Plantas Comestíveis

Salicórnia (Salicornia perennis): Sódio, Usos e Cuidados

A salicórnia perene tem gosto salgado porque acumula sódio. Veja o que os estudos mostram sobre o sal verde, quem deve evitá-la e por que a origem da planta importa.

Por Conselho Editorial15 Min de Leitura
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Touceira de salicórnia (Salicornia perennis) com ramos verdes suculentos e segmentados, em ambiente rochoso

A salicórnia perene, Salicornia perennis Mill., é uma planta suculenta de marismas e praias de cascalho da Europa e da África, de caules articulados e gosto salgado, que chegou aos restaurantes como acompanhamento de peixes e, seca e moída, como sal verde. O sabor vem do sal que ela acumula nos tecidos: em pó, a planta tem pouco mais de 7 gramas de sódio a cada 100 gramas (Pereira e colegas, 2022), e por isso não pode ser tratada como tempero livre de sódio.

A pesquisa em pessoas com essa espécie se resume a um ensaio piloto com 30 jovens saudáveis, no qual a troca do sal pelo pó baixou a pressão arterial, mas os próprios autores avisam que o resultado não vale para quem tem hipertensão (Pereira e colegas, 2022). A seguir, como reconhecer a planta, o que ela contém e quais cuidados valem para quem precisa controlar o sódio ou pensa em colhê-la no litoral.

Sumário do Artigo
  1. Identificação Botânica e Nomes
  2. Aspecto e Habitat
  3. Composição e Teor de Sódio
  4. O Que Dizem os Estudos
  5. Usos Tradicionais
  6. Como Preparar e Consumir
  7. Contraindicações e Cuidados
  8. Perguntas Frequentes

Identificação Botânica e Nomes

O nome aceito é Salicornia perennis Mill., da família Amaranthaceae (POWO), a mesma da beterraba e do espinafre. Descrita por Philip Miller no gênero Salicornia, a espécie passou a Sarcocornia em 1978 e voltou ao gênero original em 2017, quando análises de DNA mostraram que Sarcocornia não formava um grupo natural separado de Salicornia (Piirainen e colegas, 2017), o que explica por que fotos, textos mais antigos e até revisões recentes, como a de Custódio e colegas (2021), ainda usam o nome Sarcocornia perennis (Miller) A.J. Scott.

No comércio, o nome salicórnia também cobre espécies anuais, como Salicornia ramosissima, e em Portugal as formas perenes e anuais são vendidas juntas como espargo-do-mar (Custódio e colegas, 2021), nome português que não indica parentesco com o aspargo (Asparagus officinalis), também chamado de espargo. A salicórnia também não deve ser confundida com a salicária (Lythrum salicaria), planta de nome parecido, de outra família e com outros usos. A perene vive vários anos, tem a base dos ramos lenhosa e, na península Ibérica, aparece em duas subespécies: a perennis, de distribuição ampla, e a alpini, mais ereta, rígida e exclusiva da região (Davy e colegas, 2006).

A monografia de referência sobre a espécie, publicada em 2006, ainda incluía nela plantas das Américas, como a chamada Salicornia ambigua (Davy e colegas, 2006), mas o estudo genético do grupo separou as linhagens americanas das eurasiáticas (Steffen e colegas, 2015) e, embora o POWO ainda inclua na espécie populações das costas das Américas, registros de S. perennis fora da Europa e da África pedem cautela. No sul do Brasil, a salicórnia estudada em cultivos, inclusive integrados à criação de camarão, aparece na literatura como Sarcocornia ambigua, outra espécie (Bertin e colegas, 2014; Custódio e colegas, 2021), cujos dados não devem ser atribuídos à salicórnia perene.

Touceira de salicórnia (Salicornia perennis) com ramos verdes suculentos e segmentados, em ambiente rochoso
Foto: Stefan.lefnaer, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Aspecto e Habitat

A salicórnia perene é um pequeno arbusto que se espalha rente ao chão, com a base lenhosa e os ramos superiores carnudos e articulados, cobertos por folhas opostas muito reduzidas. As flores, também minúsculas e hermafroditas, saem de três em três na axila de brácteas opostas, em espigas (Custódio e colegas, 2021; Steffen e colegas, 2015).

A planta cresce na faixa baixa das marismas, sempre em sedimento bem drenado, arenoso ou de cascalho, porque não tolera sedimento encharcado e pobre em oxigênio. Também participa das primeiras etapas de formação da marisma, às vezes como a primeira planta a colonizar areias (Davy e colegas, 2006).

Touceiras de salicórnia em tons de verde e vermelho sobre solo arenoso de um sapal costeiro
Foto: Zeynel Cebeci, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Composição e Teor de Sódio

Fresca, a salicórnia perene é sobretudo água, com 84% a 85,8% de umidade em amostras colhidas no sul de Portugal, onde 100 gramas de ramos frescos forneciam cerca de 910 mg de sódio na subespécie perennis e 1.029 mg na alpini (Custódio e colegas, 2021). Em plantas colhidas em salinas da Figueira da Foz, no centro do país, o teor chegou a 1.370 mg por 100 gramas de planta fresca (Barroca e colegas, 2020). Esses valores vão de perto da metade a cerca de dois terços do limite diário de 2.000 mg que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda para adultos (WHO, 2026).

Seco e moído, o pó de salicórnia perene descrito nos estudos portugueses tinha, por 100 gramas (Pereira e colegas, 2022, com dados de Barroca e colegas, 2020, e Clavel-Coibrié e colegas, 2021):

  • cálcio: 491 mg
  • cinzas (minerais totais): 33,9 g
  • ferro: 8,6 mg
  • fibra bruta: 9,5 g
  • magnésio: 786 mg
  • potássio: 1.831 mg
  • proteína bruta: 16,7 g
  • sódio: 7.119 mg

Nesse pó, um terço do peso é mineral, com quase quatro vezes mais sódio do que potássio (Pereira e colegas, 2022), e a planta também é fonte de fibras e compostos fenólicos (Barroca e colegas, 2020).

Sal Verde Também Tem Sódio

O sal de cozinha tem cerca de 38,8 gramas de sódio por 100 gramas (USDA, 2019), e o pó de salicórnia perene, com 7,1 gramas, fica pouco abaixo de um quinto desse teor. Em 5 gramas, a quantidade de sal que a OMS indica como teto diário, o pó traz cerca de 356 mg de sódio, contra cerca de 1.940 mg no sal comum.

A vantagem depende de usar a mesma quantidade. Num estudo com biscoitos salgados, trocar 1% de sal por 1% de pó de salicórnia perene reduziu o sódio em cerca de 70%, mas os provadores aceitaram até 5% de pó, e com essa dose o biscoito ficou com 42% mais sódio do que a receita original com sal (Clavel-Coibrié e colegas, 2021). No ensaio com jovens, os participantes acharam o sabor do pó mais fraco que o do sal (Pereira e colegas, 2022), o que pode levar a porções maiores. Produtos de outras espécies podem ser ainda mais concentrados: um extrato de Salicornia europaea usado em estudo com ratos tinha 55,6% de cloreto de sódio (Panth e colegas, 2016).

O sal verde reduz o sódio por porção em relação ao sal puro quando usado na mesma medida, mas não é isento de sódio e não é uma opção livre para quem precisa restringir esse mineral.

O Que Dizem os Estudos

Em pessoas, há um único ensaio piloto com a espécie, publicado em dois artigos.

Estudos em Humanos

Em Coimbra, Portugal, 30 adultos saudáveis de 18 a 24 anos foram sorteados para temperar a comida durante 30 dias com sal comum ou com pó de salicórnia perene, sem saber qual recebiam. No grupo do pó, a pressão sistólica medida no braço caiu em média de 111,3 para 104,3 mmHg, e a excreção estimada de sal, de 8,9 para 7,2 gramas por dia, enquanto o grupo do sal não mudou; a frequência cardíaca, por outro lado, subiu no grupo do pó (Pereira e colegas, 2022). Os autores citam como limitações a amostra pequena, a curta duração e a falta de controle sobre quanto cada um usou, e afirmam que o efeito não pode ser extrapolado para outros contextos clínicos, em especial a hipertensão.

Com os mesmos participantes, um segundo artigo relatou queda do colesterol total no grupo do pó, acompanhada de queda do HDL, a fração considerada protetora, e da creatinina, embora o colesterol total também tenha caído no grupo que manteve o sal (Louçano e colegas, 2024). São marcadores medidos em pessoas saudáveis ao longo de um mês, que não permitem dizer que a salicórnia trate pressão alta ou colesterol.

Outras Espécies e Estudos em Animais

Em ratos alimentados com muito sal, a pressão ficou mais baixa nos que receberam extrato de Salicornia europaea do que nos que receberam sal purificado (Panth e colegas, 2016), mas trata-se de outra espécie, testada em animais, e o resultado não se transfere automaticamente para a salicórnia perene nem para pessoas.

Em camundongos tratados por 30 dias com frações de um extrato aquoso da planta, os polissacarídeos purificados foram associados à proteção de órgãos imunes e reprodutivos, mas a fração de baixo peso molecular causou alterações no fígado e degeneração de túbulos dos testículos (Oliveira e colegas, 2020), achados ainda sem confirmação em humanos.

Usos Tradicionais

O uso mais difundido da salicórnia perene é alimentar: os ramos são comidos crus em saladas, cozidos como o espinafre, servidos com peixes e frutos do mar ou secos como substituto do sal (Custódio e colegas, 2021). A mesma revisão registra, para as espécies do grupo, uso popular como diurético e depurativo, sem estudos em pessoas que confirmem esses efeitos.

Como Preparar e Consumir

Como a salicórnia já é salgada, a receita dispensa sal, e o sódio da planta precisa entrar na conta do dia: pelos valores medidos em Portugal, uma porção de 50 gramas de ramos frescos traz entre cerca de 455 e 685 mg de sódio (Custódio e colegas, 2021; Barroca e colegas, 2020). O pó funciona como tempero de finalização, em pequena quantidade, e o sódio dele conta como o do sal.

Prefira salicórnia de cultivo controlado e de procedência identificada, e não colha a planta em marismas, estuários ou praias próximas de portos, indústrias, esgoto ou mineração, pelo risco de metais pesados descrito a seguir.

Contraindicações e Cuidados

Para adultos saudáveis, em porções pequenas, os principais riscos conhecidos vêm do sódio e do local onde a planta cresceu.

Hipertensão, Insuficiência Cardíaca e Doença Renal

Para quem tem hipertensão, insuficiência cardíaca, doença renal ou qualquer dieta com restrição de sódio, a salicórnia e o sal verde devem ser evitados ou usados apenas dentro do limite definido pelo médico ou nutricionista, com o sódio da planta somado ao total do dia. O ensaio português, feito com jovens saudáveis, não ampara o uso livre nesses casos (Pereira e colegas, 2022).

Na doença renal crônica há um segundo ponto, porque o pó também tem potássio. Uma revisão sobre substitutos de sal com cloreto de potássio aponta possível risco de excesso de potássio no sangue, com arritmias, em quem tem a eliminação desse mineral prejudicada (Greer e colegas, 2020). O texto não aborda a planta, mas o potássio dela se soma ao do restante da dieta.

Metais Pesados e Local de Colheita

Como outras halófitas de costa, a salicórnia perene absorve elementos do sedimento onde cresce. Numa marisma da Patagônia argentina, plantas identificadas como Sarcocornia perennis, registro americano que pode corresponder a outra linhagem, acumularam chumbo, zinco e cobre e levaram para a parte aérea, que é a comestível, mais metal do que a gramínea Spartina densiflora, da mesma marisma (Idaszkin e colegas, 2017), capacidade que fez a espécie ser estudada para recuperar solos poluídos (Custódio e colegas, 2021). Por isso, a salicórnia só deve ser consumida quando vem de cultivo controlado ou de áreas reconhecidamente limpas, e nunca de locais com poluição.

Gravidez, Crianças e Medicamentos

Não localizamos estudos de segurança da salicórnia perene em gestantes, lactantes ou crianças, e extratos concentrados devem ser evitados nessas fases, já que uma fração de extrato da planta causou alterações em órgãos de camundongos (Oliveira e colegas, 2020). A OMS recomenda que todo sal consumido seja iodado (WHO, 2026), e trocar todo o sal da casa pelo pó retira da dieta o iodo adicionado ao sal, ponto a conversar com o nutricionista, sobretudo na gravidez.

Quem usa lítio recebe a orientação de manter quantidades adequadas de líquidos e de sal durante o tratamento (MedlinePlus, 2017), e por isso qualquer troca do sal pela planta deve ser combinada antes com o médico, cuidado que vale também para quem toma remédios para pressão.

Perguntas Frequentes

Salicórnia Tem Muito Sódio?

Sim. Cem gramas de ramos frescos de salicórnia perene fornecem de 910 a 1.370 mg de sódio, entre perto da metade e cerca de dois terços do limite diário da OMS (Custódio e colegas, 2021; Barroca e colegas, 2020; WHO, 2026), e o pó seco tem pouco mais de 7 gramas de sódio por 100 gramas (Pereira e colegas, 2022).

Sal Verde Serve para Quem Tem Pressão Alta?

Não como opção livre. Por grama, o pó tem menos sódio que o sal comum, mas usar mais pó para compensar o sabor pode anular a diferença ou até inverter o resultado (Clavel-Coibrié e colegas, 2021), e quem tem hipertensão só deve usá-lo dentro do limite de sódio definido pelo médico ou nutricionista.

Qual a Diferença entre Salicórnia Perene e Salicórnia Anual?

A perene, Salicornia perennis, vive vários anos e tem a base dos ramos lenhosa (Davy e colegas, 2006), enquanto espécies anuais como Salicornia ramosissima vivem um só ano (Custódio e colegas, 2021). Os resultados de uma não valem automaticamente para a outra.

Posso Colher Salicórnia no Litoral?

Não é recomendado, porque a planta acumula metais pesados do sedimento, inclusive na parte que se come (Idaszkin e colegas, 2017). Ela deve vir de cultivo controlado ou de áreas reconhecidamente limpas.

A Salicórnia Cultivada no Brasil É Salicornia perennis?

Os cultivos e estudos do sul do Brasil que localizamos tratam de Sarcocornia ambigua, outra espécie (Bertin e colegas, 2014; Custódio e colegas, 2021), e não encontramos fonte confiável que confirme o cultivo de Salicornia perennis no país.

Referências

17 Referências Citadas

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Baseado em 17 Referências Citadas (13 Peer-Reviewed, 3 Institucionais, 1 Complementar).

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Estudos Científicos Peer-Reviewed (13)

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  2. PMC2021 Custódio L, Rodrigues MJ, Pereira CG, Castañeda-Loaiza V, Fernandes E, Standing D, et al. A review on Sarcocornia species: ethnopharmacology, nutritional properties, phytochemistry, biological activities and propagation. Foods. 2021;10(11):2778. doi:10.3390/foods10112778. Disponível em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov.
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Fontes Institucionais (3)

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  2. GOV2019 U.S. Department of Agriculture, Agricultural Research Service (USDA). FoodData Central: Salt, table (SR Legacy, FDC ID 173468). 2019. Disponível em: fdc.nal.usda.gov.
  3. GOV2017 MedlinePlus. Lithium. Bethesda: National Library of Medicine; revisado em 15 abr. 2017. Disponível em: medlineplus.gov.

Leituras Complementares (1)

  1. Plants of the World Online (POWO). Salicornia perennis Mill. Royal Botanic Gardens, Kew. Disponível em: powo.science.kew.org.

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