O chá de boldo do Chile (Peumus boldus) é preparado com as folhas secas de uma árvore nativa das regiões central e sul do Chile, onde cresce de forma abundante em encostas ensolaradas. No Brasil ele chegou pela via do comércio de ervas e acabou ocupando um lugar bastante específico na cultura popular: o de bebida tomada depois de uma refeição pesada, quando o estômago pede socorro. Essa associação entre boldo e digestão não é invenção recente nem exclusividade brasileira, já que a folha aparece em livros de referência europeus com a mesma finalidade há décadas.
Vale um esclarecimento logo de saída, porque a confusão é frequente. O boldo do Chile não é a mesma planta que o boldo cultivado em quintais brasileiros, conhecido como boldo nacional ou falso boldo (Plectranthus barbatus). São espécies de famílias botânicas diferentes, com composição química distinta, e o que vale para uma não vale automaticamente para a outra. Este texto trata exclusivamente do Peumus boldus, a folha importada que dá origem ao chá de boldo do Chile.
Sumário do Artigo
- Outros Nomes Populares do Boldo do Chile
- O Que a Folha de Boldo Contém
- Para Que Serve o Chá de Boldo do Chile
- Partes Utilizadas
- Como Preparar o Chá de Boldo do Chile
- Padrão de Qualidade Medicina Natural
- Contraindicações e Efeitos Colaterais do Chá de Boldo do Chile
- Comprar Chá de Boldo Importado Medicina Natural
- Perguntas Frequentes sobre Chá de Boldo do Chile
Outros Nomes Populares do Boldo do Chile
A planta aparece no comércio e na literatura sob nomes variados, quase todos girando em torno da mesma raiz. Entre os mais comuns estão boldo chileno, boldo importado, boldo verdadeiro e boldu.
O Que a Folha de Boldo Contém
A folha de boldo tem uma composição química razoavelmente bem descrita, e conhecê-la ajuda a entender tanto o que o chá pode fazer quanto por que ele exige limites. Segundo o relatório de avaliação da Agência Europeia de Medicamentos, a folha reúne quatro grupos principais de substâncias.
- Alcaloides isoquinolínicos, presentes na faixa de 0,25% a 0,7%, tendo a boldina como componente geralmente majoritário, correspondendo a algo entre 14% e 36% do total de alcaloides. A Farmacopeia Europeia exige, para a folha de boldo, um mínimo de 0,1% de alcaloides totais expressos em boldina.
- Cumarina, resina e taninos, em quantidades menores.
- Óleo volátil, entre 2% e 4% da folha, no qual predominam o ascaridol (16% a 38%), o 1,8-cineol (11% a 39%) e o p-cimeno (9% a 29%).
- Polifenóis e flavonoides, sobretudo proantocianidinas e glicosídeos de flavonol, como derivados de quercetina, kaempferol e isorramnetina.
A boldina é a substância que carrega a identidade farmacológica da planta e a que mais recebeu atenção da pesquisa. Já o ascaridol é o motivo pelo qual a mesma agência europeia recomenda cautela com a forma de preparo, assunto que este texto retoma adiante.
Para Que Serve o Chá de Boldo do Chile
A indicação reconhecida oficialmente na Europa é enxuta e vale a pena reproduzir com precisão, porque ela delimita bem o terreno. Na monografia da União Europeia sobre a folha de Peumus boldus, publicada em novembro de 2016, o boldo é classificado como medicamento fitoterápico tradicional destinado ao alívio sintomático de dispepsia e de distúrbios espasmódicos leves do trato gastrointestinal. A palavra “tradicional” nessa classificação tem significado técnico: quer dizer que o uso está amparado em décadas de emprego consistente, e não em ensaios clínicos que tenham demonstrado eficácia.
Essa distinção é importante e o próprio relatório de avaliação europeu é explícito ao dizer que não foram localizados estudos clínicos com preparações contendo apenas boldo, razão pela qual a planta não foi aceita como medicamento de uso bem estabelecido. Em outras palavras, quem toma chá de boldo está apoiado em uma tradição longa e documentada, não em um corpo de evidência clínica robusto. Isso não invalida o uso popular, mas define o que se pode e o que não se pode afirmar.
Registro Histórico de Uso
Os compêndios de fitoterapia reunidos pela avaliação europeia registram a folha de boldo aplicada, ao longo do tempo, a um conjunto de queixas que hoje seriam descritas como digestivas e hepatobiliares leves. As entradas históricas mais recorrentes incluem constipação ocasional, desconforto estomacal, disfunção hepatobiliar menor, distúrbios digestivos em geral e flatulência.
Aqui cabe um alerta que muda bastante a leitura desse histórico. Algumas fontes antigas listam cálculos biliares entre as indicações do boldo. Essa recomendação foi revertida pela regulação moderna e hoje cálculo biliar consta como contraindicação formal, não como indicação. O tópico de contraindicações trata disso em detalhe.
O Que Mostram os Estudos em Humanos
Existe um estudo clínico pequeno, publicado na Revista Médica do Chile em 1995, que ajuda a dar plausibilidade ao uso tradicional. Doze voluntários saudáveis receberam 2,5 g de extrato seco de boldo ou placebo em dois períodos sucessivos de quatro dias, e o tempo de trânsito intestinal oro-cecal foi medido pelo teste de hidrogênio expirado. O trânsito ficou mais lento com o boldo, passando de 87 minutos com placebo para 112,5 minutos com o extrato, uma diferença estatisticamente significativa. É um resultado coerente com a ação antiespasmódica atribuída à planta, embora tenha sido obtido com extrato seco e não com a infusão caseira, e em um número muito pequeno de participantes.
Fora esse estudo, o restante da pesquisa disponível é pré-clínica. Investigações com boldina em ratos mostraram aumento do fluxo biliar, com um mecanismo que os autores relacionaram a efeito osmótico e à ativação do receptor farnesoide X. Efeitos antioxidantes e hepatoprotetores da boldina também aparecem descritos em modelos de laboratório e em animais. Todos esses achados são pré-clínicos, feitos com a substância isolada e frequentemente em doses que não correspondem ao que uma xícara de chá entrega, e por isso não sustentam promessa de resultado terapêutico em pessoas.
Partes Utilizadas
Apenas as folhas secas, inteiras ou fragmentadas. O óleo essencial de boldo não deve ser ingerido nem aplicado sobre a pele, pelo teor elevado de ascaridol.

Como Preparar o Chá de Boldo do Chile
O preparo do boldo é simples, mas a quantidade importa mais do que se costuma imaginar, e a referência mais confiável é a posologia da monografia europeia.
- Aqueça 150 ml de água até levantar fervura.
- Coloque de 1 a 2 g de folha de boldo rasurada em uma xícara, o equivalente a cerca de uma colher de chá rasa.
- Despeje a água fervente sobre as folhas e tampe a xícara.
- Deixe em infusão por 10 minutos, mantendo o recipiente coberto para não perder os compostos voláteis.
- Coe e beba ainda morno.
Quantidade Diária e Duração do Uso
A posologia de referência para adultos e idosos é de 1 a 2 g de folha rasurada em 150 ml de água fervente, na forma de infusão, de duas a três vezes ao dia. O ponto que quase nunca aparece nas embalagens brasileiras é o limite de tempo: a avaliação europeia recomenda que a duração de uso fique restrita a duas semanas e que, se os sintomas persistirem além desse prazo, a pessoa procure um profissional de saúde. Boldo não é chá para tomar todo dia por meses a fio, e a razão principal para esse limite é o fígado, como explica a seção seguinte.
Produto isento de registro conforme RDC 240/2018.
Padrão de Qualidade Medicina Natural

Os chás Medicina Natural passam por inspeção e seleção antes de serem embalados, com fornecedores que seguem padrões definidos desde o plantio até a colheita e o transporte. Os lotes passam por análises laboratoriais e conferência de parâmetros microbiológicos conforme a Farmacopeia Brasileira, o que sustenta a estabilidade e a qualidade durante o período de validade.
- Chá com certificado de análise
- Folhas selecionadas
- Produto lacrado para preservar as características da planta
- Pronto para o preparo do chá
Contraindicações e Efeitos Colaterais do Chá de Boldo do Chile
Esta é a parte do texto que merece mais atenção, porque o boldo tem um perfil de segurança bem menos tranquilo do que sua popularidade sugere. As restrições abaixo vêm da monografia e do relatório de avaliação da Agência Europeia de Medicamentos e de relatos de caso publicados na literatura médica.
Cálculo Biliar e Obstrução das Vias Biliares
A folha de boldo é formalmente contraindicada em casos de obstrução do ducto biliar, colangite, doença hepática, cálculos biliares e qualquer outro distúrbio biliar que exija supervisão médica. Essa é uma contraindicação expressa, não uma recomendação de cautela.
O raciocínio por trás dela é o seguinte: preparações de boldo são descritas como estimulantes da secreção e da eliminação da bile, e estimular um sistema biliar que já está com passagem comprometida por um cálculo é justamente o cenário que se quer evitar. Se você tem ou já teve cálculo na vesícula, ou se sente dor recorrente no lado direito do abdômen depois de refeições gordurosas, não use chá de boldo por conta própria e converse com um médico antes.
Fígado e o Risco do Uso Prolongado
Há relatos de caso publicados de lesão hepática associada ao consumo de boldo, e eles são o motivo mais forte para respeitar o limite de duas semanas. Um artigo publicado em 2020 no European Journal of Case Reports in Internal Medicine descreve um homem de 87 anos internado com fraqueza, perda de apetite e icterícia, com enzimas hepáticas alteradas, que vinha consumindo infusões de folhas de boldo com regularidade no mês anterior. Após a suspensão do chá, houve recuperação clínica e laboratorial completa em uma semana.
Um caso mais grave foi publicado em 2025 nos Annals of Hepatology: uma mulher de 48 anos exposta durante 15 dias a um suplemento à base de Peumus boldus desenvolveu um quadro colestático progressivo, com ascite e encefalopatia hepática, e evoluiu para óbito. Casos assim são raros e envolvem circunstâncias individuais que nem sempre são replicáveis, mas mostram que a folha não é inerte. Uma revisão brasileira publicada na Revista Brasileira de Farmacognosia já recomendava, em 2008, cautela com o consumo prolongado do chá pelo potencial hepatotóxico.
A orientação prática é direta: use por períodos curtos, interrompa se aparecerem sinais como urina escura, amarelamento da pele ou dos olhos, cansaço incomum, náusea persistente ou perda de apetite, e procure avaliação médica nesses casos.
Gravidez e Amamentação
O uso não é recomendado durante a gravidez nem durante a amamentação. A razão é um achado de toxicidade reprodutiva obtido em animais. Em estudo publicado na Phytotherapy Research em 2000, ratas gestantes tratadas por via oral com extrato etanólico seco de boldo ou com boldina, nas doses de 500 ou 800 mg/kg, apresentaram alterações anatômicas nos fetos na dose mais alta, além de alguns casos de aborto. Na dose de 500 mg/kg não houve atividade teratogênica ou abortiva, mas o peso fetal caiu entre 28% e 40%.
São doses altas, em animais, e com extrato etanólico e não com infusão. Ainda assim, diante da ausência de dados de segurança em gestantes e da natureza do achado, tanto a agência europeia quanto a literatura brasileira convergem para a mesma conduta: evitar. A revisão brasileira citada acima destaca especificamente o primeiro trimestre.
Crianças e Adolescentes
O uso em crianças e adolescentes menores de 18 anos não é recomendado, por falta de dados adequados de segurança.
Anticoagulantes e Outros Medicamentos
A monografia europeia registra que não há interações relatadas de forma consolidada, mas o relatório de avaliação descreve dois relatos de caso isolados que merecem menção honesta.
O primeiro, publicado na revista Pharmacotherapy em 2001, descreve um paciente estabilizado com varfarina que apresentou aumento do INR, um marcador de coagulação, após começar a usar simultaneamente uma preparação líquida de boldo e cápsulas de feno-grego. O INR normalizou depois da suspensão dos dois produtos e voltou a subir quando o paciente os retomou. O detalhe decisivo é que, como os dois produtos foram usados juntos, não é possível concluir se a alteração se deveu ao boldo, ao feno-grego ou à combinação. Não existe demonstração de que o boldo sozinho altere a coagulação.
O segundo relato, de 2014, descreve um paciente transplantado renal de 78 anos com níveis subterapêuticos de tacrolimo enquanto usava uma preparação de boldo, com retorno aos níveis terapêuticos uma semana após a suspensão.
Diante disso, a conduta razoável é a seguinte: quem usa anticoagulantes, imunossupressores ou qualquer medicamento de janela terapêutica estreita deve avisar o médico antes de incluir chá de boldo na rotina. Isso não é o mesmo que afirmar que o boldo “afina o sangue”, afirmação que a evidência disponível não sustenta.
Reações Alérgicas
A monografia lista hipersensibilidade como contraindicação e registra que já houve relato de anafilaxia associada ao boldo, com frequência desconhecida. O caso de referência foi publicado na revista Allergy em 2004 e envolveu um paciente que, após ingerir infusão de folha de boldo, apresentou urticária generalizada, angioedema facial, dificuldade para engolir, alteração da voz e falta de ar, com reação confirmada por teste de provocação oral.
Ascaridol e a Forma de Preparo
O ascaridol, principal componente do óleo volátil da folha, é uma substância reconhecidamente tóxica, e é por causa dele que a avaliação europeia considera aceitáveis apenas os chás e os extratos aquosos de boldo, descartando extratos etanólicos e a folha rasurada consumida diretamente. A justificativa é técnica e favorável a quem toma chá: o ascaridol tem baixa solubilidade em água, de modo que a infusão arrasta pouco dessa substância. O óleo essencial de boldo, por sua vez, é descrito como um dos óleos mais tóxicos conhecidos e não deve ser usado por via interna nem externa.
Conservação
Conserve ao abrigo da luz, do calor e da umidade, preferencialmente em recipiente bem fechado. Variações de tonalidade entre lotes são normais em ervas desidratadas e não impedem o uso.
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Perguntas Frequentes sobre Chá de Boldo do Chile
Quem Tem Cálculo Biliar Pode Tomar Chá de Boldo?
Não. Cálculos biliares, obstrução do ducto biliar, colangite e doença hepática constam como contraindicações formais na monografia europeia da folha de boldo. Quem tem qualquer uma dessas condições deve conversar com um médico antes de usar a planta.
Grávidas Podem Tomar Chá de Boldo do Chile?
Não é recomendado. A segurança na gravidez não foi estabelecida e estudos em ratas gestantes mostraram alterações fetais e alguns casos de aborto com doses altas de extrato de boldo e de boldina. A mesma recomendação vale para o período de amamentação.
Quem Toma Anticoagulante Pode Tomar Boldo do Chile?
Existe um relato de caso de aumento do INR em um paciente que usava varfarina e passou a tomar boldo junto com feno-grego, sem que se possa atribuir o efeito a um dos dois produtos. Não há demonstração de que o boldo isolado interfira na coagulação, mas, pela estreiteza da margem terapêutica dos anticoagulantes, avise o médico antes de começar.
Posso Tomar Chá de Boldo Todos os Dias por Muito Tempo?
Não. A recomendação europeia é limitar o uso a duas semanas. Há relatos de caso publicados de lesão hepática associada ao consumo de boldo, incluindo um caso com desfecho fatal, e o uso prolongado é justamente o cenário que se quer evitar.
Qual a Dose Diária de Chá de Boldo?
A posologia de referência para adultos e idosos é de 1 a 2 g de folha rasurada em 150 ml de água fervente, em infusão, de duas a três vezes ao dia.
Boldo do Chile e Boldo Nacional São a Mesma Planta?
Não. O boldo do Chile é o Peumus boldus, cuja folha é importada. O boldo nacional, também chamado de falso boldo ou boldo de jardim, é o Plectranthus barbatus, espécie de outra família botânica e com composição química diferente.
Criança Pode Tomar Chá de Boldo?
Não é recomendado para menores de 18 anos, por falta de dados adequados de segurança nessa faixa etária.
O Chá de Boldo Faz Mal ao Fígado?
Em uso curto e nas quantidades de referência, o chá é considerado aceitável pela avaliação europeia. O risco aparece no uso prolongado e em doses altas, situação em que existem relatos de caso publicados de lesão hepática. Interrompa e procure um médico se surgirem icterícia, urina escura, náusea persistente ou cansaço incomum.
Boldo do Chile Precisa de Registro na Anvisa?
É produto isento de registro, conforme a RDC 240/2018.
Referências
Ver Todas as 9 Referências Citadas
- 2000 Almeida ER, Melo AM, Xavier H. Toxicological evaluation of the hydro-alcohol extract of the dry leaves of Peumus boldus and boldine in rats. Phytotherapy Research. 2000;14(2):99-102.
- 2016 European Medicines Agency, Committee on Herbal Medicinal Products. Assessment report on Peumus boldus Molina, folium. EMA/HMPC/453726/2016. Adotado em 22 de novembro de 2016.
- 2016 European Medicines Agency, Committee on Herbal Medicinal Products. European Union herbal monograph on Peumus boldus Molina, folium. EMA/HMPC/453725/2016. Adotado em 22 de novembro de 2016.
- 1995 Gotteland M, Espinoza J, Cassels B, Speisky H. Efecto de un extracto seco de boldo sobre el transito intestinal oro-cecal en voluntarios sanos. Revista Medica de Chile. 1995;123(8):955-960.
- 2001 Lambert JP, Cormier J. Potential interaction between warfarin and boldo-fenugreek. Pharmacotherapy. 2001;21(4):509-512.
- 2004 Monzon S, Lezaun A, Saenz D, Marquinez Z, Bernedo N. Anaphylaxis to boldo infusion, a herbal remedy. Allergy. 2004;59(9):1019-1020.
- 2020 Oliveira Sa A, Pimentel T, Oliveira N. Boldo-induced hepatotoxicity: a case of unexplained jaundice. European Journal of Case Reports in Internal Medicine. 2020;7(12):002116.
- 2025 Reyes-Ferreira E, Gonzalez-Chavez HE, Arrazola-Mendoza KS, et al. Liver injury induced by Peumus boldus with fatal outcome. Case report. Annals of Hepatology. 2025;30(Supl 1):101878.
- 2008 Ruiz ALTG, Taffarello D, Souza VHS, Carvalho JE. Farmacologia e toxicologia de Peumus boldus e Baccharis genistelloides. Revista Brasileira de Farmacognosia. 2008;18(2):295-300.






