Plantas Medicinais

Espinheira-Santa: Saiba para Que Serve

A espinheira-santa (Maytenus ilicifolia) tem ação gastroprotetora reconhecida pela RENISUS. Veja como preparar o chá, os benefícios estudados, a dosagem tradicional e as contraindicações, incluindo o uso na gravidez.

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Espinheira-santa - Maytenus spp.
Espinheira-santa (Maytenus ilicifolia): planta medicinal brasileira conhecida por suas propriedades digestivas e protetoras do estômago

Espinheira-santa em nome popular, a Maytenus ilicifolia é uma planta medicinal nativa da região sul do Brasil, cujas folhas de bordas espinhosas deram origem ao apelido e à tradição de considerá-la um “santo remédio”. Também é conhecida como congorça, congorosa, espinho-de-Deus, maiteno e salva-vidas, entre outros nomes regionais. A família Celastráceas reúne ainda a espécie próxima Maytenus aquifolium, com uso tradicional semelhante.

Usada há gerações por povos indígenas da América do Sul para aliviar desconfortos digestivos, a espinheira-santa hoje conta com respaldo científico crescente. Está incluída na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS) e tem sua ação gastroprotetora estudada em pesquisas que a comparam ao efeito de medicamentos como cimetidina e ranitidina. Este guia reúne a história da planta, sua composição química, os benefícios estudados, as formas de uso e preparo, a dosagem tradicional e os cuidados necessários, incluindo as contraindicações na gravidez.

Sumário do Artigo
  1. História e Uso Tradicional da Espinheira-Santa
  2. Composição Química e Princípios Ativos
  3. Benefícios Estudados da Espinheira-Santa
  4. Chá de Espinheira-Santa
  5. Modo de Preparo
  6. Outras Formas de Uso
  7. RENISUS e Reconhecimento Pelo SUS
  8. Contraindicações e Efeitos Colaterais da Espinheira-Santa
  9. Cultivo e Colheita da Espinheira-Santa
  10. Perguntas Frequentes sobre Espinheira-Santa

História e Uso Tradicional da Espinheira-Santa

A história da espinheira-santa está entrelaçada com a cultura dos povos originários da América do Sul. Muito antes da chegada dos europeus, tribos indígenas já utilizavam as folhas da planta para tratar problemas estomacais, considerando-a um “santo remédio” para dores e desconfortos digestivos. O conhecimento sobre suas propriedades foi transmitido oralmente de geração em geração.

Com a colonização, o uso popular da planta se espalhou. Missionários jesuítas estão entre os primeiros a registrar seu uso pelos povos indígenas no tratamento de problemas gástricos, o que despertou o interesse de boticários e, mais tarde, de pesquisadores. Hoje a espinheira-santa é uma das plantas medicinais mais estudadas e populares do Brasil, usada em todas as regiões do país na forma de chás, tinturas, extratos e cápsulas.

Composição Química e Princípios Ativos

A espinheira-santa é composta por açúcares livres, antocianinas, flavonoides, mucilagens, taninos e triterpenos, além de outros compostos fenólicos. Essa combinação de substâncias atua em conjunto para produzir os efeitos tradicionalmente atribuídos à planta.

Taninos

Os taninos são compostos fenólicos responsáveis pela ação adstringente e cicatrizante da espinheira-santa. Eles formam uma camada protetora sobre a mucosa gástrica, auxiliam na regeneração de lesões ulcerosas e ajudam a controlar a produção de ácido clorídrico, o que contribui para o alívio da azia e da queimação. Os taninos também têm ação bacteriostática documentada contra a Helicobacter pylori, bactéria associada ao desenvolvimento de úlceras gástricas.

Flavonoides

Os flavonoides da espinheira-santa, entre eles a quercetina e o canferol, atuam como antioxidantes, neutralizando radicais livres, e são estudados por seu possível papel anti-inflamatório sobre a mucosa gástrica. Esses compostos também são apontados como responsáveis por inibir mediadores da histamina nas células parietais do estômago, reduzindo a secreção ácida.

Triterpenos

Os triterpenos, entre eles a friedelina, estão associados ao efeito protetor e analgésico da planta sobre o estômago. O efeito diurético leve atribuído à espinheira-santa também está relacionado a esse grupo de compostos, enquanto o efeito laxante é atribuído principalmente à mucilagem presente nas folhas.

Benefícios Estudados da Espinheira-Santa

As folhas são a parte usada da planta, administradas em chá, cápsulas, extrato fluido, extrato seco ou tintura. O uso mais estudado e reconhecido da espinheira-santa é sobre o sistema digestivo, mas a planta também é associada a outros efeitos tradicionais e a linhas de pesquisa preliminares.

Proteção Gástrica e Ação Sobre a Úlcera

O efeito gastroprotetor é o benefício mais estudado da espinheira-santa. Pesquisas mostram que o extrato das folhas tem efeito antiulcerogênico em pessoas com dispepsia alta ou úlcera péptica, motivo pelo qual a planta é reconhecida oficialmente para esse uso no Brasil. Os compostos bioativos envolvidos, entre eles flavonoides, polissacarídeos, taninos e triterpenos, atuam de formas complementares: ligam-se à superfície da mucosa gástrica como uma camada protetora, reduzem a secreção ácida, estimulam a produção de muco protetor, neutralizam radicais livres e dificultam a adesão da H. pylori às células gástricas. Em estudos, esse efeito protetor foi comparado ao da cimetidina, medicamento usado no tratamento da úlcera péptica.

Além do uso interno, o chá ou pomadas de espinheira-santa também têm uso tópico tradicional para auxiliar no alívio de dor de ferimentos e favorecer a cicatrização.

Ação Anti-Inflamatória e Analgésica

A espinheira-santa também tem ação analgésica tradicionalmente associada ao alívio de desconfortos estomacais e à eliminação de gases. Pesquisas preliminares indicam que seus extratos são capazes de inibir processos inflamatórios em modelos de estudo, o que sustenta o uso tradicional da planta para aliviar desconfortos digestivos. Alguns estudos também exploram um possível papel no alívio de dores articulares e musculares, mas essa aplicação ainda carece de mais evidências em humanos e não deve substituir avaliação médica.

Potencial em Pesquisas Preliminares

Estudos preliminares de laboratório investigam compostos da espinheira-santa, como a friedelina, quanto a uma possível atividade sobre células tumorais cultivadas in vitro. Esses achados são iniciais, restritos a modelos de laboratório, e não permitem qualquer conclusão sobre o uso da planta no tratamento de câncer em humanos. Nenhuma alegação terapêutica contra o câncer tem respaldo científico atual, e o diagnóstico e o tratamento oncológico devem ser sempre conduzidos por um médico especialista.

Chá de Espinheira-Santa

Chá de Espinheira Santa - Maytenus ilicifolia

O chá de espinheira-santa é a forma mais tradicional e popular de consumir a planta, com uso histórico entre os povos indígenas da América do Sul. Pode ser preparado por infusão, com água fervente vertida sobre as folhas, ou por decocção, com as folhas fervidas junto com a água por alguns minutos. O chá é rico em flavonoides, taninos e triterpenos, compostos estudados por seu papel na redução da secreção e da acidez gástrica.

Modo de Preparo

  1. Separe 150 ml de água para cada dose.
  2. Adicione as folhas secas de espinheira-santa e leve para ferver por 5 minutos.
  3. Desligue o fogo e deixe as folhas em contato com a água por mais 15 minutos.
  4. Coe e consuma em até 10 horas após o preparo, sem reaquecer.

Sugestão de Consumo

O uso tradicional é de 150 ml da infusão ou decocção duas horas após o almoço e à noite, podendo chegar a até quatro vezes ao dia. O chá deve ser preparado e consumido no mesmo dia, sem ser reaquecido, para preservar suas propriedades.

Outras Formas de Uso

Além do chá, a espinheira-santa também é utilizada na forma de tinturas, extratos fluidos e cápsulas, cada uma com particularidades quanto ao preparo e à concentração dos princípios ativos. A escolha da forma de uso e da dosagem deve ser orientada por um profissional de saúde, já que pode variar conforme idade, peso e condição de saúde.

Tinturas e Extratos

As tinturas e os extratos fluidos são formas mais concentradas de uso, preparadas a partir da maceração das folhas em álcool ou outro solvente. A dosagem tradicionalmente referida é de 15 a 30 gotas diluídas em água, de duas a três vezes ao dia, mas a concentração varia entre fabricantes; por isso, as instruções do rótulo ou a orientação profissional devem ser sempre seguidas.

Cápsulas

As cápsulas contêm o extrato seco da espinheira-santa, geralmente entre 300 e 500 mg por unidade, com uso tradicional de uma a duas cápsulas por dia. Elas oferecem uma dosagem mais padronizada, mas a posologia deve ser definida por um profissional habilitado.

RENISUS e Reconhecimento Pelo SUS

A espinheira-santa faz parte da Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS) desde 2009, por seu uso consolidado no tratamento de problemas digestivos, com eficácia estudada como comparável à obtida com cimetidina e ranitidina, relacionada à presença de taninos nas folhas. A inclusão na lista amplia o acesso da população a esse tratamento fitoterápico em unidades de saúde, na forma de chás ou fitoterápicos industrializados, além de estimular novas pesquisas clínicas sobre a planta.

Contraindicações e Efeitos Colaterais da Espinheira-Santa

A espinheira-santa é considerada segura para a maioria das pessoas nas doses tradicionais, mas alguns cuidados são importantes.

A planta foi historicamente usada por povos indígenas sul-americanos como abortivo e para evitar a gravidez, propriedade associada à capacidade de estimular contrações uterinas e dificultar a implantação do embrião no útero. Por isso, não deve ser usada por mulheres grávidas, que estejam amamentando ou que desejem engravidar.

Efeitos colaterais são geralmente leves e pouco frequentes, podendo incluir boca seca, dor de cabeça em casos raros, náusea ou sabor residual desagradável; esses sintomas costumam desaparecer com a interrupção do uso ou o ajuste da dosagem. Pessoas com hipersensibilidade conhecida a algum componente da planta devem evitar seu uso, e a segurança em crianças não está estabelecida, portanto seu uso nessa faixa etária não é recomendado sem orientação profissional. Quem faz uso contínuo de outros medicamentos deve consultar um médico antes de iniciar o uso da espinheira-santa.

Cultivo e Colheita da Espinheira-Santa

O cultivo da espinheira-santa tem se expandido além de sua ocorrência natural para atender à crescente demanda pela planta. A Maytenus ilicifolia é uma espécie rústica, que se adapta bem a climas subtropicais e prefere solo areno-argiloso, bem drenado e rico em matéria orgânica.

Propagação e Plantio

A propagação pode ser feita por sementes, processo mais lento e com menor taxa de germinação, ou por estacas retiradas de ramos saudáveis, método mais rápido até o enraizamento. O plantio em campo aberto é recomendado no início da estação chuvosa, para garantir a umidade necessária ao estabelecimento das mudas.

Manejo e Colheita

O manejo da cultura inclui capina regular, adubação orgânica e irrigação em períodos de estiagem, com controle de pragas preferencialmente por métodos biológicos. A colheita das folhas é feita a partir do segundo ano de cultivo, preferencialmente pela manhã, após a secagem do orvalho. As folhas devem secar à sombra, em local ventilado, e depois ser armazenadas em recipientes herméticos, ao abrigo da luz e da umidade, para preservar suas propriedades.

Perguntas Frequentes sobre Espinheira-Santa

Espinheira-Santa Serve para Úlcera Gástrica?

Sim, é reconhecida no Brasil pela RENISUS para esse uso, com eficácia estudada como comparável à de medicamentos como cimetidina e ranitidina, mas o diagnóstico e o acompanhamento devem ser feitos por um médico.

Espinheira-Santa Trata Câncer?

Não há respaldo científico para essa indicação. Estudos preliminares in vitro investigam compostos da planta quanto a uma possível atividade sobre células tumorais em laboratório, mas isso não equivale a um tratamento para câncer em humanos. O diagnóstico e o tratamento oncológico devem ser sempre conduzidos por um médico especialista.

Grávidas Podem Usar Espinheira-Santa?

Não. A planta é contraindicada na gravidez, na amamentação e para quem deseja engravidar, pelo risco de estimular contrações uterinas.

Quantas Vezes ao Dia Posso Tomar Chá de Espinheira-Santa?

O uso tradicional é de até quatro vezes ao dia, 150 ml por vez, mas o ideal é seguir a orientação de um profissional de saúde para o seu caso.

O Chá de Espinheira-Santa Pode Ser Reaquecido?

Não. Ele deve ser consumido em até 10 horas após o preparo, sem reaquecimento, para preservar suas propriedades.

Espinheira-Santa Ajuda a Combater H. Pylori?

Sim, tem ação bacteriostática documentada contra essa bactéria, associada à redução da acidez gástrica e à dificuldade de adesão dela à mucosa do estômago.

Espinheira-Santa Serve para Refluxo?

Estudos sugerem que a espinheira-santa pode ajudar a reduzir a acidez estomacal e a proteger a mucosa, o que auxilia no alívio de sintomas de queimação associados ao refluxo, mas o tratamento do refluxo deve ser acompanhado por um médico.

Existe Interação Medicamentosa com a Espinheira-Santa?

Não há relatos consistentes de interações medicamentosas graves, mas por precaução, quem usa medicamentos de forma contínua deve consultar um médico antes de iniciar o uso da planta.

Espinheira-Santa Serve para Emagrecer?

Não é uma indicação estabelecida. Seus benefícios estudados são digestivos; o eventual efeito sobre o peso seria indireto, ligado à melhora da digestão e à leve ação diurética, e não a uma ação de queima de gordura.

Espinheira-Santa Faz Parte de Alguma Lista Oficial de Plantas Medicinais no Brasil?

Sim, faz parte da Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS) desde 2009.

Referências

13 Referências Citadas

Nível de Evidência: 🥈 Moderado

Baseado em 13 Referências Citadas (5 Peer-Reviewed, 1 Institucional, 7 Complementares).

Ver Todas as 13 Referências Citadas

Estudos Científicos Peer-Reviewed (5)

  1. PMC Bioactive compounds from the leaves of Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek: Inhibition of LDL oxidation, glycation, lipid peroxidation, target enzymes, and microbial growth
  2. PEER Evaluation of antinociceptive, anti-inflammatory and antiulcerogenic activities of Maytenus ilicifolia
  3. PEER Flavonoid-rich fraction of Maytenus ilicifolia Mart. ex. Reiss protects the gastric mucosa of rodents through inhibition of both H+, K+-ATPase activity and formation of prostaglandins
  4. PMC Pharmacological and Toxicological Study of Maytenus ilicifolia Leaf Extract Part II: Clinical Study (Phase I)
  5. PEER Characterization of the chemical profile and the effects of ethanolic extracts of Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek on glucose metabolism in normal hyperglycemic rats

Fontes Institucionais (1)

  1. GOV Use of Maytenus Ilicifolia in the Treatment of Dyspepsia

Leituras Complementares (7)

  1. 2007 Mariot, Márcio Paim, and Rosa Lía Barbieri. O conhecimento popular associado ao uso da espinheira-santa (Maytenus ilicifolia e M. aquifolium). Revista Brasileira de Biociências, 2007;5(S1):666-668.
  2. 2009 Negri, Myrian Lane Soares, João Carlos Possamai, and Tomoe Nakashima. Atividade antioxidante das folhas de espinheira-santa (Maytenus ilicifolia Mart. ex Reiss.), secas em diferentes temperaturas. Revista Brasileira de Farmacognosia, 2009;19:553-556.
  3. 2002 Alberton, Michele Debiasi, Daniel de Barcellos Falkenberg, and Miriam de Barcellos Falkenberg. Análise cromatográfica de fitoterápicos à base de espinheira-santa (Maytenus ilicifolia). Revista Brasileira de Farmacognosia, 2002;12:11-13.
  4. Constituents from Maytenus ilicifolia leaves and bioguided fractionation for gastroprotective activity
  5. Chemical variation of tannins and triterpenes in Brazilian populations of Maytenus ilicifolia Mart. Ex Reiss
  6. Antioxidant and genotoxic properties of Maytenus dasyclada: a comparative study in relation to Maytenus reference species
  7. Congorosa – Arca del Gusto – Slow Food Foundation

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