegetais frescos eram raros nas viagens longas. Esse uso pertence à história da navegação e não deve ser lido como indicação médica atual: o escorbuto hoje é diagnosticado e tratado por profissionais de saúde com reposição adequada de vitamina C. Na medicina popular de diferentes regiões da Itália e da Espanha, a planta também aparece como diurética, digestiva e carminativa, em sucos de folhas, infusões dos frutos e folhas em conserva, conforme o levantamento etnobotânico reunido por Renna (2018), mas são registros de uso tradicional, ainda sem confirmação em estudos clínicos.

Composição Química e Nutricional

As análises disponíveis mostram folhas ricas em água e minerais, com teor de vitamina C em torno de 76 mg por 100 g de folha fresca em um dos trabalhos citados por Renna (2018). O mesmo levantamento traz um dado que interessa a quem controla o sal da dieta: plantas silvestres apresentaram cerca de 291 mg de sódio por 100 g de folha fresca, contra 168 mg em plantas cultivadas, diferença que reflete a água salgada do ambiente natural.

A planta também é capaz de acumular iodo: um experimento de cultivo hidropônico mostrou que o teor desse mineral nos tecidos sobe com facilidade quando ele é adicionado à solução nutritiva (Sarrou et al., 2019), e por isso o ambiente onde ela cresce pode influenciar bastante a quantidade presente nas folhas. Na prática, isso significa que a quantidade de sódio e de iodo varia muito conforme a origem do lote, e um rótulo de conserva pode não refletir o que existe numa planta colhida em outro local.

Entre os compostos bioativos, os estudos destacam polifenóis, em especial o ácido clorogênico (Meot-Duros e Magné, 2009), além de flavonoides e poliacetilenos como o falcarindiol (Dzhoglova et al., 2025). O óleo essencial tem composição bastante variável conforme a região e a fase da planta, com compostos frequentes como dilapiol, gama-terpineno, limoneno e sabineno, cujas proporções mudam muito de um estudo para outro, e presença de miristicina em parte das amostras (Renna, 2018; Dzhoglova et al., 2025). Renna (2018) também registra pequenas quantidades de cumarinas, grupo químico ao qual pertencem as furanocumarinas, substâncias que tornam a pele mais sensível à luz solar.

Folhas suculentas e segmentadas de Crithmum maritimum em close, mostrando a textura carnuda e a cor verde-azulada
As folhas grossas e suculentas armazenam água, adaptação que ajuda a planta a resistir ao sol e ao vento das falésias. Foto: Ixitixel, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

O Que Dizem os Estudos

A revisão mais recente sobre a espécie, publicada por Dzhoglova e colaboradores em 2025, reuniu dezenas de trabalhos e encontrou atividades antibacteriana, antifúngica, anti-inflamatória e antioxidante, além de efeitos sobre células tumorais, quase sempre em testes in vitro com extratos ou com o óleo essencial. Os próprios autores apontam que os dados em animais são muito limitados e que faltam estudos de toxicidade antes de qualquer aplicação terapêutica. Resultados desse tipo indicam caminhos de pesquisa, e não efeitos comprovados em pessoas.

Em humanos, a mesma revisão descreve apenas dois trabalhos pequenos, nenhum deles desenhado para avaliar doenças. O primeiro, com 12 adultos saudáveis, avaliou formulações cosméticas feitas a partir de células-tronco vegetais da planta e observou recuperação mais rápida da barreira da pele em 14 dias. O outro, um estudo piloto também com 12 voluntários, testou um suplemento que combinava óleo de funcho-marinho com hidroxitirosol e outros dois óleos essenciais, de modo que eventuais efeitos não podem ser atribuídos à planta isoladamente. Até o momento não há ensaio clínico que sustente o uso do Crithmum maritimum para tratar ou prevenir qualquer doença, e o consumo da planta não substitui acompanhamento médico.

Uso na Culinária

Nos países onde cresce, o funcho-marinho é sobretudo um ingrediente de cozinha, e as partes aproveitadas são as folhas jovens e os brotos tenros, com sabor salgado, levemente picante e cítrico, e textura crocante que se mantém mesmo depois de um cozimento rápido. Na Itália existe até uma versão em conserva incluída na lista oficial de produtos alimentares tradicionais. Folhas secas já foram testadas como condimento e corante natural em massas e pratos de arroz (Renna, 2018), e entre as preparações mais citadas estão:

  • acompanhamento salteado no azeite, servido com peixes e frutos do mar;
  • conserva em vinagre, à maneira das alcaparras;
  • folhas frescas em saladas e molhos;
  • molhos verdes do tipo pesto, combinados com ervas e azeite.

Por causa do sódio naturalmente presente, as receitas costumam pedir pouco ou nenhum sal adicional, e as conservas em salmoura concentram ainda mais esse mineral. Quem colhe a planta na natureza, em viagens à Europa, precisa ter certeza da identificação e evitar áreas próximas de portos, esgotos ou indústrias, já que halófitas absorvem o que está dissolvido na água.

Contraindicações e Cuidados

Como alimento, em quantidades culinárias, a planta faz parte da cozinha costeira europeia há séculos, embora os estudos formais de segurança ainda sejam escassos. Alguns grupos precisam de atenção redobrada, e as formas concentradas pedem mais cuidado que as folhas usadas na cozinha, como mostram os pontos a seguir:

  • Alergia a plantas da família Apiaceae: quem reage a aipo, cenoura, funcho ou salsa pode reagir também ao funcho-marinho.
  • Disfunções da tireoide: o teor de iodo é variável e pode ser alto, o que pede orientação médica para pessoas com hipotireoidismo, hipertireoidismo, nódulos ou em uso de medicamentos para a tireoide.
  • Gestação: o óleo essencial é contraindicado na gravidez, por conter compostos como dilapiol e miristicina e por não haver dados de segurança nesse período; a amamentação também pede cautela pela mesma falta de dados.
  • Hipertensão e dieta com restrição de sódio: a planta é naturalmente salgada e as conservas concentram ainda mais sódio, o que exige moderação e conversa com o médico ou nutricionista.
  • Pele e exposição ao sol: a família Apiaceae é a que reúne mais espécies conhecidas por causar fitofotodermatite, uma reação provocada principalmente por furanocumarinas quando a pele entra em contato com a planta e depois é exposta à luz solar (Grosu et al., 2024); como a espécie contém cumarinas, o óleo essencial e os extratos concentrados não devem ser aplicados na pele antes de exposição ao sol.

O óleo essencial não deve ser ingerido sem orientação de um profissional habilitado, nem dado a crianças. Quem usa medicamentos de uso contínuo ou tem alguma doença crônica deve conversar com o médico antes de incluir extratos ou suplementos da planta na rotina.

Quando Buscar Atendimento

Procure atendimento médico se surgirem vermelhidão intensa, bolhas, queimação ou manchas escuras na pele depois de contato com a planta, com o óleo essencial ou com cosméticos que a contenham, seguido de exposição ao sol, porque esse quadro pode corresponder a uma fitofotodermatite. Também merecem avaliação sinais de alergia após comer a planta, como coceira, inchaço nos lábios ou falta de ar, este último um motivo para buscar pronto-socorro imediatamente. Pessoas com doença da tireoide que notarem palpitações, perda ou ganho de peso sem explicação ou cansaço persistente depois de consumir a planta com frequência, assim como hipertensos com elevação da pressão, devem procurar o médico que os acompanha.

Perguntas Frequentes

Funcho-Marinho e Funcho São a Mesma Planta?

Não, apesar do nome parecido: o funcho-marinho é o Crithmum maritimum, enquanto o funcho de horta é o Foeniculum vulgare. As duas espécies são da família Apiaceae, mas pertencem a gêneros diferentes, com aparência, sabor e composição distintos.

O Crithmum maritimum É Encontrado no Brasil?

Não como planta nativa ou naturalizada, já que ele cresce em costas rochosas da Europa, do Norte da África e de ilhas atlânticas; no Brasil aparece apenas como produto importado ou em cultivos pontuais.

A Planta Tem Muito Sódio?

Sim, em comparação com a maioria das verduras, já que plantas silvestres analisadas apresentaram cerca de 291 mg de sódio por 100 g de folha fresca. As conservas em salmoura costumam ter ainda mais, o que pede moderação para quem segue dieta com pouco sal.

Existe Estudo em Humanos sobre os Benefícios do Crithmum maritimum?

Existe muito pouco material desse tipo, porque a maior parte das pesquisas foi feita em laboratório. Os dois estudos em pessoas descritos na literatura são pequenos, um com cosmético e outro com suplemento de vários ingredientes, e não permitem conclusões sobre efeitos na saúde.

Referências

6 Referências Citadas

Nível de Evidência: 🥈 Moderado

Baseado em 6 Referências Citadas (5 Peer-Reviewed, 1 Complementar).

Estudos Científicos Peer-Reviewed (5)

  1. DOI2025 Dzhoglova V, Ivanova S, Shishmanova-Doseva M, Saracheva K. Crithmum maritimum L.: Phytochemical Profile, Biological Activities, and Therapeutic Potential. Molecules, 30(13):2832, 2025.
  2. DOI2024 Grosu (Dumitrescu) C, Jîjie AR, Manea HC, Moacă EA, Iftode A, Minda D, Chioibaş R, Dehelean CA, Vlad CS. New Insights Concerning Phytophotodermatitis Induced by Phototoxic Plants. Life (Basel), 14(8):1019, 2024.
  3. PMC2009 Meot-Duros L, Magné C. Antioxidant activity and phenol content of Crithmum maritimum L. leaves. Plant Physiology and Biochemistry, 47(1):37-41, 2009.
  4. DOI2018 Renna M. Reviewing the Prospects of Sea Fennel (Crithmum maritimum L.) as Emerging Vegetable Crop. Plants, 7(4):92, 2018.
  5. DOI2019 Sarrou E, Siomos AS, Riccadonna S, Aktsoglou DC, Tsouvaltzis P, Angeli A, Franceschi P, Chatzopoulou P, Vrhovsek U, Martens S. Improvement of sea fennel (Crithmum maritimum L.) nutritional value through iodine biofortification in a hydroponic floating system. Food Chemistry, 296:150-159, 2019.

Leituras Complementares (1)

  1. 2026 Jardim Botânico da UTAD. Crithmum maritimum. Flora Digital de Portugal. Consultado em 2026.

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