A valeriana (Valeriana officinalis) é uma das plantas medicinais mais estudadas para o sono, com uso documentado desde a Grécia antiga. Suas raízes e rizomas concentram os compostos ativos, e é por isso que são as partes usadas em chás, tinturas e cápsulas.
Sumário do Artigo
- História e Uso Tradicional da Valeriana
- Valeriana para um Sono Reparador
- Como a Valeriana Atua no Cérebro
- Outros Usos Tradicionais da Valeriana
- Fitoquímica da Valeriana
- Dosagem e Formas de Preparo
- Contraindicações e Efeitos Colaterais
- Cultivo e Colheita da Valeriana
- Valeriana e Outros Calmantes Naturais
- Curiosidades sobre a Valeriana
- Perguntas Frequentes sobre a Valeriana
História e Uso Tradicional da Valeriana
A valeriana tem uma longa história de uso medicinal. Hipócrates descreveu seus usos, e Galeno, médico romano, já a prescrevia para insônia. Durante a Idade Média, Hildegarda de Bingen, abadessa alemã do século XII, documentou seu uso como tranquilizante e indutor do sono, e a planta era comum nos jardins dos mosteiros europeus. O nome “valeriana” deriva do latim valere, que significa “ter saúde”, refletindo a reputação que a planta acumulou ao longo dos séculos.
No Renascimento, a valeriana passou a constar em farmacopeias europeias, prescrita para queixas nervosas diversas; o botânico italiano Pierandrea Mattioli chegou a recomendá-la para epilepsia. Nos séculos XVII e XVIII, tornou-se remédio caseiro comum para ansiedade e insônia, e na Segunda Guerra Mundial foi usada na Inglaterra para aliviar o estresse dos bombardeios, um uso bem documentado historicamente.
Valeriana para um Sono Reparador
A valeriana é amplamente reconhecida por reduzir o tempo para adormecer e melhorar a qualidade geral do sono, o que a torna uma alternativa popular aos soníferos sintéticos. Um estudo com 128 pessoas notou melhora tanto na velocidade para adormecer quanto na redução de despertares noturnos.
Outra pesquisa, com oito voluntários com insônia leve, testou o extrato aquoso da raiz e observou redução no tempo para dormir de 16 para 9 minutos em média, efeito comparável ao de alguns medicamentos prescritos. Curiosamente, uma dose maior, de 900 mg, não reproduziu o mesmo benefício, e causou alguma sonolência no dia seguinte; a dose de 450 mg foi a mais eficaz nesse estudo específico, sem esse efeito residual, o que reforça que a dose ideal importa tanto quanto a substância em si.
Um estudo de longo prazo, com 121 participantes ao longo de 28 dias, mostrou que o grupo tratado com valeriana teve melhora nos sintomas de insônia, com a diferença em relação ao placebo aumentando ao longo do tempo, sugerindo que o uso contínuo pode ser mais benéfico que o uso pontual.
Como a Valeriana Atua no Cérebro
O mecanismo de ação da valeriana é complexo e ainda não totalmente esclarecido. Acredita-se que ela module o sistema GABAérgico: o GABA é um neurotransmissor inibitório que ajuda a acalmar a atividade cerebral, promovendo relaxamento e sono. Os compostos da valeriana parecem inibir a quebra do GABA e aumentar sua liberação, resultando em maior concentração do neurotransmissor e efeito sedativo e ansiolítico.
O ácido valerênico é o composto mais estudado nesse processo: ele se liga aos receptores GABA-A e aumenta a afinidade do receptor pelo GABA, potencializando o efeito inibitório natural. Os valepotriatos, outro grupo de compostos, parecem ter efeito sedativo mais direto, mas são instáveis e se degradam facilmente, o que torna sua contribuição real mais incerta. Acredita-se que a combinação de todos os fitoquímicos, e não um composto isolado, seja responsável pela eficácia da planta.
Pesquisas mais recentes sugerem que a valeriana também possa influenciar outros neurotransmissores, como serotonina e adenosina, o que ajudaria a explicar efeitos antidepressivos leves relatados por alguns usuários e a própria indução do sono. Esses mecanismos adicionais ainda são objeto de investigação.
Outros Usos Tradicionais da Valeriana
Além da insônia, a valeriana é usada tradicionalmente para aliviar ansiedade e tensão nervosa do dia a dia. Suas propriedades antiespasmódicas também são associadas ao alívio de cólicas menstruais e de dores de cabeça tensionais ligadas à contração muscular do pescoço e ombros.
A planta também é investigada, de forma ainda preliminar, para o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em crianças, com alguns estudos sugerindo melhora de concentração e redução de impulsividade. Essa pesquisa está em estágio inicial, exige mais estudos controlados, e a automedicação em crianças não é recomendada. O uso para espasmos gastrointestinais, incluindo síndrome do intestino irritável, também é relatado, mas a evidência científica para essa aplicação específica ainda é majoritariamente anedótica.
Fitoquímica da Valeriana
A composição química da valeriana é rica. Os óleos essenciais, com destaque para o ácido valerênico e seus derivados, são os compostos mais estudados. Os valepotriatos, iridoides que contribuem para o efeito sedativo, são instáveis e se degradam com facilidade, o que faz sua presença variar entre produtos comerciais.
A planta também contém flavonoides, como hesperidina e linarina, conhecidos por propriedades antioxidantes e por possíveis efeitos sedativos e ansiolíticos próprios; acredita-se que a linarina contribua especificamente para o efeito calmante geral. Alcaloides e lignanas aparecem em menor quantidade, mas não devem ser ignorados: lignanas como a hidroxipinoresinol demonstraram afinidade por receptores de serotonina, o que pode ajudar a explicar os efeitos antidepressivos leves associados ao uso da planta. Nenhum composto isolado reproduz sozinho o efeito do extrato completo da raiz.
Dosagem e Formas de Preparo
A valeriana pode ser consumida em chá, tintura ou cápsulas, e a dosagem correta depende da forma e da condição a ser tratada.
Para o chá, usam-se de 2 a 3 gramas da raiz seca em água quente, sem ferver, por 10 a 15 minutos; recomenda-se uma xícara antes de dormir. As tinturas, extratos alcoólicos concentrados, são usadas na dose de 20 a 40 gotas, de uma a três vezes ao dia, diluídas em água; oferecem absorção mais rápida e são úteis para alívio pontual da ansiedade. As cápsulas contêm extrato seco padronizado: a dosagem típica para insônia é de 400 a 600 mg, de uma a duas horas antes de deitar, e para ansiedade, doses menores de 200 a 300 mg durante o dia. Escolher produtos padronizados garante concentração adequada de ácido valerênico. Em qualquer forma, o uso regular por pelo menos duas semanas costuma ser necessário para o máximo benefício, especialmente na insônia crônica.
Contraindicações e Efeitos Colaterais
A valeriana é geralmente considerada segura, mas tem contraindicações relevantes. Crianças menores de três anos, gestantes e lactantes devem evitar seu uso, já que a segurança nesses grupos não foi estabelecida. Pessoas com doenças hepáticas devem ter cautela, pois a valeriana é metabolizada no fígado e o uso prolongado pode afetar sua função; consultar um médico antes de iniciar é essencial nesse caso.
Os efeitos colaterais mais comuns são leves: dor de cabeça, tontura e desconforto gastrointestinal. Em casos raros, ocorre efeito paradoxal, com a pessoa ficando mais ansiosa e inquieta em vez de relaxada.
A interação medicamentosa mais bem estabelecida e mais perigosa é com outros depressores do sistema nervoso central: benzodiazepínicos como diazepam e alprazolam, barbitúricos e outros soníferos prescritos podem ter o efeito sedativo perigosamente potencializado, com risco de sonolência excessiva e perda de coordenação. O álcool também é um depressor do sistema nervoso central e a combinação com valeriana é fortemente desaconselhada pelo mesmo motivo, incluindo o risco de acidentes ao dirigir ou operar máquinas. Uma possível interação com antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) é discutida na literatura, com preocupação teórica sobre síndrome serotoninérgica; a evidência direta dessa interação é menos estabelecida que a dos depressores do sistema nervoso central, mas a cautela e a supervisão médica são recomendadas para quem já usa antidepressivos.
Cultivo e Colheita da Valeriana
A valeriana se adapta a diferentes solos, mas prefere os úmidos e bem drenados, com exposição solar plena ou parcial; é uma planta resistente, comum em jardins domésticos. A propagação é feita por sementes, semeadas na primavera e levemente cobertas de terra (germinam em duas a três semanas), ou por divisão de touceiras.
A colheita das raízes e rizomas, parte mais importante da planta, deve ocorrer no outono do segundo ano de cultivo, quando a concentração de compostos ativos é maior. Depois de desenterradas e lavadas, as raízes passam por secagem em local arejado e sombreado, com temperatura que não deve ultrapassar 40°C, já que o calor excessivo degrada os compostos voláteis. Depois de secas, ficam prontas para uso em chás, tinturas e extratos.
Valeriana e Outros Calmantes Naturais
A camomila tem efeito mais suave, ideal para relaxamento leve e problemas digestivos, enquanto a valeriana costuma ser considerada mais potente para insônia. Já a erva-cidreira, ou melissa, é frequentemente combinada com a valeriana em preparações, com efeito sedativo potencialmente reforçado. A lavanda é conhecida sobretudo pelo aroma relaxante em aromaterapia, com efeitos mais sutis por via oral do que os da valeriana. A passiflora, ou flor-do-maracujá, também atua no sistema GABA e tem efeitos comparáveis em alguns estudos; a escolha entre as duas costuma depender da resposta individual de cada pessoa.
Curiosidades sobre a Valeriana
Uma das curiosidades mais conhecidas da valeriana é sua atração sobre gatos: a raiz contém actinidina, composto que imita feromônios felinos, e por isso a planta também é chamada de “erva-dos-gatos”. O efeito nos felinos é parecido com o da erva-gateira (catnip), deixando-os eufóricos, brincalhões ou relaxados, e alguns brinquedos para gatos são recheados com a raiz como forma de enriquecimento ambiental.
Perguntas Frequentes sobre a Valeriana
O Que É a Valeriana e Para Que Serve?
A valeriana é uma planta medicinal usada principalmente como sedativo natural, eficaz para insônia e para aliviar ansiedade e estresse.
A Valeriana Vicia?
Diferente de muitos soníferos farmacêuticos, a valeriana não é considerada viciante e estudos não mostram dependência física associada ao seu uso. Ainda assim, o uso consciente e dentro das doses recomendadas é sempre a orientação mais segura.
Quanto Tempo a Valeriana Leva para Fazer Efeito?
Os efeitos costumam ser sentidos entre 30 minutos e duas horas após o uso. Para insônia, o uso contínuo por algumas semanas costuma trazer os melhores resultados.
Posso Tomar Valeriana Combinada com Outros Remédios?
É preciso cautela: a valeriana pode potencializar o efeito de sedativos, benzodiazepínicos e antidepressivos, e o consumo com álcool deve ser evitado. Converse com seu médico antes de combinar tratamentos.
Quem Não Pode Tomar Valeriana?
Gestantes, lactantes e crianças menores de três anos devem evitar o uso, assim como pessoas com problemas hepáticos sem orientação médica, já que a segurança nesses grupos não está estabelecida.
Qual o Melhor Horário para Tomar Valeriana?
Para insônia, de 30 minutos a duas horas antes de dormir. Para aliviar ansiedade ao longo do dia, doses menores podem ser usadas, sempre seguindo orientação profissional.
Valeriana Emagrece?
Não há evidência científica de que a valeriana cause emagrecimento. Ao melhorar o sono e reduzir o estresse, ela pode ajudar indiretamente no controle do peso, mas esse não é seu efeito direto.
Posso Tomar Valeriana Todos os Dias?
O uso diário é comum para insônia crônica, mas recomenda-se fazer pausas periódicas, por exemplo algumas semanas de uso seguidas de interrupção. Um profissional de saúde pode orientar a melhor rotina para cada caso.
Referências
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Fontes Institucionais (1)
- GOV2013 National Institutes of Health, Office of Dietary Supplements. Valerian: Health Professional Fact Sheet, 2013.
Leituras Complementares (7)
- 2006 Bent S, Padula A, Moore D, Patterson M, Mehling W. Valerian for sleep: a systematic review and meta-analysis. The American Journal of Medicine, 2006;119(12):1005-1012.
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