Poucos compostos naturais colecionaram tantas manchetes otimistas quanto o resveratrol. Desde a década de 1990, o nome aparece ligado a coração saudável, longevidade e vinho tinto, quase sempre com tom de descoberta definitiva. A literatura científica, no entanto, conta uma história bem mais contida: existe muita pesquisa de laboratório interessante e pouca evidência clínica robusta em seres humanos.
Este texto reúne o que se sabe até aqui, com atenção especial ao detalhe que costuma sumir das reportagens: a biodisponibilidade oral do composto é extremamente baixa, o que dificulta transformar resultados de bancada em efeitos mensuráveis no organismo humano. Quem quer entender o assunto sem promessas infladas encontra a seguir a cronologia da descoberta, os ensaios clínicos disponíveis, os mecanismos observados em cultura de células e os pontos de segurança que pedem conversa com profissional de saúde antes de qualquer suplementação.
Sumário do Artigo
- O Que É o Resveratrol
- História e Descoberta do Composto
- O Paradoxo Francês em Perspectiva
- Mecanismos de Ação Observados em Laboratório
- A Barreira da Biodisponibilidade
- Saúde Cardiovascular e Evidência Clínica Disponível
- Pesquisa Oncológica e o Que Ela Não Autoriza Concluir
- Envelhecimento e Longevidade em Análise
- Saúde Metabólica e Diabetes
- Fontes Naturais de Resveratrol
- Suplementos de Resveratrol e Seus Limites
- Segurança, Interações e Contraindicações
- Perguntas Frequentes
O Que É o Resveratrol
O resveratrol é um polifenol do grupo dos estilbenos, produzido por certas plantas como parte do sistema de defesa contra agressões do ambiente, entre elas fungos, lesões mecânicas e radiação ultravioleta. Quimicamente, trata-se do 3,5,4′-tri-hidroxiestilbeno, molécula que existe em duas formas isoméricas, a cis e a trans. A forma trans é a mais estudada e a mais estável, sendo também a que predomina nos extratos comerciais.
Nas plantas, o composto funciona como fitoalexina, substância sintetizada em resposta a estresse, e videiras atacadas por fungos aumentam a produção na casca das uvas. Essa origem defensiva explica por que o teor varia tanto entre lotes de um mesmo alimento, já que clima, exposição solar, pressão de doenças e tempo de colheita alteram o resultado final.
Do ponto de vista nutricional, o resveratrol não é nutriente essencial: ninguém desenvolve carência dele, e não há recomendação diária estabelecida por órgãos de referência. Trata-se de um composto bioativo da dieta, categoria de substâncias com atividade biológica demonstrada em pesquisa, porém sem necessidade fisiológica comprovada.
História e Descoberta do Composto
A primeira descrição do resveratrol na literatura científica data de 1940. Naquele ano, o pesquisador japonês Michio Takaoka isolou a substância a partir das raízes de Veratrum grandiflorum, planta da família Melanthiaceae nativa do leste asiático. O nome do composto combina justamente o gênero Veratrum com o resorcinol, anel di-hidroxilado presente na estrutura da molécula.
Muitos textos de divulgação erram esse ponto, inclusive em português: a espécie do isolamento original foi Veratrum grandiflorum, e não Veratrum album, o heléboro-branco europeu. As duas plantas pertencem ao mesmo gênero, mas se trata de espécies distintas, e a atribuição equivocada se repete de artigo em artigo há décadas.
Em 1963, Nonomura e colaboradores obtiveram resveratrol de Polygonum cuspidatum, nome ainda corrente na literatura farmacológica e hoje tratado pela taxonomia como sinônimo de Reynoutria japonica, erva-daninha asiática de crescimento agressivo cuja raiz recebe o nome de ko-jo-kon no Japão. Essa foi a virada prática da história do composto, porque a espécie é abundante, concentra a substância em quantidade muito superior à das uvas e cresce rápido. Até hoje, a maior parte dos suplementos vendidos no mundo usa extrato dessa raiz como matéria-prima, e não extrato de uva.
O salto para a cultura popular veio em 1992, quando Siemann e Creasy relataram a presença de resveratrol em vinhos tintos. A descoberta caiu em terreno fértil, com os meios de comunicação já discutindo o chamado paradoxo francês. Dali em diante, o composto passou a ser tratado como explicação bioquímica de um fenômeno epidemiológico complexo, associação que a pesquisa posterior não sustentou.
O Paradoxo Francês em Perspectiva
O paradoxo francês nasceu da observação de que a França apresentava taxas relativamente baixas de doença coronariana apesar de uma dieta rica em gordura saturada. Como o consumo de vinho tinto era alto no país, a bebida virou candidata a fator protetor, e o resveratrol virou candidato a molécula responsável.
A aritmética, porém, não colabora. O teor de resveratrol no vinho tinto costuma ficar na casa de poucos miligramas por litro, com variação conforme a casta, o método de vinificação e a região produtora. Estudos que observaram efeitos metabólicos em humanos usaram doses de centenas de miligramas por dia, quantidade que exigiria consumo diário de dezenas de litros de vinho. Weiskirchen e Weiskirchen abordaram exatamente essa questão em 2016, e a conclusão foi direta: não existe volume de vinho compatível com saúde que entregue as doses dos ensaios.
Existe ainda um problema de causalidade. O etanol é um carcinógeno reconhecido e um fator de risco para arritmias, doença hepática e hipertensão, de modo que qualquer eventual ganho atribuído a polifenóis precisa ser descontado do dano da própria bebida. A epidemiologia mais recente atribui o padrão francês a uma combinação de fatores, entre eles diferenças metodológicas no registro de óbitos, hábitos alimentares regionais, nível de atividade física e padrões de refeição. Portanto, o paradoxo francês hoje é tratado como hipótese parcialmente desacreditada, e não como prova de que um único composto protege o coração.
Mecanismos de Ação Observados em Laboratório
A maior parte do entusiasmo com o resveratrol vem de experimentos in vitro, isto é, de culturas de células expostas diretamente ao composto, e de modelos animais. Meng e colaboradores, em revisão de 2020, catalogaram um conjunto amplo de vias moleculares afetadas nesse tipo de ensaio, achados reais dentro do contexto em que foram obtidos, embora descrevam o comportamento de células em placa, não o de um organismo que digere, absorve e metaboliza a substância.
Sirtuínas e a Hipótese da SIRT1
O mecanismo mais citado envolve a ativação da SIRT1, enzima da família das sirtuínas ligada à regulação do metabolismo energético e da resposta celular ao estresse. Como as sirtuínas também são ativadas por restrição calórica, surgiu a ideia sedutora de um composto capaz de imitar os efeitos do jejum sem redução de calorias. Trabalhos posteriores questionaram parte desse modelo, sugerindo que a ativação observada dependia do sistema de teste utilizado e que a via AMPK poderia ser o alvo intermediário. Em síntese, a hipótese da SIRT1 permanece em debate no meio científico, longe de ser mecanismo confirmado em humanos.
Ação Antioxidante e Modulação Inflamatória
Em cultura, o resveratrol neutraliza espécies reativas de oxigênio e interfere na via do NF-kB, fator de transcrição central na resposta inflamatória. Kuršvietienė e colaboradores descreveram esse conjunto de efeitos em 2016, incluindo modulação de citocinas e de enzimas antioxidantes endógenas. Ainda assim, a potência antioxidante medida em tubo de ensaio tem valor preditivo limitado, pois o organismo dispõe de sistemas próprios de defesa e a concentração que chega aos tecidos é ordens de grandeza menor que a usada nos experimentos.
A Barreira da Biodisponibilidade
Aqui está o ponto que reorganiza a leitura de todo o restante deste texto. O resveratrol é bem absorvido no intestino, com taxas de absorção que passam de setenta por cento em alguns estudos, mas quase nada permanece na forma livre e ativa. A conjugação com glicuronídeos e sulfatos ocorre na parede intestinal e no fígado antes que o composto alcance a circulação sistêmica, e a meia-vida do resveratrol livre no plasma se conta em poucos minutos; são os conjugados formados nesse processo que persistem por horas. Salehi e colaboradores discutiram essa limitação em 2018, ao tratar o composto como uma faca de dois gumes cujo desempenho farmacocinético compromete a aplicação clínica.
A consequência prática é incômoda para o marketing de suplementos. Concentrações que produzem efeitos espetaculares em placa de cultura raramente são alcançadas no plasma humano com doses orais realistas, e boa parte dos experimentos de bancada usa concentrações suprafisiológicas, isto é, acima do que o corpo consegue atingir. Por isso, cada mecanismo descrito acima deve ser lido como possibilidade biológica em investigação, e não como efeito esperado de uma cápsula tomada no café da manhã.
Guarde esse dado, porque ele reaparece em todas as áreas de pesquisa tratadas a seguir. Cardiologia, oncologia, metabolismo e envelhecimento esbarram no mesmo obstáculo: entre o resultado de laboratório e o efeito no corpo humano existe uma barreira farmacocinética que nenhuma das promessas comerciais resolveu até agora.
Saúde Cardiovascular e Evidência Clínica Disponível
Os ensaios em humanos que investigaram desfechos cardiovasculares produziram resultados mistos, e a limitação farmacocinética descrita acima ajuda a entender por quê. Ramírez-Garza e colaboradores revisaram intervenções clínicas em 2018 e encontraram sinais modestos em marcadores intermediários, com efeitos inconsistentes sobre o perfil lipídico, melhora discreta de função endotelial em alguns grupos e redução pequena de pressão arterial em subgrupos de risco.
Modesto é a palavra certa aqui, pois os estudos costumam ser curtos, heterogêneos e pequenos, com variação de dose, formulação e população que dificulta a comparação direta entre eles. Nenhum ensaio de grande porte demonstrou redução de eventos duros, como acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio ou morte cardiovascular, e é esse tipo de desfecho que define utilidade clínica de verdade.
Existe também um padrão recorrente na literatura: quando o efeito aparece, ele tende a surgir em pessoas com alteração metabólica prévia, como diabetes tipo 2 ou síndrome metabólica, enquanto voluntários saudáveis costumam apresentar resultados nulos. Qualquer benefício eventual parece depender, portanto, de contexto clínico específico ainda não confirmado em estudos maiores.
Pesquisa Oncológica e o Que Ela Não Autoriza Concluir
Em modelos de laboratório, o resveratrol interfere em processos relevantes para a biologia tumoral, entre eles angiogênese, apoptose e progressão do ciclo celular. Linhagens celulares de tumores diversos respondem ao composto com redução de proliferação, e alguns modelos animais mostraram diminuição do crescimento tumoral. Nada disso, contudo, se converteu em terapia.
Berman e colaboradores revisaram em 2017 os ensaios clínicos publicados até então e identificaram o gargalo com clareza. As concentrações necessárias para reproduzir os efeitos observados em cultura não são atingidas nos tecidos humanos com suplementação oral, e os estudos em pacientes foram majoritariamente de fase inicial, desenhados para avaliar segurança e farmacocinética, não eficácia. Um dos poucos ensaios de fase 2 com dose alta terminou antes do previsto por casos graves de insuficiência renal, episódio retomado adiante na seção de segurança.
O recado precisa ser explícito, principalmente em um assunto tão sensível. O resveratrol não é tratamento para câncer, não substitui nenhuma terapia oncológica e não deve ser adotado por conta própria durante tratamento em curso, inclusive porque interações com quimioterápicos são plausíveis e pouco estudadas. Quem enfrenta um diagnóstico oncológico precisa de acompanhamento de equipe especializada, e qualquer suplemento deve passar pelo crivo do oncologista responsável.
Envelhecimento e Longevidade em Análise
A fama de composto antienvelhecimento nasceu de experimentos com organismos simples. Leveduras, moscas e nematoides expostos ao resveratrol apresentaram aumento de tempo de vida em alguns protocolos, resultado que rendeu manchetes e financiamento. Tentativas de replicação em outros laboratórios, porém, produziram resultados contraditórios, e a extrapolação de espécies com fisiologia tão distinta da humana já seria frágil mesmo sem essa controvérsia.
Em camundongos, o efeito mais consistente apareceu em animais alimentados com dieta rica em gordura, nos quais o composto atenuou parte do dano metabólico, ao passo que roedores em dieta normal não viveram mais. Esse detalhe delimita o achado: houve mitigação parcial de um dano induzido, e não extensão de longevidade em condições saudáveis.
Do lado humano, o trabalho mais citado é o de Timmers e colaboradores, publicado em 2011, que administrou cento e cinquenta miligramas diários de resveratrol a onze homens obesos durante trinta dias e registrou alterações no metabolismo energético descritas como semelhantes às da restrição calórica. O estudo é curto, pequeno e restrito a um perfil específico de participante, portanto não sustenta conclusões sobre expectativa de vida. Pesa ainda a exposição sistêmica reduzida da via oral, que aumenta a distância entre o efeito visto em bancada e o efeito possível em quem toma cápsula. A Harvard Health Publishing já resumia a situação em 2012, ao apontar que o entusiasmo em torno do composto seguia maior que as evidências capazes de sustentá-lo.
Saúde Metabólica e Diabetes
Entre todas as áreas investigadas, o metabolismo da glicose é a que reúne os sinais mais interessantes, embora ainda inconclusivos. Ghanim e colaboradores conduziram em 2010 um ensaio com extrato de Polygonum cuspidatum fornecendo quarenta miligramas diários de resveratrol e observaram redução de marcadores inflamatórios e supressão de espécies reativas de oxigênio, com efeito sobre a via do NF-kB compatível com o que se via em laboratório. O desenho, contudo, limita a leitura: participaram vinte adultos saudáveis e de peso normal, durante seis semanas, de modo que o resultado indica plausibilidade biológica e não benefício demonstrado em quem convive com diabetes.
Outros ensaios investigaram glicemia de jejum, hemoglobina glicada e sensibilidade à insulina em pessoas com diabetes tipo 2, e o conjunto de resultados é francamente heterogêneo. Algumas metanálises encontraram reduções pequenas de glicemia de jejum, outras não encontraram diferença em relação ao placebo, e a variação de dose entre os protocolos, que vai de poucas dezenas a mais de mil miligramas diários, ajuda a explicar a divergência. Some-se a isso a conjugação rápida já descrita, que faz a fração realmente ativa no plasma mudar bastante entre formulações e entre indivíduos.
Para quem convive com diabetes, a leitura prática é conservadora. Nenhum suplemento de resveratrol substitui ajuste alimentar, medicação prescrita ou monitoramento glicêmico, e a combinação com hipoglicemiantes exige acompanhamento, já que efeitos aditivos sobre a glicemia são teoricamente possíveis.
Fontes Naturais de Resveratrol
O composto aparece em quantidades pequenas e bastante variáveis em alimentos vegetais. As fontes alimentares mais citadas incluem amendoim, amora, cacau, mirtilo, pistache e uva, com destaque para a casca das uvas escuras. O suco de uva integral contém o composto, ainda que em teor geralmente inferior ao do vinho tinto, porque a maceração prolongada com as cascas durante a vinificação extrai mais polifenóis.
Fora da alimentação, a fonte de maior concentração continua sendo a raiz de Polygonum cuspidatum, empregada há séculos na medicina tradicional chinesa e japonesa e usada hoje como matéria-prima industrial. Nenhum desses alimentos, isoladamente, fornece as doses testadas em pesquisa, o que não os torna menos valiosos: frutas vermelhas, oleaginosas e uvas entregam fibras, minerais e vitaminas, além de centenas de outros polifenóis que atuam em conjunto.
Essa é, aliás, a diferença de raciocínio entre dieta e suplemento, pois padrões alimentares ricos em vegetais mostram associação consistente com melhores desfechos em estudos populacionais, enquanto compostos isolados desses mesmos alimentos raramente reproduzem o efeito quando testados sozinhos.
Suplementos de Resveratrol e Seus Limites
Os suplementos comerciais costumam trazer trans-resveratrol obtido de Polygonum cuspidatum, em doses que variam de cinquenta a quinhentos miligramas por cápsula, com produtos que ultrapassam esse patamar. A variação de qualidade entre marcas é um problema documentado, com diferenças relevantes entre o teor declarado no rótulo e o teor real, além de diferenças na proporção entre as formas cis e trans.
A biodisponibilidade limitada motivou o desenvolvimento de formulações alternativas. Existem produtos com micronização, com nanoencapsulamento e com piperina, alcaloide da pimenta-preta que inibe enzimas de conjugação e pode elevar a concentração plasmática do composto. Tais estratégias aumentam a exposição sistêmica em estudos farmacocinéticos, porém não há demonstração de que essa exposição maior se traduza em benefício clínico superior, e a piperina interfere no metabolismo de diversos medicamentos, o que adiciona risco de interação.
Quem considera o uso deve tratar a decisão com o mesmo cuidado aplicado a um medicamento, verificando dose por cápsula, laudo de análise, procedência do fabricante e registro do produto, além de levar o rótulo à consulta médica ou com nutricionista antes de iniciar o uso contínuo.
Segurança, Interações e Contraindicações
Em doses baixas e por períodos curtos, o resveratrol costuma ser bem tolerado. Shaito e colaboradores revisaram em 2020 os efeitos adversos relatados na literatura e mostraram que o perfil de segurança muda conforme a dose sobe. Em protocolos com um grama ou mais por dia, aumentam os relatos de cólicas abdominais, diarreia, flatulência e náusea, sintomas que levaram à interrupção de participantes em ensaios clínicos.
O episódio mais grave registrado em pesquisa clínica veio de um ensaio oncológico de fase 2 com formulação micronizada em dose alta. Cinco participantes com mieloma múltiplo desenvolveram insuficiência renal, dois precisaram de hemodiálise temporária e o estudo foi encerrado antes do previsto, conforme relataram Popat e colaboradores em 2013. Boa parte desses pacientes já apresentava comprometimento renal prévio, e a desidratação provocada por vômito e diarreia intensos agravou o quadro, contexto que explica o evento sem torná-lo irrelevante: dose alta em organismo fragilizado não é território seguro.
A interação de maior gravidade envolve fármacos que afetam a coagulação. O resveratrol inibe a agregação plaquetária e ainda interfere em enzimas do citocromo P450 responsáveis pela depuração de vários medicamentos, de modo que o uso concomitante com antiagregantes plaquetários, anticoagulantes como a varfarina e anti-inflamatórios não esteroides pode aumentar o risco de sangramento. Pessoas em uso desses medicamentos não devem iniciar a suplementação sem avaliação médica, e o mesmo cuidado vale no período que antecede procedimentos cirúrgicos, quando a suspensão prévia costuma ser recomendada.
Há ainda o capítulo da atividade estrogênica, já que o composto apresenta afinidade por receptores de estrogênio em modelos experimentais, ora como agonista, ora como antagonista, conforme o tecido e a concentração. Diante dessa ambiguidade, pessoas com histórico de tumores hormônio-dependentes precisam de orientação individualizada.
Crianças, gestantes e lactantes não devem usar suplementos de resveratrol, porque faltam dados de segurança nessas populações. A ausência de estudos não significa ausência de risco, e a regra prudente em situações desse tipo é não expor grupos vulneráveis a compostos sem histórico de avaliação adequada. Portadores de doença hepática ou renal também merecem avaliação prévia, tanto porque o metabolismo e a eliminação do composto dependem desses órgãos quanto pelo histórico de lesão renal descrito acima.
Perguntas Frequentes
O Resveratrol Realmente Aumenta a Longevidade?
Não existe evidência de que a suplementação prolongue a vida humana. O que se observou foi extensão de tempo de vida em organismos simples, com resultados difíceis de replicar, e alterações metabólicas em estudos curtos com poucos participantes. Longevidade é um desfecho que exige décadas de acompanhamento, e nenhum estudo desse porte foi realizado com o composto.
Quanto Vinho Tinto Seria Preciso Beber para Alcançar as Doses dos Estudos?
Quantidades incompatíveis com qualquer noção de saúde, na casa de dezenas de litros por dia. O teor de resveratrol no vinho tinto é de poucos miligramas por litro, enquanto os ensaios usaram centenas de miligramas diários. Somado ao dano conhecido do álcool, o cálculo elimina o vinho como estratégia de obtenção do composto.
Suplementos de Resveratrol Funcionam Melhor que os Alimentos?
Suplementos entregam doses maiores, mas dose maior não equivale a benefício comprovado. A biodisponibilidade baixa limita quanto do composto circula em forma ativa, e os ensaios clínicos com cápsulas produziram resultados mistos. Alimentos como amendoim, frutas vermelhas e uvas oferecem o composto em um conjunto nutricional mais amplo, com evidência populacional favorável.
Qual É a Dose Usada nas Pesquisas com Humanos?
A variação é enorme, indo de cerca de cinquenta miligramas a mais de mil miligramas por dia, o que dificulta comparar estudos entre si. Doses acima de um grama diário se associam a mais efeitos gastrointestinais. Não existe dose padronizada com eficácia estabelecida, e essa é justamente uma das lacunas apontadas nas revisões da área.
O Resveratrol Serve para Tratar Câncer?
Não. A atividade antitumoral descrita ocorre em células cultivadas e em modelos animais, com concentrações que não são atingidas em tecidos humanos por via oral. Os ensaios clínicos publicados foram de fase inicial e não demonstraram eficácia terapêutica. Tratamento oncológico requer equipe especializada, e qualquer suplemento precisa ser aprovado pelo médico responsável.
Quem Toma Anticoagulante Pode Usar Resveratrol?
Não sem avaliação médica. O composto inibe a agregação plaquetária e pode somar efeito à varfarina e a outros medicamentos que interferem na coagulação, elevando o risco de sangramento. A mesma cautela se aplica a anti-inflamatórios de uso contínuo e ao período que antecede cirurgias, quando costuma haver recomendação de suspensão.
Gestantes e Lactantes Podem Tomar Resveratrol?
A recomendação é não usar. Faltam estudos de segurança em gestação e amamentação, e existe atividade estrogênica descrita em modelos experimentais que aumenta a incerteza. Consumir uvas e outras frutas que contêm o composto naturalmente segue sendo adequado dentro de uma alimentação equilibrada, o que é bem diferente de tomar cápsulas concentradas.
Quais São os Efeitos Colaterais Mais Comuns?
Em doses moderadas, o composto costuma ser bem tolerado. Conforme a dose aumenta, especialmente acima de um grama por dia, tornam-se frequentes cólicas abdominais, diarreia, flatulência e náusea. Houve ainda casos graves de insuficiência renal em um ensaio oncológico de dose alta com pacientes já debilitados, motivo suficiente para não improvisar dosagem e para manter acompanhamento profissional em qualquer uso prolongado.
Referências
Ver Todas as 11 Referências Citadas
- 2017 Berman, A. Y., Motechin, R. A., Wiesenfeld, M. Y., & Holz, M. K. (2017). The therapeutic potential of resveratrol: a review of clinical trials. NPJ Precision Oncology, 1, 35.
- 2010 Ghanim, H., Sia, C. L., Abuaysheh, S., Korzeniewski, K., Patnaik, P., Marumganti, A., Chaudhuri, A., & Dandona, P. (2010). An antiinflammatory and reactive oxygen species suppressive effects of an extract of Polygonum cuspidatum containing resveratrol. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 95(9), E1-E8.
- 2012 Harvard Health Publishing. (2012). Resveratrol: the hype continues. Harvard Medical School.
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- 2018 Ramírez-Garza, S. L., Laveriano-Santos, E. P., Marhuenda-Muñoz, M., Storniolo, C. E., Tresserra-Rimbau, A., Vallverdú-Queralt, A., & Lamuela-Raventós, R. M. (2018). Health effects of resveratrol: results from human intervention trials. Nutrients, 10(12), 1892.
- 2018 Salehi, B., Mishra, A. P., Nigam, M., Sener, B., Kilic, M., Sharifi-Rad, M., Fokou, P. V. T., Martins, N., & Sharifi-Rad, J. (2018). Resveratrol: a double-edged sword in health benefits. Biomedicines, 6(3), 91.
- 2020 Shaito, A., Posadino, A. M., Younes, N., Hasan, H., Halabi, S., Alhababi, D., Al-Mohannadi, A., Abdel-Rahman, W. M., Eid, A. H., Nasrallah, G. K., & Pintus, G. (2020). Potential adverse effects of resveratrol: a literature review. International Journal of Molecular Sciences, 21(6), 2084.
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- 2016 Weiskirchen, S., & Weiskirchen, R. (2016). Resveratrol: how much wine do you have to drink to stay healthy? Advances in Nutrition, 7(4), 706-718.






