Flores Medicinais

Vedélia (Sphagneticola trilobata): Usos Populares, Estudos e Riscos

A vedélia, também chamada de arnica-do-mato, só foi estudada em laboratório e em animais. Veja como identificá-la, os riscos do ácido caurenoico, quem não deve usá-la e como cultivá-la sem que invada áreas naturais.

Por Conselho Editorial16 Min de Leitura
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Tapete de vedélia (Sphagneticola trilobata) com flores amarelas cobrindo o solo entre as folhas

A vedélia (Sphagneticola trilobata (L.) Pruski, Asteraceae) é uma erva rasteira de flores amarelas parecidas com pequenas margaridas, nativa das Américas e comum em jardins, praias e terrenos úmidos do Brasil. Boa parte dos estudos feitos no país usa o sinônimo Wedelia paludosa DC., e foi com esse nome que se investigou, desde os anos 1990, o ácido caurenoico, diterpeno presente em quase todos os trabalhos com a planta (Block e colegas, 1998; Bresciani e colegas, 2004).

Os resultados de laboratório sobre dor, fungos de pele e inflamação chamam atenção, mas não localizamos nenhum estudo em pessoas. O mesmo ácido caurenoico mostrou efeitos citotóxicos e embriotóxicos em testes pré-clínicos (Costa-Lotufo e colegas, 2002), e por isso o uso interno popular, inclusive o chá tomado no diabetes, aparece aqui só como registro etnobotânico, sem receita nem dose.

A seguir, como reconhecer a planta, o que os estudos encontraram, quem não deve usá-la e como cultivá-la sem que escape para áreas naturais.

Sumário do Artigo
  1. Identificação Botânica da Vedélia e Nomes Populares
  2. Origem, Hábito e Potencial Invasor
  3. Usos Tradicionais
  4. Composição Química
  5. O Que Dizem os Estudos
  6. Segurança, Toxicidade e Contraindicações
  7. Cultivo da Vedélia no Jardim
  8. Perguntas Frequentes

Identificação Botânica da Vedélia e Nomes Populares

O nome aceito é Sphagneticola trilobata (L.) Pruski, da família Asteraceae, a mesma da camomila e do girassol (POWO). Wedelia paludosa DC. é tratado como sinônimo (WFO), e a espécie também é muito conhecida como Wedelia trilobata (GISD). É uma erva prostrada, de caule castanho-avermelhado que cria raízes nos nós, com folhas opostas e flores amarelas em capítulos solitários (Lemões e colegas, 2012). O epíteto trilobata alude às folhas, que muitas vezes têm três lobos.

Entre os nomes populares documentados no Brasil estão arnica-do-mato, insulina, malmequer-do-brejo, pseudo-arnica e vedélia (Athayde e colegas, 2019; Batista e colegas, 2010; Lemões e colegas, 2012). Dois deles, arnica-do-mato e insulina, também designam outras espécies.

Tapete de vedélia (Sphagneticola trilobata) com flores amarelas cobrindo o solo entre as folhas

Vedélia e Outras Arnicas

No Brasil, arnica é nome de várias Asteraceae usadas popularmente como anti-inflamatórias. Um estudo que comparou dez dessas arnicas registrou a vedélia como arnica-do-mato, nome que o mesmo trabalho atribui também a Pseudobrickellia brasiliensis (Athayde e colegas, 2019). A vedélia não é a arnica-do-brasil, Solidago microglossa (hoje tratada como sinônimo de Solidago chilensis), nem a arnica europeia, Arnica montana: são gêneros diferentes, com química própria, e os estudos feitos com uma não valem para as outras.

O Apelido Insulina e a Confusão com Outra Planta

Em entrevistas com agricultoras de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, a vedélia aparece como insulina, o mesmo apelido do anil-trepador ou insulina-vegetal, Cissus verticillata, trepadeira da família Vitaceae (Lemões e colegas, 2012). Como essa trepadeira, citada também como Cissus sicyoides, não se cultiva com facilidade no Sul, uma planta pode ser confundida com a outra (Ponath e colegas, 2022). O apelido não diz nada sobre eficácia, e nenhuma das duas substitui a insulina de verdade nem os remédios receitados para diabetes.

Origem, Hábito e Potencial Invasor

A área nativa da vedélia vai do México ao sul da América tropical, incluindo Trinidad (POWO). No Brasil, há registros do Nordeste ao Sul (Batista e colegas, 2010; Lemões e colegas, 2012), em lugares úmidos, praias e terrenos baldios, ao sol ou à sombra (Lemões e colegas, 2012).

Levada para fora da área nativa como ornamental e forração, ela se naturalizou na Austrália, em ilhas do Pacífico e na Indonésia, entre outras regiões, e integra a lista das 100 piores espécies exóticas invasoras do mundo, organizada por especialistas da União Internacional para a Conservação da Natureza (GISD). Os caules enraízam onde tocam o chão, restos de poda descartados no mato formam novos focos e o tapete denso impede a regeneração de outras plantas (GISD).

Flor amarela da vedélia em close, mostrando as pétalas alongadas e o centro com pequenas flores tubulares

Usos Tradicionais

Como as demais arnicas brasileiras, a vedélia é usada pela medicina popular por uma suposta ação anti-inflamatória (Athayde e colegas, 2019), e preparações de suas folhas aplicadas sobre a pele aparecem no cuidado tradicional de feridas (Ali e colegas, 2025; Balekar e colegas, 2012). Na Dominica, no Caribe, ela está entre os remédios mais lembrados para cólica menstrual e menstruação atrasada (Flores e Quinlan, 2014).

No Sul do Brasil, há registro do chá da planta, sobretudo das folhas, como complemento no diabetes. Cinco agricultoras de Rio Grande que já tomavam os remédios receitados contaram que aprenderam o uso com uma amiga, com a mãe ou com vizinhas, que preparam a infusão sem medida definida e que percebem queda da glicose (Lemões e colegas, 2012). O estudo, feito só com entrevistas, descreve uma prática cultural e não avalia eficácia nem segurança, e por isso não indicamos dose nem modo de preparo para uso interno.

Composição Química

O composto mais estudado é o ácido caurenoico, diterpeno do tipo caurano isolado com o flavonoide luteolina em vários trabalhos (Block e colegas, 1998; Sartori e colegas, 2003), ao lado de outros diterpenos do mesmo grupo (Batista e colegas, 1999; Batista e colegas, 2010). Sua concentração varia conforme a parte da planta e a estação do ano, com valores mais altos em caules e raízes colhidos no outono (Bresciani e colegas, 2004), o que torna imprevisível o teor de um preparo caseiro. Testes histoquímicos indicaram também lactonas sesquiterpênicas nas folhas (Athayde e colegas, 2019), a principal causa de alergia de contato às Asteraceae (Paulsen, 2002).

O Que Dizem os Estudos

Estudos em Humanos

Não localizamos ensaios clínicos nem estudos observacionais de eficácia ou segurança da vedélia em pessoas, para uso interno ou tópico. Os registros publicados que envolvem seres humanos se resumem a entrevistas sobre uso popular (Lemões e colegas, 2012) e a um relato de caso de sensibilidade de contato à planta (Goh, 1986). Toda a pesquisa de eficácia é pré-clínica e não informa dose, efeito nem segurança em pessoas.

Estudos em Animais e In Vitro

Em camundongos, o ácido caurenoico, frações do extrato e a luteolina reduziram as contorções provocadas por ácido acético, um teste clássico de dor, mais que analgésicos comuns nas mesmas condições (Block e colegas, 1998), resultado de modelo animal que não se transfere automaticamente para pessoas. Dado por via oral, o ácido caurenoico também diminuiu a dor inflamatória em vários modelos e a produção das citocinas IL-1β e TNF-α (Mizokami e colegas, 2012).

O extrato baixou a glicose de ratos com diabetes induzido por aloxana (Novaes e colegas, 2001), efeito atribuído em parte ao ácido caurenoico (Bresciani e colegas, 2004), e um extrato aquoso das folhas inibiu em laboratório a alfa-glicosidase, enzima da digestão de carboidratos (Ponath e colegas, 2022). Nenhum desses trabalhos testou a planta em pessoas com diabetes. Como acontece com a pata-de-vaca (Bauhinia forficata), outra planta de uso popular no diabetes, a vedélia não substitui a medicação.

Também em camundongos, o extrato dado antes de uma dose tóxica de paracetamol reduziu a mortalidade e os marcadores de lesão do fígado (Meotti e colegas, 2006). Em cultura, frações das folhas estimularam fibroblastos e a produção de colágeno e inibiram estafilococos (Balekar e colegas, 2012), e um estudo de 2025 observou fechamento mais rápido de feridas em células e em animais (Ali e colegas, 2025). Houve ainda ação in vitro contra dermatófitos causadores de micoses (Sartori e colegas, 2003) e contra o Trypanosoma cruzi, parasita da doença de Chagas (Batista e colegas, 1999).

Segurança, Toxicidade e Contraindicações

Ácido Caurenoico: Citotoxicidade e Embriotoxicidade

Parte dos testes usou o ácido caurenoico do óleo-resina da copaíba (Copaifera langsdorffii), a mesma molécula da vedélia. Em laboratório, o composto destruiu embriões de ouriço-do-mar em desenvolvimento, inibiu o crescimento de células tumorais e rompeu hemácias humanas e de camundongo, sinais de citotoxicidade segundo os autores (Costa-Lotufo e colegas, 2002). Em concentrações mais altas, causou dano ao DNA de células de hamster (Cavalcanti e colegas, 2006), enquanto um estudo de 2025, conduzido por pesquisadores ligados a empresas de ingredientes alimentares, não encontrou mutagenicidade nem dano cromossômico, embora o composto tenha sido bastante tóxico para as células nas concentrações mais altas testadas (Wilms e colegas, 2025).

Com extratos da própria planta, os resultados divergem: em camundongos, uma dose única alta do extrato hidroalcoólico das partes aéreas não chegou a matar metade dos animais, e 15 dias de uso não alteraram o peso corporal nem os parâmetros hematológicos, mas aumentaram o peso do fígado, sem mudança nas enzimas hepáticas (Bürger e colegas, 2005). Já o extrato aquoso das folhas reduziu fortemente a viabilidade de fibroblastos, com morte celular sugestiva de necrose, e os autores concluíram por alta toxicidade (Ponath e colegas, 2022).

Gravidez e Lactação

Por precaução, a vedélia é contraindicada na gestação e na amamentação. Não há estudos de segurança nessas fases, o ácido caurenoico foi embriotóxico em ouriço-do-mar (Costa-Lotufo e colegas, 2002) e reduziu as contrações de útero isolado de rata (Cunha e colegas, 2003), e o uso caribenho contra menstruação atrasada (Flores e Quinlan, 2014) pede cautela redobrada em quem pode estar grávida. Crianças também não devem receber preparos da planta.

Diabetes e Medicamentos

A vedélia não substitui insulina, metformina ou qualquer outro tratamento para diabetes. Não se sabe o que acontece quando o chá se soma aos remédios, e em tese a glicemia pode cair além do esperado. Quem tem diabetes e usa ou pensa em usar a planta deve conversar antes com o médico e nunca interromper a medicação por conta própria.

Alergia de Contato no Uso Tópico

Cataplasmas, compressas e outras preparações de uso tópico também têm riscos. Há relato de caso de sensibilidade de contato à própria vedélia (Goh, 1986), e as lactonas sesquiterpênicas são o principal alérgeno das Asteraceae (Paulsen, 2002). Quem já teve dermatite com arnica, calêndula, camomila, crisântemo ou outra planta da família deve evitar o contato. Se surgirem bolhas, coceira ou vermelhidão, retire o material na hora e procure avaliação médica se os sintomas persistirem. Folhas colhidas no jardim não são estéreis, e feridas abertas, mordidas e queimaduras precisam de atendimento adequado.

Cultivo da Vedélia no Jardim

Como forração, a vedélia exige pouco e se espalha depressa pelos caules, e é essa facilidade que explica o problema ambiental: cada pedaço que toca a terra pode virar uma planta nova, e o descarte de restos de jardim está entre as vias de dispersão (GISD). Mesmo sendo nativa do Brasil, ela não deve ser plantada perto de margens de rios, matas, praias e outras áreas naturais preservadas. Nos canteiros, use bordas de contenção, corte as pontas que avançam e nunca jogue restos de poda na mata, em rios ou em terrenos baldios.

Perguntas Frequentes

Vedélia e Arnica São a Mesma Planta?

Não. A vedélia é uma das várias Asteraceae chamadas de arnica no Brasil (Athayde e colegas, 2019), mas não é a arnica-do-brasil (Solidago microglossa) nem a Arnica montana, e os estudos de uma não se aplicam às outras.

Chá de Vedélia Ajuda no Diabetes?

Não há estudos em pessoas, só em ratos e em testes de laboratório (Novaes e colegas, 2001; Ponath e colegas, 2022), e a planta contém ácido caurenoico, com sinais de citotoxicidade em laboratório (Costa-Lotufo e colegas, 2002). Não existe dose segura estabelecida, o chá não substitui a medicação e quem tem diabetes deve conversar com o médico antes de usar qualquer planta, sem nunca interromper o tratamento por conta própria.

Gestantes Podem Usar Vedélia?

Não. Por precaução, a planta é contraindicada na gravidez e na amamentação, porque o ácido caurenoico foi embriotóxico em laboratório (Costa-Lotufo e colegas, 2002) e agiu sobre o útero isolado de rata (Cunha e colegas, 2003).

Compressa de Vedélia Pode Causar Alergia?

Pode, sobretudo em quem já reage a arnica, calêndula, camomila ou outras Asteraceae, porque há relato de sensibilidade de contato à planta (Goh, 1986) e as lactonas sesquiterpênicas da família são alergênicas (Paulsen, 2002).

A Vedélia É Tóxica para o Gado?

Não localizamos relato veterinário publicado de intoxicação de gado pela própria vedélia. Os surtos de intoxicação de bovinos, cabras e ovelhas descritos na Argentina envolvem Pascalia glauca, antes chamada de Wedelia glauca, uma espécie diferente (Medina e colegas, 2022). Como a segurança da ingestão por animais não foi estabelecida, convém manter animais domésticos e de criação longe dos canteiros.

Posso Plantar Vedélia no Jardim?

Pode, em canteiro contido e longe de áreas naturais preservadas, já que fora de sua área nativa ela está entre as piores invasoras do mundo (GISD).

Referências

25 Referências Citadas

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Baseado em 25 Referências Citadas (21 Peer-Reviewed, 4 Complementares).

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Estudos Científicos Peer-Reviewed (21)

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Leituras Complementares (4)

  1. Plants of the World Online (POWO). Sphagneticola trilobata (L.) Pruski. Royal Botanic Gardens, Kew. Disponível em: powo.science.kew.org.
  2. World Flora Online (WFO). Wedelia paludosa DC., sinônimo de Sphagneticola trilobata (L.) Pruski (Asteraceae). Disponível em: worldfloraonline.org.
  3. IUCN SSC Invasive Species Specialist Group. Global Invasive Species Database (GISD): Sphagneticola trilobata. Disponível em: iucngisd.org.
  4. 2012 Lemões MAM, Jacondino M, Ceolin T, Heck RM, Barbieri RL, Machado RA. O uso da planta Sphagneticola trilobata por agricultores acometidos de diabetes mellitus. Revista de Pesquisa: Cuidado é Fundamental Online. 2012;4(1):2733-2739. Disponível em: alice.cnptia.embrapa.br.

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