A calêndula, cientificamente Calendula officinalis, é uma planta da família Asteraceae, a mesma das margaridas, com flores em tons de amarelo e alaranjado que se abrem ao amanhecer e se fecham ao entardecer. Seu uso em cicatrização e cuidados com a pele atravessa séculos e culturas distantes, do Egito Antigo e da Ayurveda indiana aos campos de batalha da Guerra Civil Americana, onde suas flores eram aplicadas diretamente sobre feridas abertas.
Este texto percorre a história da planta, sua composição química e os usos com melhor respaldo científico, sobretudo o tópico, além dos usos internos e na saúde feminina que pedem mais cautela. Também modera o entusiasmo em torno de linhas de pesquisa ainda preliminares, como o potencial anticâncer, hoje restrito a estudos de laboratório.

O óleo de calêndula é amplamente usado em cremes e pomadas para cicatrização e cuidados com a pele, o uso da planta com melhor respaldo científico.
Sumário do Artigo
- Origem e História da Calêndula
- Composição Fitoquímica da Calêndula
- Propriedades Anti-inflamatórias e Antioxidantes
- Benefícios da Calêndula para a Pele
- Uso Interno: Chá e Tintura
- Como Preparar o Chá de Calêndula
- Aplicações na Saúde Feminina
- Cultivo e Colheita da Calêndula
- Calêndula na Culinária
- Calêndula na Cosmética Artesanal
- Pesquisas Recentes e Potencial Anticâncer
- Sinergia com Outras Plantas
- Modo de Uso: Receitas e Protocolos Caseiros
- Impacto Ambiental e Sustentabilidade
- Contraindicações e Cuidados
- Perguntas Frequentes sobre a Calêndula
Origem e História da Calêndula
Nativa do sul da Europa, do Egito e de partes da Ásia, a Calendula officinalis floresce quase o ano todo, o que inspirou seu nome, do latim “calends”, primeiro dia do mês. Os romanos a chamavam “solsequium” (“seguidora do sol”), referência ao modo como suas flores acompanham a luz solar. Egípcios e praticantes da medicina ayurvédica indiana já registravam seu uso cicatrizante muito antes de qualquer explicação bioquímica estar disponível, o que faz da calêndula uma das plantas com histórico de uso mais consistente entre culturas distantes no tempo e no espaço.
Na Idade Média, monges cultivavam a calêndula em jardins monásticos e usavam suas pétalas secas como substituto barato do açafrão, para colorir queijos e manteigas. Séculos depois, durante a Guerra Civil Americana, cirurgiões de campo aplicavam flores e tintura de calêndula diretamente sobre feridas abertas de soldados, numa época sem antibióticos, na tentativa de acelerar a cicatrização e reduzir o risco de infecção e gangrena. A pesquisa moderna hoje explica esse uso pelas propriedades antissépticas e estimulantes de colágeno da planta.
Composição Fitoquímica da Calêndula
A ação terapêutica da calêndula vem principalmente de três grupos de compostos. Os triterpenoides, como faradiol e arnidiol, têm ação anti-inflamatória bem documentada. Os flavonoides antioxidantes, como quercetina e isorhamnetina, ajudam a neutralizar radicais livres e a proteger as células do estresse oxidativo. Já os carotenoides, como licopeno e luteína, dão à flor sua cor vibrante e contribuem para a atividade fotoprotetora e antioxidante do extrato. É essa combinação que sustenta a maior parte dos efeitos observados em pesquisa, tanto na pele quanto no uso interno.
Propriedades Anti-inflamatórias e Antioxidantes
A atividade anti-inflamatória da calêndula é atribuída sobretudo a triterpenoides e flavonoides, que em estudos de laboratório inibem a produção de citocinas pró-inflamatórias e modulam enzimas como a ciclo-oxigenase (COX). Esse mecanismo ajuda a explicar por que a planta é útil no cuidado de peles irritadas e feridas, embora não existam ensaios clínicos robustos que comparem diretamente sua eficácia e segurança às de anti-inflamatórios convencionais.
Como antioxidante, a calêndula neutraliza radicais livres associados ao estresse oxidativo, processo ligado ao envelhecimento da pele e a diversas doenças crônicas. Carotenoides e flavonoides protegem as células contra esse tipo de dano, o que reforça o papel da planta no cuidado da pele ao longo do tempo.
Benefícios da Calêndula para a Pele
A calêndula é amplamente reconhecida por seus benefícios dermatológicos, e por isso é ingrediente comum em cremes, loções, pomadas e óleos voltados ao cuidado da pele.
Cicatrização de Feridas
Este é o uso da calêndula com melhor respaldo em pesquisa clínica. Revisões sistemáticas de ensaios controlados mostram que a aplicação tópica acelera a cicatrização de feridas, estimulando a produção de colágeno e a formação de tecido de granulação, com propriedades antissépticas que ajudam a prevenir infecção secundária. Arranhões, cortes e queimaduras leves respondem bem ao tratamento tópico.
Alívio de Irritações e Inflamações
A calêndula tem efeito calmante sobre a pele, com ação anti-inflamatória que ajuda a reduzir vermelhidão, inchaço e coceira. É por isso que aparece em produtos voltados a assaduras, dermatite e eczema, como coadjuvante no cuidado da pele irritada, sem substituir o tratamento indicado por um dermatologista em casos persistentes.
Hidratação e Nutrição da Pele
Extratos de calêndula também ajudam a hidratar e nutrir a pele, contribuindo para a elasticidade e o conforto de peles secas ou rachadas.
Uso Interno: Chá e Tintura
O chá de calêndula é usado tradicionalmente para desconforto digestivo leve, como gastrite e indigestão. Suas saponinas são associadas à proteção da mucosa gástrica, e a planta tem um efeito colerético discreto, que estimula o fluxo de bile e auxilia na digestão de gorduras. A tintura, extrato alcoólico mais concentrado, é usada com a mesma finalidade, em doses menores e mais precisas. Assim como qualquer fitoterápico de uso interno continuado, vale conversar com um profissional de saúde antes de manter o hábito.
Como Preparar o Chá de Calêndula
- Leve 250 ml de água para ferver.
- Coloque de uma a duas colheres de chá de flores de calêndula secas em uma xícara.
- Despeje a água fervente sobre as flores.
- Cubra a xícara e deixe em infusão por 10 a 15 minutos.
- Coe o chá e sirva quente, adoçando a gosto se desejar.
Aplicações na Saúde Feminina
A calêndula tem uso tradicional para aliviar cólicas menstruais, atribuído a propriedades antiespasmódicas sobre a musculatura uterina. Justamente por essa ação sobre o útero, o uso interno é desaconselhado na gravidez, e qualquer uso voltado a “estimular” uma menstruação atrasada deve ser evitado sem avaliação médica, já que essa mesma propriedade levanta preocupação de segurança gestacional.
Para infecções vaginais como a candidíase, banhos de assento com chá de calêndula são usados popularmente como coadjuvante, mas não substituem o tratamento antifúngico indicado por um ginecologista quando a infecção está confirmada.
Cultivo e Colheita da Calêndula
A calêndula é fácil de cultivar, tolera diferentes tipos de solo e prefere sol pleno, embora aceite sombra parcial. A germinação ocorre em uma a duas semanas, e a floração vai da primavera ao outono; remover as flores murchas estimula uma floração contínua, e a planta ainda atrai polinizadores benéficos para o jardim. A colheita deve ser feita em dias secos, com as flores totalmente abertas; secá-las à sombra, em local arejado, e guardá-las num recipiente hermético e ao abrigo da luz preserva melhor seus compostos ativos para uso posterior. Para quem não cultiva em casa, vale escolher fornecedores que informem a origem e as condições de secagem e armazenamento das flores, como o chá de calêndula da Loja Medicina Natural.
Calêndula na Culinária
Além do uso ornamental e medicinal, as pétalas secas de calêndula têm longa tradição culinária como corante natural. Valorizadas por sua cor amarelo-alaranjada intensa, que se transfere a caldos, arroz, queijos e manteigas, renderam à planta o apelido popular de “açafrão-dos-pobres” em várias regiões da Europa, já que reproduziam parte do efeito visual do açafrão verdadeiro a uma fração do custo. O sabor é discreto e levemente picante, o que torna seu papel na cozinha quase exclusivamente decorativo e de coloração, não de tempero dominante. As pétalas frescas também podem ser adicionadas a saladas e sopas.
Calêndula na Cosmética Artesanal
A calêndula é um ingrediente valorizado na cosmética artesanal, por sua suavidade e versatilidade. Sabonetes com pétalas secas de calêndula, por exemplo, são indicados para peles sensíveis: as pétalas conferem leve esfoliação e liberam compostos benéficos na mistura, e o óleo infuso de calêndula pode entrar como base, resultando num sabonete hidratante e calmante.
Bálsamos labiais e pomadas caseiras são outra aplicação popular: cera de abelha, óleo de calêndula e manteiga de karité formam uma base nutritiva que protege os lábios do ressecamento e ajuda na cicatrização de rachaduras. A mesma combinação serve de base para pomadas caseiras voltadas a calcanhares, cotovelos e cutículas.
Pesquisas Recentes e Potencial Anticâncer
A pesquisa científica sobre a calêndula segue em expansão, com estudos in vitro testando extratos da planta contra diversas linhagens de células cancerígenas humanas (colo do útero, mama, próstata, entre outras) e encontrando inibição da proliferação celular por parada do ciclo celular e indução de apoptose. É um achado de laboratório, célula isolada em placa, sem qualquer teste em animais ou pessoas até o momento. Tratar essa linha de pesquisa como evidência de que a calêndula previne ou trata câncer seria uma extrapolação que a ciência disponível não sustenta.
Outra linha de pesquisa investiga um possível efeito neuroprotetor: estudos sugerem que os antioxidantes da planta poderiam, em teoria, ajudar a proteger células cerebrais do estresse oxidativo ligado a doenças neurodegenerativas, mas ainda faltam estudos em humanos que confirmem esse efeito.
Sinergia com Outras Plantas
Na fitoterapia tradicional, a calêndula costuma ser combinada com outras ervas para potencializar efeitos. Para a pele, combina bem com camomila e lavanda: a camomila reforça a ação anti-inflamatória e calmante, e a lavanda contribui com efeito relaxante e aroma agradável; juntas, formam uma mistura usada em chás para banho, compressas e óleos voltados à pele irritada.
No uso interno, a combinação com erva-doce e hortelã é tradicional para desconforto digestivo, a hortelã para aliviar espasmos e a erva-doce para os gases; já a combinação com equinácea é popular como suporte tradicional ao sistema imunológico, sobretudo na época de resfriados.
Modo de Uso: Receitas e Protocolos Caseiros
Banho Calmante para a Pele
Prepare um chá forte com um punhado de flores de calêndula secas, e se desejar acrescente camomila e lavanda. Coe o líquido e adicione à água do banho, permanecendo nela por cerca de 20 minutos. É um recurso tradicional para aliviar coceira, irritação e vermelhidão da pele.
Compressa para Olhos Cansados
Prepare um chá de calêndula e deixe esfriar completamente. Mergulhe dois discos de algodão no chá frio e posicione sobre os olhos fechados por 10 a 15 minutos, um recurso simples para aliviar o inchaço e a sensação de olhos cansados após um dia longo.
Gargarejo para Dor de Garganta
Prepare um chá de calêndula morno, acrescente uma pitada de sal e faça gargarejos algumas vezes ao dia. É um remédio caseiro tradicional para os primeiros sinais de desconforto na garganta; se a dor persistir, piorar ou vier acompanhada de febre, o ideal é procurar avaliação médica.
Impacto Ambiental e Sustentabilidade
O cultivo de calêndula é compatível com práticas sustentáveis: a planta não exige muitos nutrientes, o que reduz a necessidade de fertilizantes sintéticos, e responde bem a compostagem e adubos verdes.
A calêndula também tem papel no controle biológico de pragas, já que atrai insetos benéficos, como crisopídeos e joaninhas, que se alimentam de pulgões, e ajuda a repelir alguns nematoides do solo; por isso, plantá-la perto de hortaliças é uma estratégia comum de manejo integrado de pragas. A colheita manual das flores ainda gera renda em comunidades rurais, o que soma um componente social positivo ao cultivo sustentável da planta.
Contraindicações e Cuidados
Pessoas com alergia a plantas da família Asteraceae, como ambrósia, crisântemo e margarida, têm maior risco de reação alérgica à calêndula, e um teste de contato antes do uso extensivo é prudente. O uso interno é desaconselhado na gravidez e na amamentação, pela ação sobre a musculatura uterina e pela falta de estudos de segurança nesses grupos; o uso tópico, em contraste, é considerado seguro nessas fases. A calêndula também pode potencializar sedativos e barbitúricos, por isso quem usa medicação para ansiedade ou insônia deve ter cautela e conversar com o médico antes de somar a planta à rotina.
Perguntas Frequentes sobre a Calêndula
A Calêndula Trata Câncer?
Não. Existem estudos de laboratório com células isoladas mostrando redução da proliferação de células cancerígenas, mas não há teste em animais ou pessoas, e não existe evidência de que o consumo da planta previna ou trate câncer.
O Chá de Calêndula Pode Ser Tomado Todos os Dias?
Em geral sim, com moderação; uma a duas xícaras por dia costuma ser bem tolerado pela maioria das pessoas. Para uso terapêutico prolongado, vale consultar um profissional de saúde, que pode avaliar sua condição individual.
Como Fazer Óleo de Calêndula em Casa?
Cubra flores secas de calêndula com um óleo vegetal, como azeite ou óleo de amêndoas, num vidro fechado, e deixe em local ensolarado por quatro a seis semanas, agitando diariamente. Depois, coe e armazene em frasco escuro.
A Calêndula Ajuda no Tratamento da Acne?
Sim, seu uso tópico tem propriedades antibacterianas e anti-inflamatórias que ajudam a reduzir vermelhidão e favorecer a cicatrização de lesões, com bom respaldo para uso complementar no cuidado da pele com acne.
A Calêndula Ajuda a Clarear Manchas na Pele?
Pode ajudar de forma gradual, ao favorecer a regeneração celular e a circulação sanguínea local, o que melhora a aparência de manchas com o tempo. Não é, porém, um agente clareador potente como outros ativos específicos para essa finalidade.
Grávidas Podem Usar Calêndula?
O uso interno não é recomendado na gravidez, pela ação da planta sobre a musculatura uterina. O uso tópico, em cremes e pomadas para a pele, é considerado seguro nesse período.
Quem Tem Alergia a Plantas da Família Asteraceae Pode Usar Calêndula?
Deve ter cautela. A calêndula pertence à mesma família botânica de ambrósia, crisântemo e margarida, e reação cruzada é possível; um teste de contato antes do uso extensivo é recomendado.
Posso Usar Calêndula em Animais de Estimação?
Sim, o uso tópico é considerado seguro para muitos cães e gatos, em pequenos cortes, arranhões e irritações de pele. O uso interno, porém, deve ser feito apenas sob orientação de um veterinário, já que alguns animais podem ser sensíveis à planta.
Qual a Diferença Entre Calêndula e Mal-me-quer?
São plantas diferentes. Calendula officinalis é a espécie medicinal com o respaldo científico descrito aqui; “mal-me-quer” é nome popular usado para várias flores parecidas, incluindo espécies do gênero Tagetes, que não compartilham as mesmas propriedades.
A Calêndula Pode Ser Usada na Culinária?
Sim, suas pétalas são comestíveis, com sabor discreto e levemente picante. Podem ser usadas frescas em saladas e sopas, ou secas como corante natural, conferindo uma cor amarela aos alimentos de forma parecida ao açafrão.
Referências
Ver Todas as 10 Referências Citadas
- 2013 Arora D, Rani A, Sharma A. A review on phytochemistry and ethnopharmacological aspects of genus Calendula. Pharmacognosy Reviews, 2013.
- 2024 Ejiohuo O, et al. Calendula in modern medicine: advancements in wound healing and dermatology, 2024.
- 2019 Escher GB, Rosso ND, et al. Phytochemical and Functional Analyses of Calendula officinalis L. Flower Extracts. Food Research International, 2019.
- 2019 Givol O, et al. A systematic review of Calendula officinalis extract for wound healing. Wound Repair and Regeneration, 2019.
- 2006 Jiménez-Medina E, et al. A new extract of the plant Calendula officinalis produces a dual in vitro effect: cytotoxic anti-tumor activity and lymphocyte activation. BMC Cancer, 2006.
- 2025 Lozano-Castellanos LF, et al. Physiological and phytochemical responses of Calendula officinalis, 2025.
- 2017 Nicolaus C, et al. In vitro studies to evaluate the wound healing properties of Calendula officinalis extracts, 2017.
- 2024 Sapkota B, et al. A review on traditional uses, phytochemistry and pharmacological activities of Calendula officinalis, 2024.
- 2023 Shahane K, et al. An Updated Review on the Multifaceted Therapeutic Potential of Calendula officinalis. Pharmaceuticals, 2023.
- 2024 Zournatzis I, et al. Calendula officinalis: a comprehensive review, 2024.






