Dieta e Nutrição

Resveratrol: Efeitos e Propriedades

Benefícios, efeitos, fontes e propriedades medicinais do resveratrol (trans resveratrol), substância presente nos vinhos tintos e e algumas espécies de uvas.

Por Conselho Editorial22 Min de Leitura
11 Referências
Publicado em Atualizado em
Resveratrol
O resveratrol é um polifenol encontrado especialmente na casca das uvas escuras e no vinho tinto, conhecido por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

Poucos compostos naturais colecionaram tantas manchetes otimistas quanto o resveratrol. Desde a década de 1990, o nome aparece ligado a coração saudável, longevidade e vinho tinto, quase sempre com tom de descoberta definitiva. A literatura científica, no entanto, conta uma história bem mais contida: existe muita pesquisa de laboratório interessante e pouca evidência clínica robusta em seres humanos.

Este texto reúne o que se sabe até aqui, com atenção especial ao detalhe que costuma sumir das reportagens: a biodisponibilidade oral do composto é extremamente baixa, o que dificulta transformar resultados de bancada em efeitos mensuráveis no organismo humano. Quem quer entender o assunto sem promessas infladas encontra a seguir a cronologia da descoberta, os ensaios clínicos disponíveis, os mecanismos observados em cultura de células e os pontos de segurança que pedem conversa com profissional de saúde antes de qualquer suplementação.

Sumário do Artigo
  1. O Que É o Resveratrol
  2. História e Descoberta do Composto
  3. O Paradoxo Francês em Perspectiva
  4. Mecanismos de Ação Observados em Laboratório
  5. A Barreira da Biodisponibilidade
  6. Saúde Cardiovascular e Evidência Clínica Disponível
  7. Pesquisa Oncológica e o Que Ela Não Autoriza Concluir
  8. Envelhecimento e Longevidade em Análise
  9. Saúde Metabólica e Diabetes
  10. Fontes Naturais de Resveratrol
  11. Suplementos de Resveratrol e Seus Limites
  12. Segurança, Interações e Contraindicações
  13. Perguntas Frequentes

O Que É o Resveratrol

O resveratrol é um polifenol do grupo dos estilbenos, produzido por certas plantas como parte do sistema de defesa contra agressões do ambiente, entre elas fungos, lesões mecânicas e radiação ultravioleta. Quimicamente, trata-se do 3,5,4′-tri-hidroxiestilbeno, molécula que existe em duas formas isoméricas, a cis e a trans. A forma trans é a mais estudada e a mais estável, sendo também a que predomina nos extratos comerciais.

Nas plantas, o composto funciona como fitoalexina, substância sintetizada em resposta a estresse, e videiras atacadas por fungos aumentam a produção na casca das uvas. Essa origem defensiva explica por que o teor varia tanto entre lotes de um mesmo alimento, já que clima, exposição solar, pressão de doenças e tempo de colheita alteram o resultado final.

Do ponto de vista nutricional, o resveratrol não é nutriente essencial: ninguém desenvolve carência dele, e não há recomendação diária estabelecida por órgãos de referência. Trata-se de um composto bioativo da dieta, categoria de substâncias com atividade biológica demonstrada em pesquisa, porém sem necessidade fisiológica comprovada.

História e Descoberta do Composto

A primeira descrição do resveratrol na literatura científica data de 1940. Naquele ano, o pesquisador japonês Michio Takaoka isolou a substância a partir das raízes de Veratrum grandiflorum, planta da família Melanthiaceae nativa do leste asiático. O nome do composto combina justamente o gênero Veratrum com o resorcinol, anel di-hidroxilado presente na estrutura da molécula.

Muitos textos de divulgação erram esse ponto, inclusive em português: a espécie do isolamento original foi Veratrum grandiflorum, e não Veratrum album, o heléboro-branco europeu. As duas plantas pertencem ao mesmo gênero, mas se trata de espécies distintas, e a atribuição equivocada se repete de artigo em artigo há décadas.

Em 1963, Nonomura e colaboradores obtiveram resveratrol de Polygonum cuspidatum, nome ainda corrente na literatura farmacológica e hoje tratado pela taxonomia como sinônimo de Reynoutria japonica, erva-daninha asiática de crescimento agressivo cuja raiz recebe o nome de ko-jo-kon no Japão. Essa foi a virada prática da história do composto, porque a espécie é abundante, concentra a substância em quantidade muito superior à das uvas e cresce rápido. Até hoje, a maior parte dos suplementos vendidos no mundo usa extrato dessa raiz como matéria-prima, e não extrato de uva.

O salto para a cultura popular veio em 1992, quando Siemann e Creasy relataram a presença de resveratrol em vinhos tintos. A descoberta caiu em terreno fértil, com os meios de comunicação já discutindo o chamado paradoxo francês. Dali em diante, o composto passou a ser tratado como explicação bioquímica de um fenômeno epidemiológico complexo, associação que a pesquisa posterior não sustentou.

O Paradoxo Francês em Perspectiva

O paradoxo francês nasceu da observação de que a França apresentava taxas relativamente baixas de doença coronariana apesar de uma dieta rica em gordura saturada. Como o consumo de vinho tinto era alto no país, a bebida virou candidata a fator protetor, e o resveratrol virou candidato a molécula responsável.

A aritmética, porém, não colabora. O teor de resveratrol no vinho tinto costuma ficar na casa de poucos miligramas por litro, com variação conforme a casta, o método de vinificação e a região produtora. Estudos que observaram efeitos metabólicos em humanos usaram doses de centenas de miligramas por dia, quantidade que exigiria consumo diário de dezenas de litros de vinho. Weiskirchen e Weiskirchen abordaram exatamente essa questão em 2016, e a conclusão foi direta: não existe volume de vinho compatível com saúde que entregue as doses dos ensaios.

Existe ainda um problema de causalidade. O etanol é um carcinógeno reconhecido e um fator de risco para arritmias, doença hepática e hipertensão, de modo que qualquer eventual ganho atribuído a polifenóis precisa ser descontado do dano da própria bebida. A epidemiologia mais recente atribui o padrão francês a uma combinação de fatores, entre eles diferenças metodológicas no registro de óbitos, hábitos alimentares regionais, nível de atividade física e padrões de refeição. Portanto, o paradoxo francês hoje é tratado como hipótese parcialmente desacreditada, e não como prova de que um único composto protege o coração.

Mecanismos de Ação Observados em Laboratório

A maior parte do entusiasmo com o resveratrol vem de experimentos in vitro, isto é, de culturas de células expostas diretamente ao composto, e de modelos animais. Meng e colaboradores, em revisão de 2020, catalogaram um conjunto amplo de vias moleculares afetadas nesse tipo de ensaio, achados reais dentro do contexto em que foram obtidos, embora descrevam o comportamento de células em placa, não o de um organismo que digere, absorve e metaboliza a substância.

Sirtuínas e a Hipótese da SIRT1

O mecanismo mais citado envolve a ativação da SIRT1, enzima da família das sirtuínas ligada à regulação do metabolismo energético e da resposta celular ao estresse. Como as sirtuínas também são ativadas por restrição calórica, surgiu a ideia sedutora de um composto capaz de imitar os efeitos do jejum sem redução de calorias. Trabalhos posteriores questionaram parte desse modelo, sugerindo que a ativação observada dependia do sistema de teste utilizado e que a via AMPK poderia ser o alvo intermediário. Em síntese, a hipótese da SIRT1 permanece em debate no meio científico, longe de ser mecanismo confirmado em humanos.

Ação Antioxidante e Modulação Inflamatória

Em cultura, o resveratrol neutraliza espécies reativas de oxigênio e interfere na via do NF-kB, fator de transcrição central na resposta inflamatória. Kuršvietienė e colaboradores descreveram esse conjunto de efeitos em 2016, incluindo modulação de citocinas e de enzimas antioxidantes endógenas. Ainda assim, a potência antioxidante medida em tubo de ensaio tem valor preditivo limitado, pois o organismo dispõe de sistemas próprios de defesa e a concentração que chega aos tecidos é ordens de grandeza menor que a usada nos experimentos.

A Barreira da Biodisponibilidade

Aqui está o ponto que reorganiza a leitura de todo o restante deste texto. O resveratrol é bem absorvido no intestino, com taxas de absorção que passam de setenta por cento em alguns estudos, mas quase nada permanece na forma livre e ativa. A conjugação com glicuronídeos e sulfatos ocorre na parede intestinal e no fígado antes que o composto alcance a circulação sistêmica, e a meia-vida do resveratrol livre no plasma se conta em poucos minutos; são os conjugados formados nesse processo que persistem por horas. Salehi e colaboradores discutiram essa limitação em 2018, ao tratar o composto como uma faca de dois gumes cujo desempenho farmacocinético compromete a aplicação clínica.

A consequência prática é incômoda para o marketing de suplementos. Concentrações que produzem efeitos espetaculares em placa de cultura raramente são alcançadas no plasma humano com doses orais realistas, e boa parte dos experimentos de bancada usa concentrações suprafisiológicas, isto é, acima do que o corpo consegue atingir. Por isso, cada mecanismo descrito acima deve ser lido como possibilidade biológica em investigação, e não como efeito esperado de uma cápsula tomada no café da manhã.

Guarde esse dado, porque ele reaparece em todas as áreas de pesquisa tratadas a seguir. Cardiologia, oncologia, metabolismo e envelhecimento esbarram no mesmo obstáculo: entre o resultado de laboratório e o efeito no corpo humano existe uma barreira farmacocinética que nenhuma das promessas comerciais resolveu até agora.

Saúde Cardiovascular e Evidência Clínica Disponível

Os ensaios em humanos que investigaram desfechos cardiovasculares produziram resultados mistos, e a limitação farmacocinética descrita acima ajuda a entender por quê. Ramírez-Garza e colaboradores revisaram intervenções clínicas em 2018 e encontraram sinais modestos em marcadores intermediários, com efeitos inconsistentes sobre o perfil lipídico, melhora discreta de função endotelial em alguns grupos e redução pequena de pressão arterial em subgrupos de risco.

Modesto é a palavra certa aqui, pois os estudos costumam ser curtos, heterogêneos e pequenos, com variação de dose, formulação e população que dificulta a comparação direta entre eles. Nenhum ensaio de grande porte demonstrou redução de eventos duros, como acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio ou morte cardiovascular, e é esse tipo de desfecho que define utilidade clínica de verdade.

Existe também um padrão recorrente na literatura: quando o efeito aparece, ele tende a surgir em pessoas com alteração metabólica prévia, como diabetes tipo 2 ou síndrome metabólica, enquanto voluntários saudáveis costumam apresentar resultados nulos. Qualquer benefício eventual parece depender, portanto, de contexto clínico específico ainda não confirmado em estudos maiores.

Pesquisa Oncológica e o Que Ela Não Autoriza Concluir

Em modelos de laboratório, o resveratrol interfere em processos relevantes para a biologia tumoral, entre eles angiogênese, apoptose e progressão do ciclo celular. Linhagens celulares de tumores diversos respondem ao composto com redução de proliferação, e alguns modelos animais mostraram diminuição do crescimento tumoral. Nada disso, contudo, se converteu em terapia.

Berman e colaboradores revisaram em 2017 os ensaios clínicos publicados até então e identificaram o gargalo com clareza. As concentrações necessárias para reproduzir os efeitos observados em cultura não são atingidas nos tecidos humanos com suplementação oral, e os estudos em pacientes foram majoritariamente de fase inicial, desenhados para avaliar segurança e farmacocinética, não eficácia. Um dos poucos ensaios de fase 2 com dose alta terminou antes do previsto por casos graves de insuficiência renal, episódio retomado adiante na seção de segurança.

O recado precisa ser explícito, principalmente em um assunto tão sensível. O resveratrol não é tratamento para câncer, não substitui nenhuma terapia oncológica e não deve ser adotado por conta própria durante tratamento em curso, inclusive porque interações com quimioterápicos são plausíveis e pouco estudadas. Quem enfrenta um diagnóstico oncológico precisa de acompanhamento de equipe especializada, e qualquer suplemento deve passar pelo crivo do oncologista responsável.

Envelhecimento e Longevidade em Análise

A fama de composto antienvelhecimento nasceu de experimentos com organismos simples. Leveduras, moscas e nematoides expostos ao resveratrol apresentaram aumento de tempo de vida em alguns protocolos, resultado que rendeu manchetes e financiamento. Tentativas de replicação em outros laboratórios, porém, produziram resultados contraditórios, e a extrapolação de espécies com fisiologia tão distinta da humana já seria frágil mesmo sem essa controvérsia.

Em camundongos, o efeito mais consistente apareceu em animais alimentados com dieta rica em gordura, nos quais o composto atenuou parte do dano metabólico, ao passo que roedores em dieta normal não viveram mais. Esse detalhe delimita o achado: houve mitigação parcial de um dano induzido, e não extensão de longevidade em condições saudáveis.

Do lado humano, o trabalho mais citado é o de Timmers e colaboradores, publicado em 2011, que administrou cento e cinquenta miligramas diários de resveratrol a onze homens obesos durante trinta dias e registrou alterações no metabolismo energético descritas como semelhantes às da restrição calórica. O estudo é curto, pequeno e restrito a um perfil específico de participante, portanto não sustenta conclusões sobre expectativa de vida. Pesa ainda a exposição sistêmica reduzida da via oral, que aumenta a distância entre o efeito visto em bancada e o efeito possível em quem toma cápsula. A Harvard Health Publishing já resumia a situação em 2012, ao apontar que o entusiasmo em torno do composto seguia maior que as evidências capazes de sustentá-lo.

Saúde Metabólica e Diabetes

Entre todas as áreas investigadas, o metabolismo da glicose é a que reúne os sinais mais interessantes, embora ainda inconclusivos. Ghanim e colaboradores conduziram em 2010 um ensaio com extrato de Polygonum cuspidatum fornecendo quarenta miligramas diários de resveratrol e observaram redução de marcadores inflamatórios e supressão de espécies reativas de oxigênio, com efeito sobre a via do NF-kB compatível com o que se via em laboratório. O desenho, contudo, limita a leitura: participaram vinte adultos saudáveis e de peso normal, durante seis semanas, de modo que o resultado indica plausibilidade biológica e não benefício demonstrado em quem convive com diabetes.

Outros ensaios investigaram glicemia de jejum, hemoglobina glicada e sensibilidade à insulina em pessoas com diabetes tipo 2, e o conjunto de resultados é francamente heterogêneo. Algumas metanálises encontraram reduções pequenas de glicemia de jejum, outras não encontraram diferença em relação ao placebo, e a variação de dose entre os protocolos, que vai de poucas dezenas a mais de mil miligramas diários, ajuda a explicar a divergência. Some-se a isso a conjugação rápida já descrita, que faz a fração realmente ativa no plasma mudar bastante entre formulações e entre indivíduos.

Para quem convive com diabetes, a leitura prática é conservadora. Nenhum suplemento de resveratrol substitui ajuste alimentar, medicação prescrita ou monitoramento glicêmico, e a combinação com hipoglicemiantes exige acompanhamento, já que efeitos aditivos sobre a glicemia são teoricamente possíveis.

Fontes Naturais de Resveratrol

O composto aparece em quantidades pequenas e bastante variáveis em alimentos vegetais. As fontes alimentares mais citadas incluem amendoim, amora, cacau, mirtilo, pistache e uva, com destaque para a casca das uvas escuras. O suco de uva integral contém o composto, ainda que em teor geralmente inferior ao do vinho tinto, porque a maceração prolongada com as cascas durante a vinificação extrai mais polifenóis.

Fora da alimentação, a fonte de maior concentração continua sendo a raiz de Polygonum cuspidatum, empregada há séculos na medicina tradicional chinesa e japonesa e usada hoje como matéria-prima industrial. Nenhum desses alimentos, isoladamente, fornece as doses testadas em pesquisa, o que não os torna menos valiosos: frutas vermelhas, oleaginosas e uvas entregam fibras, minerais e vitaminas, além de centenas de outros polifenóis que atuam em conjunto.

Essa é, aliás, a diferença de raciocínio entre dieta e suplemento, pois padrões alimentares ricos em vegetais mostram associação consistente com melhores desfechos em estudos populacionais, enquanto compostos isolados desses mesmos alimentos raramente reproduzem o efeito quando testados sozinhos.

Suplementos de Resveratrol e Seus Limites

Os suplementos comerciais costumam trazer trans-resveratrol obtido de Polygonum cuspidatum, em doses que variam de cinquenta a quinhentos miligramas por cápsula, com produtos que ultrapassam esse patamar. A variação de qualidade entre marcas é um problema documentado, com diferenças relevantes entre o teor declarado no rótulo e o teor real, além de diferenças na proporção entre as formas cis e trans.

A biodisponibilidade limitada motivou o desenvolvimento de formulações alternativas. Existem produtos com micronização, com nanoencapsulamento e com piperina, alcaloide da pimenta-preta que inibe enzimas de conjugação e pode elevar a concentração plasmática do composto. Tais estratégias aumentam a exposição sistêmica em estudos farmacocinéticos, porém não há demonstração de que essa exposição maior se traduza em benefício clínico superior, e a piperina interfere no metabolismo de diversos medicamentos, o que adiciona risco de interação.

Quem considera o uso deve tratar a decisão com o mesmo cuidado aplicado a um medicamento, verificando dose por cápsula, laudo de análise, procedência do fabricante e registro do produto, além de levar o rótulo à consulta médica ou com nutricionista antes de iniciar o uso contínuo.

Segurança, Interações e Contraindicações

Em doses baixas e por períodos curtos, o resveratrol costuma ser bem tolerado. Shaito e colaboradores revisaram em 2020 os efeitos adversos relatados na literatura e mostraram que o perfil de segurança muda conforme a dose sobe. Em protocolos com um grama ou mais por dia, aumentam os relatos de cólicas abdominais, diarreia, flatulência e náusea, sintomas que levaram à interrupção de participantes em ensaios clínicos.

O episódio mais grave registrado em pesquisa clínica veio de um ensaio oncológico de fase 2 com formulação micronizada em dose alta. Cinco participantes com mieloma múltiplo desenvolveram insuficiência renal, dois precisaram de hemodiálise temporária e o estudo foi encerrado antes do previsto, conforme relataram Popat e colaboradores em 2013. Boa parte desses pacientes já apresentava comprometimento renal prévio, e a desidratação provocada por vômito e diarreia intensos agravou o quadro, contexto que explica o evento sem torná-lo irrelevante: dose alta em organismo fragilizado não é território seguro.

A interação de maior gravidade envolve fármacos que afetam a coagulação. O resveratrol inibe a agregação plaquetária e ainda interfere em enzimas do citocromo P450 responsáveis pela depuração de vários medicamentos, de modo que o uso concomitante com antiagregantes plaquetários, anticoagulantes como a varfarina e anti-inflamatórios não esteroides pode aumentar o risco de sangramento. Pessoas em uso desses medicamentos não devem iniciar a suplementação sem avaliação médica, e o mesmo cuidado vale no período que antecede procedimentos cirúrgicos, quando a suspensão prévia costuma ser recomendada.

Há ainda o capítulo da atividade estrogênica, já que o composto apresenta afinidade por receptores de estrogênio em modelos experimentais, ora como agonista, ora como antagonista, conforme o tecido e a concentração. Diante dessa ambiguidade, pessoas com histórico de tumores hormônio-dependentes precisam de orientação individualizada.

Crianças, gestantes e lactantes não devem usar suplementos de resveratrol, porque faltam dados de segurança nessas populações. A ausência de estudos não significa ausência de risco, e a regra prudente em situações desse tipo é não expor grupos vulneráveis a compostos sem histórico de avaliação adequada. Portadores de doença hepática ou renal também merecem avaliação prévia, tanto porque o metabolismo e a eliminação do composto dependem desses órgãos quanto pelo histórico de lesão renal descrito acima.

Perguntas Frequentes

O Resveratrol Realmente Aumenta a Longevidade?

Não existe evidência de que a suplementação prolongue a vida humana. O que se observou foi extensão de tempo de vida em organismos simples, com resultados difíceis de replicar, e alterações metabólicas em estudos curtos com poucos participantes. Longevidade é um desfecho que exige décadas de acompanhamento, e nenhum estudo desse porte foi realizado com o composto.

Quanto Vinho Tinto Seria Preciso Beber para Alcançar as Doses dos Estudos?

Quantidades incompatíveis com qualquer noção de saúde, na casa de dezenas de litros por dia. O teor de resveratrol no vinho tinto é de poucos miligramas por litro, enquanto os ensaios usaram centenas de miligramas diários. Somado ao dano conhecido do álcool, o cálculo elimina o vinho como estratégia de obtenção do composto.

Suplementos de Resveratrol Funcionam Melhor que os Alimentos?

Suplementos entregam doses maiores, mas dose maior não equivale a benefício comprovado. A biodisponibilidade baixa limita quanto do composto circula em forma ativa, e os ensaios clínicos com cápsulas produziram resultados mistos. Alimentos como amendoim, frutas vermelhas e uvas oferecem o composto em um conjunto nutricional mais amplo, com evidência populacional favorável.

Qual É a Dose Usada nas Pesquisas com Humanos?

A variação é enorme, indo de cerca de cinquenta miligramas a mais de mil miligramas por dia, o que dificulta comparar estudos entre si. Doses acima de um grama diário se associam a mais efeitos gastrointestinais. Não existe dose padronizada com eficácia estabelecida, e essa é justamente uma das lacunas apontadas nas revisões da área.

O Resveratrol Serve para Tratar Câncer?

Não. A atividade antitumoral descrita ocorre em células cultivadas e em modelos animais, com concentrações que não são atingidas em tecidos humanos por via oral. Os ensaios clínicos publicados foram de fase inicial e não demonstraram eficácia terapêutica. Tratamento oncológico requer equipe especializada, e qualquer suplemento precisa ser aprovado pelo médico responsável.

Quem Toma Anticoagulante Pode Usar Resveratrol?

Não sem avaliação médica. O composto inibe a agregação plaquetária e pode somar efeito à varfarina e a outros medicamentos que interferem na coagulação, elevando o risco de sangramento. A mesma cautela se aplica a anti-inflamatórios de uso contínuo e ao período que antecede cirurgias, quando costuma haver recomendação de suspensão.

Gestantes e Lactantes Podem Tomar Resveratrol?

A recomendação é não usar. Faltam estudos de segurança em gestação e amamentação, e existe atividade estrogênica descrita em modelos experimentais que aumenta a incerteza. Consumir uvas e outras frutas que contêm o composto naturalmente segue sendo adequado dentro de uma alimentação equilibrada, o que é bem diferente de tomar cápsulas concentradas.

Quais São os Efeitos Colaterais Mais Comuns?

Em doses moderadas, o composto costuma ser bem tolerado. Conforme a dose aumenta, especialmente acima de um grama por dia, tornam-se frequentes cólicas abdominais, diarreia, flatulência e náusea. Houve ainda casos graves de insuficiência renal em um ensaio oncológico de dose alta com pacientes já debilitados, motivo suficiente para não improvisar dosagem e para manter acompanhamento profissional em qualquer uso prolongado.

Referências

11 Referências Citadas

Baseado em 11 Referências Citadas (11 Complementares).

Ver Todas as 11 Referências Citadas
  1. 2017 Berman, A. Y., Motechin, R. A., Wiesenfeld, M. Y., & Holz, M. K. (2017). The therapeutic potential of resveratrol: a review of clinical trials. NPJ Precision Oncology, 1, 35.
  2. 2010 Ghanim, H., Sia, C. L., Abuaysheh, S., Korzeniewski, K., Patnaik, P., Marumganti, A., Chaudhuri, A., & Dandona, P. (2010). An antiinflammatory and reactive oxygen species suppressive effects of an extract of Polygonum cuspidatum containing resveratrol. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 95(9), E1-E8.
  3. 2012 Harvard Health Publishing. (2012). Resveratrol: the hype continues. Harvard Medical School.
  4. 2016 Kuršvietienė, L., Stanevičienė, I., Mongirdienė, A., & Bernatonienė, J. (2016). Multiplicity of effects and health benefits of resveratrol. Medicina, 52(3), 148-155.
  5. 2020 Meng, X., Zhou, J., Zhao, C. N., Gan, R. Y., & Li, H. B. (2020). Health benefits and molecular mechanisms of resveratrol: a narrative review. Foods, 9(3), 340.
  6. 2013 Popat, R., Plesner, T., Davies, F., Cook, G., Cook, M., Elliott, P., Jacobson, E., Gumbleton, T., Oakervee, H., & Cavenagh, J. (2013). A phase 2 study of SRT501 (resveratrol) with bortezomib for patients with relapsed and or refractory multiple myeloma. British Journal of Haematology, 160(5), 714-717.
  7. 2018 Ramírez-Garza, S. L., Laveriano-Santos, E. P., Marhuenda-Muñoz, M., Storniolo, C. E., Tresserra-Rimbau, A., Vallverdú-Queralt, A., & Lamuela-Raventós, R. M. (2018). Health effects of resveratrol: results from human intervention trials. Nutrients, 10(12), 1892.
  8. 2018 Salehi, B., Mishra, A. P., Nigam, M., Sener, B., Kilic, M., Sharifi-Rad, M., Fokou, P. V. T., Martins, N., & Sharifi-Rad, J. (2018). Resveratrol: a double-edged sword in health benefits. Biomedicines, 6(3), 91.
  9. 2020 Shaito, A., Posadino, A. M., Younes, N., Hasan, H., Halabi, S., Alhababi, D., Al-Mohannadi, A., Abdel-Rahman, W. M., Eid, A. H., Nasrallah, G. K., & Pintus, G. (2020). Potential adverse effects of resveratrol: a literature review. International Journal of Molecular Sciences, 21(6), 2084.
  10. 2011 Timmers, S., Konings, E., Bilet, L., Houtkooper, R. H., van de Weijer, T., Goossens, G. H., Hoeks, J., van der Krieken, S., Ryu, D., Kersten, S., Moonen-Kornips, E., Hesselink, M. K. C., Kunz, I., Schrauwen-Hinderling, V. B., Blaak, E. E., Auwerx, J., & Schrauwen, P. (2011). Calorie restriction-like effects of 30 days of resveratrol supplementation on energy metabolism and metabolic profile in obese humans. Cell Metabolism, 14(5), 612-622.
  11. 2016 Weiskirchen, S., & Weiskirchen, R. (2016). Resveratrol: how much wine do you have to drink to stay healthy? Advances in Nutrition, 7(4), 706-718.

Este conteúdo foi útil?

O que você achou deste artigo?

Continue Lendo Neste Tópico

Pode Interessar