A canela-sassafrás (Ocotea odorifera, sinônimo Ocotea pretiosa) é uma árvore nativa da Mata Atlântica brasileira, um dos grandes tesouros da flora nacional. Suas cascas avermelhadas e aromáticas, usadas há séculos em forma de chá, deram origem a nomes populares como canela-cheirosa, sassafrás-do-Brasil e sassafrasinho. A árvore pode atingir até 25 metros de altura, com tronco robusto e copa densa, e hoje figura entre as espécies ameaçadas de extinção da Mata Atlântica, resultado da exploração histórica de sua madeira e de seu óleo essencial.
Sumário do Artigo
- O Que É a Canela-Sassafrás?
- História do Chá de Canela-Sassafrás
- Propriedades Tradicionalmente Atribuídas à Canela-Sassafrás
- Composição Química e Fitoquímicos Ativos
- Benefícios Associados ao Chá de Canela-Sassafrás
- Como Preparar o Chá de Canela-Sassafrás
- Formas de Uso Externo
- Combinações Tradicionais
- Riscos, Cuidados e Contraindicações da Canela-Sassafrás
- Ocotea odorifera: Uma Espécie Ameaçada
- Perguntas Frequentes sobre Canela-Sassafrás
O Que É a Canela-Sassafrás?
A canela-sassafrás é uma árvore perene da família Lauraceae, cujo nome científico formal é Ocotea odorifera. É espécie endêmica da Mata Atlântica, ocorrendo principalmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. O tronco costuma ser reto, podendo chegar a 90 centímetros de diâmetro, com folhas simples, alternas e de coloração verde-escura brilhante. As flores são pequenas e amareladas, reunidas em inflorescências discretas, e os frutos são pequenas drupas escuras que servem de alimento para diversas aves, papel importante na dispersão de suas sementes.

O componente químico mais conhecido da planta é o safrol, principal constituinte do óleo essencial e responsável pelo aroma característico, semelhante ao da canela asiática. No passado, esse óleo foi amplamente usado pelas indústrias de alimentos e perfumes como aromatizante; hoje, seu uso é restrito em diversos países, inclusive no Brasil, por preocupações documentadas com sua toxicidade.
História do Chá de Canela-Sassafrás
Comunidades indígenas da Mata Atlântica já conheciam e utilizavam a canela-sassafrás muito antes da chegada dos colonizadores europeus. O chá das cascas era tradicionalmente usado para aliviar febres, dores e desconfortos digestivos, ocupando lugar de destaque na farmacopeia natural desses povos.
Com a chegada dos portugueses, o aroma da planta despertou interesse comercial. A exploração da madeira e do óleo essencial, rico em safrol, tornou-se atividade lucrativa: a madeira era usada em móveis e embarcações, e o óleo passou a ser exportado para a Europa como ingrediente de perfumes e medicamentos. Essa demanda impulsionou um ciclo de extração intensa que se aprofundou ao longo do século vinte, quando o Brasil chegou a ser o maior produtor mundial de safrol natural, com um custo ambiental altíssimo para a Mata Atlântica.
Apesar da exploração comercial, o conhecimento popular sobre o chá das cascas persistiu ao longo das gerações, mantendo viva a tradição de seu uso mesmo com a espécie cada vez mais rara.
Propriedades Tradicionalmente Atribuídas à Canela-Sassafrás
A ciência moderna tem investigado boa parte do conhecimento popular sobre a canela-sassafrás, embora a maioria dos achados venha de estudos preliminares, muitas vezes em laboratório ou em animais, e não de ensaios clínicos em humanos. A seguir, as principais propriedades tradicionalmente atribuídas à planta.
Ação Anti-Inflamatória
A propriedade anti-inflamatória é uma das mais estudadas na canela-sassafrás. O composto S-(+)-reticulina, um alcaloide benzilisoquinolínico, é apontado como um dos principais responsáveis, atuando na inibição do inchaço e da migração de células inflamatórias em modelos de laboratório. Por isso, o chá da planta tem uso tradicional associado ao alívio de desconfortos articulares e da sensação de inchaço; ainda assim, artrite, reumatismo e outras doenças inflamatórias crônicas exigem diagnóstico e acompanhamento médico, e o chá não deve ser usado como substituto desse tratamento.
Atividade Antifúngica
A Ocotea odorifera também exibe atividade antifúngica documentada em estudos. Um dos compostos isolados, o Tellimagrandin II, mostrou-se eficaz contra fungos como a Candida parapsilosis, associada a infecções de pele e unhas. Por isso, preparações tópicas da planta têm uso tradicional como complemento no cuidado da pele, sempre em conjunto com orientação profissional quando há infecção instalada.
Efeito Diurético e Depurativo
O chá de canela-sassafrás é tradicionalmente reconhecido por seu efeito diurético, estimulando a eliminação de líquidos e ajudando a reduzir a sensação de inchaço. A planta também é associada a uma ação depurativa, auxiliando na eliminação de toxinas e contribuindo para a sensação geral de bem-estar.
Propriedade Analgésica
A canela-sassafrás tem uso tradicional no alívio de dores de cabeça e nevralgias leves, efeito atribuído em parte à sua ação anti-inflamatória. Compressas mornas preparadas com o chá também têm uso tradicional para alívio localizado de desconforto muscular.
Composição Química e Fitoquímicos Ativos
A riqueza da canela-sassafrás está em sua composição química complexa, rica em metabólitos secundários responsáveis por suas atividades biológicas. Conheça os principais fitoquímicos encontrados na planta.
Safrol
O safrol é o composto mais conhecido da canela-sassafrás, um fenilpropanoide que domina a composição do óleo essencial e confere à planta seu aroma característico. Historicamente, foi usado como precursor na síntese de outras substâncias, mas seu uso hoje é controlado: estudos associam o safrol, em altas doses, a toxicidade hepática e a um possível potencial cancerígeno, o que exige cautela no consumo de qualquer produto rico nesse composto.
Alcaloides
Entre os alcaloides presentes na canela-sassafrás, destaca-se a S-(+)-reticulina, associada em estudos de laboratório à inibição do edema e da migração de células de defesa, achados que ajudam a explicar cientificamente o uso tradicional da planta contra desconfortos articulares.
Taninos
Os taninos também estão presentes em quantidades significativas, com destaque para o Tellimagrandin II, um elagitanino com atividade antifúngica comprovada em laboratório. Estudos in vitro sugerem inclusive uma ação sinérgica desse composto com o antifúngico fluconazol, achado que reforça o interesse científico pela planta no campo das infecções fúngicas resistentes.
Outros Compostos
Além do safrol e dos alcaloides, a planta contém flavonoides, terpenos e lignanas, incluindo compostos como o α-eudesmol e o valenceno, que contribuem para seu perfil aromático e terapêutico. A interação entre essas substâncias pode gerar efeitos sinérgicos que ajudam a explicar a diversidade de usos tradicionais atribuídos à canela-sassafrás.
Benefícios Associados ao Chá de Canela-Sassafrás
O consumo do chá de canela-sassafrás, quando moderado e ocasional, está associado a uma série de benefícios tradicionais que a ciência começa a investigar com mais profundidade.
Alívio de Desconfortos Articulares
Graças à sua ação anti-inflamatória, o chá tem uso tradicional no alívio de desconfortos articulares e da sensação de rigidez. Isso não substitui, porém, o tratamento de condições como artrite e reumatismo, que devem ser acompanhadas por um médico.
Uso Tradicional para Questões de Pele
A atividade antifúngica da planta sustenta seu uso tradicional, em banhos e compressas, como complemento no cuidado de problemas de pele associados a fungos. Esse uso é sempre externo e não substitui a avaliação de um dermatologista.
Melhora da Digestão
A canela-sassafrás tem uso tradicional no alívio de gases e cólicas intestinais, graças a uma ação carminativa que ajuda a expelir gases, além de uma possível atividade antiespasmódica que relaxa a musculatura do trato digestivo.
Ação Antioxidante
Os compostos antioxidantes presentes na planta são estudados por seu papel na neutralização de radicais livres, moléculas associadas ao estresse oxidativo e ao envelhecimento celular, o que mantém vivo o interesse científico pela espécie.
Como Preparar o Chá de Canela-Sassafrás
A parte usada no preparo é a casca da árvore, que deve vir sempre de fontes confiáveis e de manejo sustentável, dada a fragilidade da espécie.
- Separe uma colher de sopa de casca de canela-sassafrás para cada litro de água.
- Leve a água ao fogo e, assim que ferver, adicione a casca.
- Cozinhe em fogo baixo por 5 a 10 minutos.
- Desligue o fogo, tampe a panela e deixe em infusão por mais 10 minutos.
- Coe o chá e sirva; o uso tradicional é de até duas xícaras por dia, começando com uma dose ainda menor para observar a reação do corpo.
Formas de Uso Externo
Compressas para Dores Musculares
Para uso externo, prepare uma decocção mais concentrada, com duas colheres de sopa de casca para cada litro de água, seguindo o mesmo processo de fervura e infusão. Deixe o líquido amornar, embeba um pano limpo e aplique sobre a área dolorida; esse uso tradicional é indicado para desconforto muscular.
Banhos para Questões de Pele
Para problemas de pele, uma opção tradicional é o banho de imersão com o chá concentrado, coado e adicionado à água morna da banheira por 15 a 20 minutos. Ao primeiro sinal de irritação ou piora, suspenda o uso e procure orientação de um dermatologista.
Combinações Tradicionais
O sabor adocicado e levemente picante da canela-sassafrás combina bem com gengibre e cúrcuma, reforçando a percepção de efeito anti-inflamatório e analgésico. Para um chá mais relaxante e digestivo, a combinação com camomila e erva-doce é tradicional, e cascas de laranja ou de limão adicionam um toque cítrico.
Riscos, Cuidados e Contraindicações da Canela-Sassafrás
O principal ponto de atenção é a presença do safrol, composto classificado como possivelmente cancerígeno para humanos e associado a toxicidade hepática em doses altas, inclusive em estudos com animais. Por esse motivo, o uso do safrol isolado, e seu uso como aditivo em alimentos, é proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e por agências regulatórias de outros países. Não existe uma dose diária de chá de canela-sassafrás cientificamente estabelecida como segura para consumo regular e prolongado; o uso deve ser ocasional, moderado e nunca diário por longos períodos.
O chá é contraindicado para gestantes, lactantes e crianças, já que não há estudos que garantam segurança para esses grupos, e para pessoas com doenças hepáticas ou renais. A automedicação, mesmo com plantas nativas, pode ser perigosa: consulte um médico ou fitoterapeuta antes de iniciar o uso, para que a dose e a frequência sejam adequadas ao seu caso, evitando uso contínuo e prolongado.
A ingestão de partes da planta também pode ser tóxica para cães e gatos, causando problemas gastrointestinais e hepáticos; mantenha a canela-sassafrás fora do alcance de animais domésticos e procure um veterinário imediatamente em caso de ingestão acidental.
Ocotea odorifera: Uma Espécie Ameaçada
A Ocotea odorifera é espécie da flora brasileira ameaçada de extinção, segundo o Ministério do Meio Ambiente e o IBAMA, resultado direto da exploração histórica de sua madeira e de seu óleo essencial. A regeneração natural da espécie é lenta, o que torna a recuperação das populações remanescentes ainda mais difícil.
Atualmente, a extração de produtos da canela-sassafrás é controlada por lei, e a compra de madeira, óleo ou cascas deve ser feita apenas de fontes que comprovem manejo florestal sustentável e procedência legal. Iniciativas de reflorestamento com mudas da espécie contribuem tanto para a preservação da canela-sassafrás quanto para a restauração da Mata Atlântica.
Ao adquirir cascas de canela-sassafrás, vale buscar informações sobre a origem do produto e priorizar fornecedores que trabalhem de forma legal e sustentável, evitando contribuir para a extração predatória de uma espécie já fragilizada.
Perguntas Frequentes sobre Canela-Sassafrás
O Chá de Canela-Sassafrás É Seguro para Consumo Diário?
Não é recomendado o uso diário e prolongado, pelo risco documentado do safrol presente na casca; o consumo deve ser ocasional e moderado.
Por Que o Safrol É Proibido em Alimentos no Brasil?
Porque é classificado como possivelmente cancerígeno e associado a toxicidade hepática em doses altas, motivo pelo qual a Anvisa proíbe seu uso como aditivo alimentar.
Grávidas Podem Tomar Chá de Canela-Sassafrás?
Não, o uso é contraindicado na gravidez, na amamentação e para crianças.
Quem Tem Doença no Fígado Pode Consumir Canela-Sassafrás?
Não é recomendado, pela contraindicação em doenças hepáticas e pelo risco de toxicidade do safrol.
A Canela-Sassafrás Está em Risco de Extinção?
Sim, é espécie ameaçada segundo o Ministério do Meio Ambiente e o IBAMA; prefira fontes com manejo sustentável comprovado.
Canela-Sassafrás Trata Artrite?
Há uso tradicional e achados preliminares de laboratório associados ao alívio de desconfortos articulares, mas artrite exige diagnóstico e tratamento médico.
Quantas Xícaras de Chá de Canela-Sassafrás Posso Tomar?
O uso tradicional é de até duas xícaras ao dia, ocasionalmente, começando com uma dose menor.
Canela-Sassafrás e Canela Comum São a Mesma Planta?
Não, são espécies diferentes: a canela-sassafrás é a Ocotea odorifera, nativa do Brasil, enquanto a canela comum vem de árvores do gênero Cinnamomum. Ambas pertencem à família Lauraceae, mas têm composição e propriedades distintas.
O Chá de Canela-Sassafrás Emagrece?
Não há evidências científicas diretas de que o chá emagreça. Seu efeito diurético pode causar uma perda de peso temporária pela eliminação de líquidos, não de gordura, e a planta não deve ser vista como um produto para emagrecimento.
Posso Usar o Óleo Essencial de Canela-Sassafrás?
O uso interno do óleo essencial é proibido no Brasil pela alta concentração de safrol. O uso tópico exige extrema cautela, sempre diluído em óleo carreador e após teste de alergia na pele.
Referências
Ver Todas as 11 Referências Citadas
Estudos Científicos Peer-Reviewed (5)
- PMC2021 Alcântara, B. G. V. de, et al. Confirmation of ethnopharmacological anti-inflammatory properties of Ocotea odorifera and determination of its main active compounds. Journal of Ethnopharmacology, 2021.
- PMC2011 Antifungal effects of Ellagitannin isolated from leaves of Ocotea odorifera (Lauraceae). Antonie van Leeuwenhoek, 2011.
- PEER2022 Enhancement of the antibiotic activity mediated by the essential oil of Ocotea odorifera and safrole. Microbial Pathogenesis, 2022.
- PMC2017 Identification of phenolic compounds and biologically related activities from Ocotea odorifera aqueous extract leaves. Food Chemistry, 2017.
- PMC2020 Chemical Diversity and Biological Activities of Essential Oils from the Genus Ocotea (Lauraceae). Molecules, 2020.
Leituras Complementares (6)
- 2010 Cansian, R. L., et al. Atividade antioxidante e antimicrobiana de extratos de canela-sassafrás (Ocotea odorifera (Vell.) Rowher). Perspectiva, 2010;34(127):129-137.
- Universidade Federal de Minas Gerais. Centro Especializado em Plantas Aromáticas, Medicinais e Tóxicas. Canela-sassafrás, sassafrás (cascas).
- 2002 Lorenzi, H. Árvores Brasileiras: Manual de Identificação e Cultivo de Plantas Arbóreas Nativas do Brasil, vol. 1. Instituto Plantarum, 2002.
- 2003 Carvalho, P. E. R. Espécies Arbóreas Brasileiras, vol. 1. Embrapa Informação Tecnológica, 2003.
- 2010 Simões, C. M. O., et al. Farmacognosia: da Planta ao Medicamento. Artmed Editora, 2010.
- 2014 Ministério do Meio Ambiente. Lista Nacional Oficial de Espécies da Flora Ameaçadas de Extinção, 2014.





