A Cordia sinensis é um arbusto ou pequena árvore das regiões áridas da África e da Ásia tropical, adaptado a condições extremas de seca e calor. Pertence à família Boraginaceae, a mesma família botânica da borragem e do confrei. Esta página é um perfil botânico aprofundado da espécie, focado em taxonomia formal, identificação morfológica, ecologia de zonas áridas, espécies relacionadas do gênero Cordia, conservação e fitoquímica.
Sumário do Artigo
Taxonomia Formal da Cordia sinensis
A Cordia sinensis pertence à família Boraginaceae (sensu APG IV). A classificação completa segue abaixo:
- Reino: Plantae
- Divisão: Magnoliophyta (angiospermas)
- Classe: Magnoliopsida (dicotiledôneas)
- Ordem: Boraginales
- Família: Boraginaceae
- Subfamília: Cordioideae
- Gênero: Cordia (com aproximadamente 300 espécies aceitas)
- Espécie: Cordia sinensis Lam., 1791
Sinônimos Taxonômicos Históricos
- Cordia gharaf (Forssk.) Ehrenb. ex Asch.
- Cordia nevillii Retz. ex DC.
- Cordia rothii Roem. & Schult.
- Varronia sinensis (Lam.) Kuntze
O nome genérico Cordia homenageia Valerius Cordus (1515-1544), botânico e farmacêutico alemão. O epíteto sinensis pode causar confusão, pois a espécie não é nativa da China: Lamarck atribuiu esse nome baseado em material cultivado descrito como proveniente da Ásia, mas a distribuição nativa centra-se na África e na Índia.
Identificação Botânica Detalhada
Morfologia Geral
A Cordia sinensis é um arbusto ou pequena árvore semidecídua a decídua, atingindo 2 a 7 metros de altura. Possui copa arredondada e irregular, caules frequentemente tortuosos e casca cinza-escura e fissurada. A planta é altamente xerófita, tolerando precipitações tão baixas quanto 100 milímetros anuais.
Folhas
- Comprimento: 2 a 6 centímetros
- Cor: verde-acinzentada, coriácea
- Forma: ovadas a elípticas, com ápice arredondado a emarginado
- Indumento: superfície áspera (escabra), com tricomas estrelados na face inferior
- Largura: 1,5 a 4 centímetros
- Margem: inteira a ondulada
- Pecíolo: curto, 3 a 10 milímetros
Flores
- Cálice: tubuloso, persistente, pubescente
- Cor: branca a creme-amarelada
- Diâmetro: 5 a 10 milímetros
- Floração: após as chuvas, com possibilidade de floração múltipla ao longo do ano
- Forma: infundibuliforme, com 4 a 5 lobos
- Inflorescência: cimeiras terminais compactas
- Polinização: entomófila (abelhas e pequenos insetos)
Frutos e Sementes
- Cor: alaranjado a amarelo-escuro quando maduro
- Diâmetro: 6 a 12 milímetros
- Formato: drupa ovoide, envolta pelo cálice acrescente
- Polpa: mucilaginosa e adocicada (comestível, consumida fresca em comunidades locais)
- Sementes: 1 a 2, duras
Cultivo Técnico Detalhado
Requisitos Edafoclimáticos
- Altitude: do nível do mar até 1.800 metros
- Luminosidade: sol pleno obrigatório
- Pluviosidade: 100 a 600 milímetros anuais. Uma das Cordia mais tolerantes à seca extrema
- Solo: tolera solos arenosos, pedregosos, alcalinos e salinos. Extremamente pouco exigente em fertilidade
- Temperatura: tropical árida a semiárida. Tolera temperaturas acima de 45ºC. Não tolera geadas
Propagação
- Estacas: estacas lenhosas enraízam em 45 a 90 dias
- Sementes: germinação em 10 a 21 dias após escarificação mecânica ou ácida do tegumento duro
Outras Espécies do Gênero Cordia de Zonas Áridas
- Cordia lutea Lam.: análoga sul-americana com flores amarelas, dos bosques secos do Peru e Equador
- Cordia myxa L.: espécie asiática e africana com frutos mucilaginosos maiores, cultivada como árvore frutífera e medicinal
- Cordia ovalis R. Br.: espécie australiana de zonas áridas
Geografia e Distribuição
A Cordia sinensis possui distribuição afro-asiática ampla:
- África: toda a faixa saariana e subsaariana, do Senegal ao Corno da África (Etiópia, Somália, Quênia, Tanzânia). Componente frequente da vegetação de savana árida e matorral espinhoso
- Ásia: Índia (Rajastão, Gujarat, Tamil Nadu), Paquistão, Arábia Saudita, Iêmen, Omã. Elemento frequente da vegetação de Thar e savanas indianas
No Brasil, a espécie não é nativa, mas pode ser cultivada experimentalmente em regiões semiáridas do Nordeste.
Fitoquímica Principal
- Alcaloides pirrolizidínicos: em baixas concentrações
- Flavonoides: quercetina, canferol, rutina
- Mucilagens: abundantes nos frutos
- Saponinas: presentes nas folhas e casca
- Taninos: 4% a 8% nas folhas secas
- Terpenos: ácido ursólico, ácido oleanólico
Pragas e Doenças Comuns
- Broca-do-Caule: larvas de coleópteros perfuram troncos de árvores velhas
- Cochonilhas: infestam ramos em plantações densas
- Podridão Radicular: em solos encharcados (condição atípica para a espécie)
Conservação e Status Ambiental
A Cordia sinensis não está classificada como ameaçada globalmente:
- Degradação de Habitat: a expansão agrícola e o pastoreio excessivo em zonas áridas africanas e asiáticas reduzem populações naturais
- Sistemas Agroflorestais: valorizada em programas de reflorestamento em zonas áridas por sua tolerância extrema à seca e capacidade de fornecer sombra, forragem e frutos
- Uso Tradicional: comunidades pastoris da África Oriental (Maasai, Turkana, Somali) utilizam frutos como alimento e folhas como forragem para caprinos
História Botânica
A Cordia sinensis foi descrita formalmente por Jean-Baptiste Lamarck em 1791. O epiteto “sinensis” é uma atribuição geográfica incorreta de Lamarck, pois a espécie não ocorre na China. A distribuição real centra-se na África e no sul da Ásia. Apesar do equívoco nomenclatural, o nome é mantido por prioridade taxonômica.
A espécie é conhecida por diversos nomes populares conforme a região: “gharaf” no Sudão, “lattan” no Rajastão (Índia), “marer” na Somália e “mkamasi” na Tanzânia.
Identificação Visual
- Cordia lutea: flores amarelas (não brancas), folhas maiores e menos coriáceas, distribuição sul-americana
- Cordia myxa: porte maior (até 12 metros), folhas maiores e mais largas, frutos maiores e mais suculentos
- Ziziphus mauritiana (Jujuba): arbusto espinhoso de zonas áridas semelhantes, mas com espinhos pareados e folhas com 3 nervuras basais. Família Rhamnaceae
Referências e Estudos Científicos
Estudos Científicos Peer-Reviewed (1)
- DOI2009 Ata, A., et al. Phytochemical and biological studies on Cordia sinensis. Natural Product Research, 23(16), 1418-1425. 2009. ↗
Leituras Complementares (3)
- 2004 Arbonnier, M. Trees, Shrubs and Lianas of West African Dry Zones. CIRAD, Margraf, MNHN. 2004.
- 1994 Beentje, H. J. Kenya Trees, Shrubs and Lianas. National Museums of Kenya. 1994.
- Lamarck, J.-B. Encyclopédie Méthodique, Botanique. Paris. 1791.