Dieta e Nutrição

Cogumelos Medicinais: O Que a Ciência Mostra Sobre Reishi, Shiitake e Maitake

Conheça os benefícios, efeitos, história de uso, indicações e propriedades dos cogumelos medicinais, precursores da penicilina e outros fármacos e medicamentos.

Por Conselho Editorial11 Min de Leitura
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Cogumelos
Cogumelos medicinais frescos possuem compostos bioativos que fortalecem o sistema imunológico e promovem a saúde integral do organismo.

Cogumelos medicinais formam uma das tradições terapêuticas mais antigas da Ásia, com reishi, shiitake e maitake usados há séculos na China e no Japão. A pesquisa moderna se interessou sobretudo pelos seus polissacarídeos, os betaglucanos, estudados por efeitos sobre o sistema imune.

Curiosamente, o tema atrai dois públicos opostos: o entusiasmo que promete cura de câncer e o ceticismo que descarta tudo como folclore. Na verdade, a evidência real fica entre os dois, e é mais interessante que ambos.

Este texto reúne as espécies principais, o que a revisão Cochrane concluiu sobre o reishi, os efeitos adversos que quase ninguém menciona e os cuidados de quem compra extratos.

Sumário do Artigo
  1. O Que São Cogumelos Medicinais
  2. O Que a Pesquisa Mostra
  3. Alerta: Efeitos Adversos Documentados
  4. Quem Deve Ter Cautela
  5. Rótulo, Regulação e Qualidade
  6. Como Usar Com Sensatez
  7. Perguntas Frequentes Sobre Cogumelos Medicinais (FAQ)

O Que São Cogumelos Medicinais

São espécies de fungos usadas com finalidade terapêutica, em decocções, pós e extratos, distintas do consumo culinário mesmo quando a espécie é a mesma.

Os compostos mais estudados são os polissacarídeos de parede celular, sobretudo os betaglucanos, além de triterpenos no reishi e de compostos específicos de cada espécie.

As Espécies Mais Conhecidas

  • Cogumelo-do-sol (Agaricus subrufescens, também citado como Agaricus blazei): espécie de origem brasileira com ensaios clínicos pequenos
  • Juba-de-leão (Hericium erinaceus): pesquisado em contextos cognitivos, em estágio inicial
  • Maitake (Grifola frondosa): comestível apreciado e objeto de pesquisa imunológica
  • Reishi (Ganoderma lucidum): o clássico da tradição chinesa, amargo e lenhoso, usado em decocção e extrato
  • Shiitake (Lentinula edodes): alimento e fonte do lentinano, polissacarídeo estudado em oncologia no Japão

A Química Que Sustenta a Pesquisa

Os betaglucanos respondem por parcela alta do peso seco. Uma análise de corpos de frutificação de espécies australianas de Ganoderma achou teores entre 19,5% e 43,5%, ao lado de triterpenos do tipo lanostano, entre eles o ácido ganodérico A.

O shiitake tem carta própria, a eritadenina, já quantificada em diferentes linhagens do fungo. A redução de colesterol atribuída a ela vem de laboratório e de animais, não de desfechos clínicos.

Há ainda o ergosterol, que a luz ultravioleta converte em vitamina D2: num ensaio com adultos deficientes, a irradiação UV-B levou o teor do cogumelo de menos de 1 para 491 microgramas por 100 gramas.

O Que a Pesquisa Mostra

A literatura é vasta em laboratório e bem mais modesta em gente, e o caso do reishi ilustra a proporção.

Reishi e Câncer: o Que Diz a Cochrane

Uma revisão Cochrane avaliou o Ganoderma lucidum no tratamento do câncer e concluiu que não há evidência suficiente para justificar seu uso como tratamento de primeira linha, permanecendo incerto se prolonga a sobrevida.

A mesma revisão registra o outro lado: o reishi poderia ser considerado como adjunto alternativo ao tratamento convencional, pelo potencial de melhorar a resposta tumoral e estimular a imunidade, tendo sido bem tolerado nos estudos.

Ou seja, nem cura milagrosa, nem placebo inútil: um possível coadjuvante, sempre somado ao tratamento oncológico e com conhecimento da equipe, nunca no lugar dele.

Imunidade

Os betaglucanos têm efeitos imunomodulatórios documentados em laboratório e em pequenos ensaios, e revisões sobre oncologia integrativa discutem esse papel. Ainda assim, a distância entre modular marcadores imunes e prevenir doenças em pessoas saudáveis permanece sem ponte clínica sólida.

O Lentinano do Shiitake

Já no Japão, o lentinano purificado tem histórico de uso adjuvante em oncologia, licenciado como modificador de resposta biológica para câncer gástrico e aplicado em hospital, junto da quimioterapia.

O dado mais consistente vem de uma meta-análise de dados individuais de 650 pacientes com câncer gástrico irressecável ou recorrente, em cinco ensaios randomizados: somar lentinano à quimioterapia se associou a ganho de sobrevida global, com razão de risco de 0,80 e intervalo de confiança de 95% entre 0,68 e 0,95.

A distinção importa: nada disso equivale a comer shiitake nem a tomar cápsula, porque o que se testou foi um composto purificado, dosado e aplicado por equipe médica.

Cogumelo-do-Sol

A espécie brasileira tem ensaios pequenos e resultados menos animadores que a fama sugere. O estudo randomizado duplo-cego mais citado deu 900 miligramas diários de extrato seco a 57 mulheres idosas por 60 dias, sem mudança nos níveis de interleucina-6, interferon-gama e fator de necrose tumoral alfa.

Ou seja, a fama de anticancerígeno que carrega no Brasil ultrapassa em muito essa base.

Alerta: Efeitos Adversos Documentados

A imagem de inocuidade dos cogumelos não sobrevive à literatura.

Fígado: Reishi em Pó e Cogumelo-do-Sol

Há relatos de caso de hepatotoxicidade associada ao consumo de reishi em pó, incluindo um caso fatal de hepatite fulminante descrito na literatura médica asiática.

O padrão que se repete nos relatos é o uso prolongado do pó, forma que concentra a exposição. Qualquer icterícia, urina escura ou cansaço incomum durante o uso pede suspensão e avaliação imediatas.

O cogumelo-do-sol acumula relatos parecidos. Uma série do Japanese Journal of Clinical Oncology descreve três pacientes oncológicos com dano hepático grave durante o uso do extrato, dois deles mortos por hepatite fulminante, e uma paciente que piorou de novo ao retomar o produto.

A Dermatite do Shiitake

O shiitake cru ou malcozido pode causar a dermatite flagelada, uma erupção linear característica descrita em revistas de dermatologia e medicina interna. O cozimento completo do cogumelo previne o quadro.

Interações

  • Anticoagulantes e antiplaquetários, por efeitos descritos sobre agregação plaquetária, sobretudo com reishi em doses altas
  • Hipoglicemiantes, por efeitos descritos sobre glicemia
  • Imunossupressores, pela lógica oposta: estimular imunidade pode antagonizar o objetivo do tratamento em transplantados e pacientes autoimunes
  • Quimioterapia, em que qualquer suplemento deve passar pelo oncologista antes

Em laboratório, triterpenos do reishi inibiram sete enzimas do citocromo P450, entre elas a CYP3A4, e alteraram a farmacocinética de quatro medicamentos em ratos. Nada foi confirmado em pessoas: é motivo para avisar quem prescreve, não interação comprovada.

Quem Deve Ter Cautela

  • Crianças, sem orientação profissional
  • Gestantes e lactantes, por ausência de dados de segurança
  • Pacientes em quimioterapia ou imunoterapia, sem aval do oncologista
  • Pessoas alérgicas a fungos
  • Pessoas com cirurgia marcada, pelo efeito antiplaquetário descrito
  • Pessoas com doença hepática, pelos relatos com reishi em pó
  • Pessoas transplantadas ou com doenças autoimunes em tratamento

Rótulo, Regulação e Qualidade

No Brasil, cogumelo em cápsula ou pó circula como suplemento alimentar, categoria que a RDC 243/2018 da Anvisa reserva a produtos para complementar a alimentação de pessoas saudáveis. A norma veda rótulo com finalidade medicamentosa e obriga a advertência “Este produto não é um medicamento”. O contraste com o lentinano japonês, de uso hospitalar, resume a diferença.

Resta saber o que existe dentro do frasco. Um levantamento na Scientific Reports analisou 19 lotes de suplementos de reishi vendidos nos Estados Unidos e achou apenas 26,3% de acordo com o próprio rótulo.

Como Usar Com Sensatez

Como alimento, shiitake e maitake bem cozidos são escolhas excelentes, saborosas e seguras para a maioria.

Para extratos e pós, a qualidade varia muito entre produtos, e o rótulo deve trazer espécie, parte utilizada e concentração. Períodos definidos de uso, com pausa e observação, são mais sensatos que o consumo contínuo indefinido.

Por fim, a regra de ouro em oncologia: qualquer suplemento, cogumelo incluído, entra na conversa com a equipe antes de entrar na rotina.

Perguntas Frequentes Sobre Cogumelos Medicinais (FAQ)

Cogumelo Cura Câncer?

Não. A revisão Cochrane sobre o reishi concluiu que não há evidência que justifique uso como tratamento de primeira linha. O que ela admite é o papel de possível adjunto ao tratamento convencional, com conhecimento da equipe oncológica.

Qual o Cogumelo Mais Estudado?

O reishi (Ganoderma lucidum) concentra o maior volume de pesquisa, incluindo a revisão Cochrane em câncer. O lentinano do shiitake tem histórico hospitalar no Japão, em forma purificada e injetável, distinta das cápsulas.

Reishi Faz Mal Para o Fígado?

Há relatos de caso de hepatotoxicidade com o consumo prolongado de reishi em pó, incluindo um caso fatal. Icterícia, urina escura ou cansaço incomum durante o uso pedem suspensão e avaliação imediatas.

Shiitake Cru Faz Mal?

Pode causar a dermatite flagelada, uma erupção linear característica descrita na literatura dermatológica. O cozimento completo previne o quadro, e o cogumelo bem cozido é alimento seguro.

Quem Faz Quimioterapia Pode Tomar?

Só com aval do oncologista. Além das interações possíveis, estimular a imunidade pode interferir com tratamentos específicos, e a equipe precisa saber de qualquer suplemento em uso.

Cogumelo-do-Sol É Comprovado?

A espécie brasileira tem ensaios pequenos e iniciais, sem confirmação robusta. A fama de anticancerígeno que carrega ultrapassa em muito a base disponível, e nenhum uso substitui tratamento estabelecido.

Transplantado Pode Usar Cogumelos Medicinais?

Não sem orientação. O estímulo imune descrito para os betaglucanos vai na direção contrária da imunossupressão necessária após o transplante, e a conversa com a equipe é indispensável.

Qual a Diferença Entre Comer o Cogumelo e Tomar Extrato?

O alimento bem cozido entrega nutrientes em quantidades moderadas e é seguro para a maioria. Extratos e pós concentram compostos e exposição, o que amplia tanto o interesse quanto os riscos, como mostram os relatos hepáticos com o pó de reishi.

Cogumelo Tem Vitamina D?

Tem o precursor. O ergosterol vira vitamina D2 sob luz ultravioleta, e um ensaio randomizado mostrou que cogumelos irradiados elevaram a 25-hidroxivitamina D de adultos deficientes em ritmo próximo ao de um suplemento de D2.

Extrato de Cogumelo Entrega o Que Diz o Rótulo?

Nem sempre. Na análise de 19 lotes vendidos nos Estados Unidos, só 26,3% correspondiam ao rótulo. Espécie, parte usada, teor de betaglucano e laudo são o mínimo a exigir.

Referências Científicas

16 Referências Citadas

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Baseado em 16 Referências Citadas (15 Peer-Reviewed, 1 Institucional).

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Estudos Científicos Peer-Reviewed (15)

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  4. PMC2004 “Hepatotoxicity due to a formulation of Ganoderma lucidum (lingzhi).” Journal of Hepatology, 2004. .
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  12. PMC2024 “Distributions of Lanostene-Derived Triterpenoids and Glucan Content in the Fruiting Bodies of the Australian Ganoderma Species.” Journal of Fungi, 2024. .
  13. PMC2024 Li, D., et al. “Triterpenoids from Ganoderma lucidum inhibit cytochrome P450 enzymes interfering with the metabolic process of specific clinical drugs.” Frontiers in Pharmacology, 2024. .
  14. PMC2017 Wu, D. T., et al. “Evaluation on quality consistency of Ganoderma lucidum dietary supplements collected in the United States.” Scientific Reports, 2017. .
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Fontes Institucionais (1)

  1. GOV2018 Anvisa. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 243, de 26 de julho de 2018. https://anvisalegis.datalegis.net/.

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