A peônia, cientificamente chamada de Paeonia officinalis, é uma planta herbácea da família Paeoniaceae, conhecida tanto pelo valor ornamental quanto pelo uso na medicina tradicional. Em inglês recebe os nomes peony e king of flowers, e na sinonímia homeopática aparece ainda como Paeonia peregrina e Rosa benedicta.
O gênero reúne mais de trinta espécies de interesse medicinal, entre elas Paeonia albiflora, Paeonia lactiflora e Paeonia suffruticosa, esta última conhecida como peônia-de-árvore. Essa distinção entre espécies importa mais do que parece, e vai reaparecer ao longo do texto.
A raiz é a parte tradicionalmente usada. Na medicina chinesa, a espécie Paeonia lactiflora deu origem a um extrato padronizado que hoje concentra a maior parte da pesquisa clínica sobre o gênero.
Sumário do Artigo
O Que É a Peônia
A Paeonia officinalis distribui-se naturalmente pelo hemisfério norte, com presença na América do Norte, na Ásia, na Europa e no norte da África.
Trata-se de planta herbácea que alcança cerca de setenta centímetros de altura, com raízes robustas. As folhas são grandes, de tonalidade verde-escura, com formato lobulado e oval.
A flor é grande e solitária, com corola de até dez pétalas em tom rosa avermelhado, e aroma marcante. É essa flor que explica a popularidade da planta em jardins pelo mundo, além do apelido de rainha das flores em várias culturas.
História e Origem do Nome
O nome do gênero é uma homenagem a Peón, médico dos deuses na mitologia grega. A associação entre a planta e a cura, portanto, é anterior a qualquer registro científico.
Desde a época de Hipócrates, entre os séculos V e IV antes de Cristo, a peônia era administrada em quadros de epilepsia. As sementes chegavam a ser usadas em colares, com a crença de que afastariam a doença. Trata-se de registro histórico, não de indicação atual.
Na China, um ditado antigo dizia que mulheres que usassem a raiz da peônia ficariam tão bonitas quanto sua flor, o que ajuda a explicar a presença da planta em preparações cosméticas até hoje.
Composição e Princípios Ativos
O composto mais estudado do gênero é a paeoniflorina, uma glicosídeo monoterpênico. É ela que responde pela maior parte do interesse farmacológico nas espécies de peônia.
A raiz também contém taninos, que sustentam a ação adstringente descrita na tradição, além de flavonoides e outros compostos fenólicos com atividade antioxidante em ensaios laboratoriais.
O Extrato Padronizado Mais Pesquisado
A pesquisa clínica mais consistente do gênero não usa a planta bruta, e sim um extrato padronizado conhecido como glicosídeos totais de peônia. Ele é obtido das raízes de Paeonia lactiflora e contém cerca de noventa por cento de paeoniflorina.
Esse extrato foi aprovado na China, em 1998, como medicamento modificador do curso da artrite reumatoide. É um ponto que merece atenção: os resultados descritos a seguir referem-se a esse extrato específico, e não ao chá caseiro da raiz.
O Que a Pesquisa Mostra Sobre Artrite Reumatoide
Esta é a frente com melhor qualidade de evidência dentro do gênero, e também a mais mal compreendida.
Ensaios clínicos avaliaram os glicosídeos totais de peônia em associação a medicamentos convencionais, como metotrexato e leflunomida, em pacientes com artrite reumatoide ativa. Um estudo comparou o metotrexato isolado com a combinação, e outros analisaram a associação dos três.
O Achado Mais Interessante
Além do efeito sobre a doença, os estudos apontam algo menos óbvio: a associação reduziu a hepatotoxicidade causada por metotrexato e leflunomida. Uma metanálise reuniu ensaios randomizados avaliando justamente eficácia e segurança dessa combinação.
Vale sublinhar o essencial: trata-se de terapia adjuvante, usada junto do tratamento médico e sob prescrição, com um extrato padronizado. Nada disso autoriza substituir tratamento por chá de peônia, nem indica automedicação.
Usos Tradicionais Registrados
Os empregos a seguir vêm da tradição e de compêndios de fitoterapia, sem confirmação por ensaios clínicos em humanos.
À raiz são atribuídas ações adstringente, anti-inflamatória, antisséptica, hepatoprotetora, sedativa e tônica sobre a circulação. A tradição associa as propriedades adstringentes ao uso em hemorroidas, e a planta aparece como componente de pomadas destinadas a essa finalidade.
Na medicina chinesa, a raiz é descrita como algo que acalma o fígado e nutre o sangue, dentro da lógica própria daquele sistema terapêutico.
Saúde da Mulher
A tradição registra uso em cólicas menstruais e em irregularidades do ciclo. Aqui vale um alerta que aparece adiante em detalhe: justamente por atuar sobre a musculatura uterina, a planta exige cautela redobrada.
Uso Cosmético
A paeoniflorina aparece em formulações cosméticas, e há descrição de efeito sobre rugas faciais quando usada em concentração aproximada de meio por cento. É uso tópico, distinto de qualquer efeito por ingestão.
Contraindicações e Cuidados
Esta seção concentra o que é mais importante saber antes de considerar a planta.
Quem Não Deve Usar
- Crianças, pela ausência de estudos de segurança na faixa pediátrica
- Gestantes, já que as sementes têm propriedades abortivas descritas
- Lactantes
- Pessoas em uso de anticoagulantes ou com distúrbios de coagulação, sem avaliação médica
As sementes merecem menção separada: além do efeito abortivo, são descritas como purgativas e capazes de induzir vômito. Não devem ser consumidas.
Quem faz tratamento para artrite reumatoide e se interessa pelo extrato padronizado precisa conversar com o reumatologista, porque a indicação é adjuvante e depende de acompanhamento.
Perguntas Frequentes Sobre a Peônia (FAQ)
Para Que Serve a Peônia?
Na tradição, a raiz é usada por suas propriedades adstringentes e anti-inflamatórias, com registro de emprego em hemorroidas e em queixas do ciclo menstrual. Na pesquisa clínica, o destaque é o extrato padronizado de Paeonia lactiflora como terapia adjuvante em artrite reumatoide, sempre associado a tratamento médico.
A Peônia Cura Hemorroidas?
Não. A planta aparece na tradição como adstringente e é componente de pomadas para essa finalidade, mas não existe evidência clínica que sustente cura. Hemorroidas têm causas variadas e exigem avaliação médica, sobretudo quando há sangramento, que precisa ser investigado.
Qual a Diferença Entre as Espécies de Peônia?
A diferença é relevante para quem busca a planta pela pesquisa científica. A maior parte dos estudos clínicos usa glicosídeos totais extraídos de Paeonia lactiflora, e não a Paeonia officinalis. São espécies do mesmo gênero, com composição e padronização distintas.
Grávidas Podem Usar Peônia?
Não. O uso é contraindicado na gestação, principalmente porque as sementes têm propriedades abortivas descritas na literatura. A planta também é associada a efeito sobre a musculatura uterina, o que reforça a contraindicação. Lactantes igualmente devem evitar.
A Peônia Substitui o Remédio Para Artrite?
Não substitui. Nos estudos, o extrato padronizado foi avaliado como terapia adjuvante, ou seja, somado a medicamentos como metotrexato e leflunomida, nunca no lugar deles. Interromper tratamento prescrito por conta própria pode agravar a doença.
Como se Prepara o Chá da Raiz?
A preparação tradicional é uma infusão da raiz, tomada ao longo do dia. Vale insistir num ponto: o chá caseiro não equivale ao extrato padronizado usado nos estudos clínicos, e o preparo doméstico não permite controle de dose dos princípios ativos.
A Peônia Tem Efeito Sedativo?
A tradição atribui à raiz uma ação sedativa leve, e o gênero aparece em preparações voltadas a quadros de tensão. Não há, porém, ensaio clínico robusto que confirme esse efeito em humanos, e a planta não deve ser usada como alternativa a tratamento de ansiedade ou insônia.
Peônia Ornamental e Peônia Medicinal São a Mesma Planta?
Podem ser a mesma espécie, mas a finalidade muda tudo. Plantas cultivadas para ornamentação costumam receber defensivos agrícolas e não têm controle de identidade botânica nem de resíduos, o que as torna inadequadas para consumo.
Referências
Estudos Científicos Peer-Reviewed (3)
- PMC2013 Xiang, N., et al. “Reduced hepatotoxicity by total glucosides of paeony in combination treatment with leflunomide and methotrexate for patients with active rheumatoid arthritis.” International Immunopharmacology, 2013. ↗.
- PMC2019 Zhang, W., et al. “Efficacy and safety of total glucosides of paeony combined with methotrexate and leflunomide for active rheumatoid arthritis: a meta-analysis.” Drug Design, Development and Therapy, 2019. ↗.
- PMC2005 “Comparative study on clinical efficacy of using methotrexate singly or combined with total glucosides of Paeony in treating rheumatoid arthritis.” Zhongguo Zhong Xi Yi Jie He Za Zhi, 2005. ↗.






